O edital ELAS pela Terra, lançado pelo ELAS+ Doar Para Transformar, selecionou 19 organizações lideradas por mulheres cis, trans e pessoas de outras transidentidades, em todas as regiões do país. Cada grupo receberá até R$ 50 mil para desenvolver ações de enfrentamento à crise climática, totalizando R$ 900 mil em doações diretas.
Entre os grupos apoiados, 79% são liderados por mulheres negras, 32% por mulheres indígenas, 37% por jovens, 26% por pessoas LBTI+ e 10% por pessoas com deficiência. Elas estão distribuídas por todo o país: 42% no Nordeste, 26% no Norte, 21% no Sudeste e 11% no Sul.
As iniciativas contempladas atuam em áreas como recuperação de ecossistemas degradados, preservação de nascentes, reflorestamento, soberania e segurança alimentar, fortalecimento de redes comunitárias e produção de energia limpa em pequena escala. Em comum, elas partem do conhecimento local e da experiência direta com os impactos da crise climática, somados aos impactos históricos do racismo ambiental, do extrativismo predatório e da marginalização de suas comunidades.
Para Myrian Vasques, coordenadora da Associação das Mulheres Indígenas Ticuna (AMIT), a crise climática não pode ser dissociada das desigualdades históricas. “Os impactos da crise climática não são apenas estatísticas globais, eles são vivências diárias para as nossas comunidades, estão alterando nosso modo de viver, nossos meios de subsistência e até nossos vínculos culturais com o território. Os territórios que habitamos não são apenas espaços físicos, mas também espaços de pertencimento, memória e resistência. É urgente ouvir, respeitar e apoiar as soluções que vêm das próprias comunidades afetadas, que há décadas já atuam como guardiãs do meio ambiente”
Fundada em 1999 por mulheres agricultoras e artesãs, a AMIT atua na defesa dos direitos das mulheres e juventudes indígenas na região do Alto Rio Solimões, fortalecendo a cidadania e a autonomia. O apoio recebido pelo edital viabiliza a implementação de roças sem queima na comunidade indígena Filadélfia, ações emergenciais contra a seca e a realização de uma assembleia geral para aprovação do novo estatuto da organização.
As mulheres apoiadas não apenas denunciam os ataques socioambientais, como também constroem caminhos, respostas e soluções. Os grupos demonstram que justiça climática e justiça de gênero caminham juntas.
“Reconhecer que a defesa do território também é a defesa das identidades que nele vivem é um passo essencial para construir justiça climática, social e de gênero. Nós não queremos apenas continuar existindo nesses espaços, queremos viver com liberdade, cuidado e dignidade e respeito”, Completa Myrian.