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PM condenado por tortura racial justifica que agrediu adolescente por ‘descontrole’

O caso aconteceu em fevereiro de 2020 em Salvador quando um policial agrediu um adolescente durante uma abordagem na região do subúrbio de Salvador; decisão ainda cabe recurso
PM agrediu adolescente durante uma abordagem no bairro periférico de Paripe, em Salvador. Caso aconteceu em fevereiro de 2020.

PM agrediu adolescente durante uma abordagem no bairro periférico de Paripe, em Salvador. Caso aconteceu em fevereiro de 2020.

— Reprodução

17 de dezembro de 2025

O soldado PM Laércio Santos Sacramento justificou que agrediu um adolescente de 16 anos durante uma abordagem policial porque estava em um “momento de descontrole”. O caso aconteceu em fevereiro de 2020 no bairro de Paripe, no Subúrbio de Salvador. As agressões e xingamentos foram registrados em um vídeo gravado por um morador da região.

Laércio e outros dois PMs, identificados como o subtenente Roque Anderson Dias Rocha e o soldado Márcio Moraes Caldeira, foram condenados no dia 18 de novembro deste ano pelo crime de tortura cometido em razão de discriminação racial. Os três perderam o cargo.

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A pena de Sacramento foi de três anos e 11 meses, inicialmente, em regime fechado. Já Dias Rocha e Moraes foram condenados por omissão e receberam a mesma pena de dois anos e sete meses, em regime aberto.

A decisão ainda não é definitiva e cabe recurso. A reportagem tentou contato com a defesa dos PMs, mas não obteve retorno até o fechamento da reportagem. O espaço segue aberto.

Vídeo registrou agressão do PM contra o adolescente

Era noite de 2 de fevereiro de 2020 quando o adolescente V.*, então com 16 anos, andava com um grupo de sete amigos e parou para falar com um colega que estava em um carro.

Minutos depois, três policiais abordaram o grupo e pediram para os jovens encostarem na parede. Em determinado momento, o adolescente V. teria tentado acalmar uma amiga e disse: “Fique calma porque aqui não tem ladrão, não”.

Em seguida, o PM Laércio agrediu o jovem e disparou xingamentos e comentários racistas, como “Você não é ladrão o quê? Você é vagabundo! Essa desgraça desse cabelo aqui, ó. Você é trabalhador, é viado?”.

Uma pessoa que morava em frente ao local da abordagem registrou a agressão. Nos 23 segundos de vídeo, é possível ver quando o PM Laércio agride o adolescente com socos, pontapés e tira um boné da cabeça do jovem.

O adolescente não reage. O PM segue em direção à viatura e vai embora. Os agentes não encontraram nada no veículo revistado nem com as vítimas abordadas.

Cinco meses depois do caso, o Ministério Público da Bahia (MP-BA) apresentou uma denúncia contra os três policiais. O órgão alega que os outros dois agentes, Dias Rocha e Moraes Caldeira, presenciaram os fatos e não impediram o colega. Com isso, estariam “contrariando o dever legal e funcional de reprimir a prática de ilícitos penais”.

Ainda conforme o MP-BA, a agressão cometida pelo policial teve como base o fenótipo da vítima, negro de cabelo crespo, e sua condição social.

“Associado ao preconceito de etnia (ao racismo), uniu-se à conduta do policial o preconceito de ordem social, vale dizer, o fato de a vítima ser moradora da periferia da cidade do Salvador, local predominantemente onde residem pessoas pobres”, argumentou o MP.

PM justifica que não foi racista por ‘já ter ajudado pessoas negras’

Segundo o relatório da Corregedoria da PM, ao qual a Alma Preta teve acesso, o PM Laércio Santos informou que ele e os dois colegas de farda estavam de plantão na Festa de Iemanjá e faziam uma ronda pelo bairro.

No dia, diversas ocorrências foram registradas e, durante a noite, eles foram acionados por moradores após indivíduos em um carro balearam três pessoas no final do bairro de Tubarão (em Paripe).

Já no local, os policiais decidiram prestar socorro a uma das vítimas e levá-la ao Hospital do Subúrbio. Foi quando avistaram um veículo com as mesmas características daquele apontado como suspeito.

O carro estava estacionado no acostamento e um grupo de jovens conversava com o motorista — um deles era o adolescente V. De acordo com o PM Laércio, quatro pessoas estavam dentro do carro e outras quatro estavam do lado de fora. O fato de o carro estar atravessado na rua dificultava a passagem do veículo que estava a caminho do hospital.

Ao dar voz de abordagem ao grupo, Laércio apontou que um dos jovens não atendeu à ordem de imediato e seguiu para a parede ‘de forma bem jocosa e lenta’. Foi quando disse a seguinte frase: “ninguém aqui é ladrão, não”.

O PM alega que ‘num momento de descontrole’, com a morosidade do abordado e preocupado com a prestação de socorro, ‘desferiu alguns golpes no cidadão que mostrava resistência à abordagem’.

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Ainda neste depoimento, o policial Laércio disse que ao ver o cabelo do abordado pintado de amarelo “pôde perceber que se tratava das cores que normalmente os marginais da área da facção criminosa conhecida como BDM utilizam”.

O PM argumentou também que o cabelo do jovem não foi a razão da abordagem, já que ele usava um chapéu e em Salvador muitas pessoas utilizam o cabelo ‘black’.

Ele também se justificou dizendo que se considera negro, “haja vista que no Brasil todos são de origem negra”, e que possui em seu registro funcional elogios por ter ajudado outras duas pessoas negras.

Em audiência, o agente reconheceu que agiu de “forma exagerada”. Disse ainda que foi um “fato isolado, não teve nada a ver com cor”.

Os outros dois PMs, Dias Rocha e Moraes Caldeira, informaram que não presenciaram as agressões pois estavam fazendo a varredura no carro apontado como suspeito. Eles não encontraram nada que incriminasse os jovens abordados.

Danos

Em audiência, realizada quando a vítima já tinha 18 anos, V. disse que, ao dizer que era trabalhador, o PM teria dito que “só podia ser mais uma preto da favela querendo dá baratino na polícia” (sic).

Após o ocorrido, o jovem disse que ficou com vergonha de sair na rua.

A reportagem entrou em contato com o advogado da vítima que foi constituído para o caso, mas ele informou que a família não vai se manifestar.

*Nome fictício criado como forma de proteger a identidade da vítima

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  • Dindara Paz

    Baiana, jornalista e graduanda no bacharelado em Estudos de Gênero e Diversidade (UFBA). Me interesso por temáticas raciais, de gênero, justiça, comportamento e curiosidades. Curto séries documentais, livros de 'true crime' e música.

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