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Tabaco barato, desigualdade racial cara: como o preço do cigarro aprofunda injustiças na saúde pública

Campanha #BaratoQueSaiCaro alerta que manter cigarro acessível amplia consumo, pressiona sistema de saúde e aprofunda desigualdades sociais no país
Ilustração faz alerta sobre os riscos do tabagismo.

Ilustração faz alerta sobre os riscos do tabagismo.

— Daniel Pereira/Alma Preta

18 de dezembro de 2025

Apesar dos avanços obtidos nas últimas décadas no controle do tabagismo, o Brasil vive hoje um paradoxo. Enquanto o conhecimento científico sobre os danos do cigarro se amplia, o produto segue cada vez mais acessível, aprofundando desigualdades e pressionando o sistema de saúde. 

Estudos e campanhas recentes indicam que o preço baixo do cigarro tem impacto direto tanto no consumo quanto na distribuição dos danos causados pelo tabaco. Uma das dimensões menos debatidas desse cenário é a relação entre raça e tabagismo. 

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O artigo “As cores do tabagismo: relação entre raça e consumo de tabaco no Brasil“, publicado em 25 de fevereiro de 2022 na Revista Brasileira de Cancerologia, do Instituto Nacional de Câncer (INCA), chama atenção para a ausência desse recorte nas políticas e pesquisas sobre o tema.

Raça fora do centro do debate sobre tabagismo

Segundo os autores do estudo, embora o consumo de tabaco seja influenciado por fatores sociais, ambientais, psicológicos e genéticos, a dimensão racial permanece à margem do debate. 

O artigo afirma que a relação entre raça e tabagismo “talvez seja um dos tópicos mais inexplorados e menos discutidos no âmbito do controle do tabaco no Brasil”.

A análise indica que pessoas de origem africana apresentam maior vulnerabilidade tanto para iniciar o consumo quanto para desenvolver doenças associadas ao fumo.  O estudo indica que, a prevalência do tabagismo é mais elevada entre pessoas que se identificam como pretas (13,7 %) e pardas (13,5 %), em comparação com brancas (11,8 %), o que evidencia a desigualdades no consumo de tabaco por raça/cor. 

Esses indicadores mostram que a população de origem africana apresenta maior vulnerabilidade tanto para iniciar o consumo quanto para desenvolver doenças associadas ao fumo, refletindo fatores sociais e econômicos que contribuem para essa persistente desigualdade em saúde.

De forma indireta, os pesquisadores destacam que essa exposição ampliada não pode ser compreendida sem considerar desigualdades históricas que moldam o acesso à saúde, à informação e às condições de vida.

O próprio artigo aponta a escassez de estudos nacionais sobre o tema. “Poucos estudos, a respeito dessa relação, foram publicados no Brasil”, alertam os autores, ao destacar que essa lacuna limita a formulação de políticas públicas capazes de responder às desigualdades raciais no campo da saúde.

Preço baixo e acesso facilitado

Enquanto esse recorte segue pouco explorado, outro fator central no controle do tabagismo permanece estagnado: o preço do cigarro. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Banco Mundial defendem que manter preços elevados, com reajustes periódicos e tributação rigorosa, é a medida mais custo-efetiva para desestimular o consumo de produtos nocivos.

No Brasil, porém, a política de preços caminha em sentido oposto. Após oito anos sem reajustes, o preço mínimo do maço subiu 30% no ano passado, passando de R$ 5 para R$ 6,50. A correção ficou aquém do necessário. 

Segundo dados divulgados pela Receita Federal, considerando inflação acumulada e crescimento da renda per capita, o valor deveria ter chegado a R$ 11,88 em março de 2024.

A defasagem resultou em uma redução sustentada do preço real do cigarro, que já figura entre os mais baixos da América Latina quando comparado à renda da população. Dados preliminares do Vigitel 2024 indicam aumento na prevalência de fumantes, tendência associada à maior facilidade de acesso ao produto.

O custo invisível do tabagismo e a pressão por mudanças

Além do impacto individual, o tabagismo impõe um custo coletivo elevado. Estudo encomendado pela ACT ao Instituto de Efectividad Clínica y Sanitária (IECS) estima que uma redução de 30% no consumo de tabaco poderia salvar mais de 139 mil vidas em dez anos e evitar milhares de casos de câncer, doenças cardíacas, DPOC e derrames.

Os efeitos econômicos também são expressivos. Segundo o IECS, essa redução representaria uma economia de R$ 118 bilhões, considerando gastos diretos com saúde, perdas de produtividade e arrecadação de impostos. 

Atualmente, os custos médicos diretos associados ao tabagismo chegam a R$ 75 bilhões por ano, enquanto as perdas por mortes precoces e redução da capacidade de trabalho somam R$ 43 bilhões.

Em contraste, a arrecadação federal com a venda de cigarros alcançou apenas R$ 8,3 bilhões em 2025, evidenciando um desequilíbrio entre ganhos fiscais e custos sociais. A discussão ganhou novo fôlego com a reforma tributária sancionada em janeiro, que incluiu produtos de tabaco no imposto seletivo.

Alertas da Anvisa sobre os riscos do consumo de cigarros. Foto: Reprodução/Anvisa

Sem reajustes, tributação perde força no controle do tabagismo

Mesmo sendo um dos principais fatores de risco evitáveis para doenças e mortes no Brasil, o cigarro nunca esteve tão acessível. É o que aponta a nota técnica “Tabaco, álcool e alimentos: evolução dos preços e prioridades nas políticas públicas”, preparada pelo economista Valter Palmieri Júnior e publicada pela ACT Promoção de Saúde em maio de 2024, que analisa a relação entre preços, impostos e consumo de produtos nocivos à saúde.

O documento ressalta que a tributação do tabaco como estratégia de controle do consumo é defendida há séculos. A introdução do estudo cita Adam Smith, que já em 1776 classificava produtos como tabaco, açúcar e álcool como mercadorias “não necessárias à vida” e, por isso, adequadas à tributação elevada, justamente por seus impactos sociais e econômicos negativos.

No Brasil, no entanto, essa lógica tem sido esvaziada. Apesar de o cigarro carregar uma carga tributária considerada alta, o preço final permanece baixo em comparação com outros países e está congelado desde 2016. 

Segundo a nota técnica, a ausência de reajustes no preço mínimo e nos impostos fez com que o produto se tornasse ainda mais acessível nos últimos anos. Enquanto isso, alimentos básicos tiveram aumentos expressivos. 

A análise mostra que, desde 2016, os preços dos alimentos domésticos subiram acima da inflação, enquanto o cigarro teve reajustes muito inferiores. Na prática, isso inverte prioridades de política pública: produtos nocivos ficaram relativamente mais baratos do que itens essenciais à alimentação das famílias brasileiras.

“De 2016 a 2024, o preço mínimo dos cigarros não sofreu nenhum reajuste, mas a cesta básica aumentou de R$ 385,20 para R$ 705,40, segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE). Ou seja, nesse período, comer alimentos básicos ficou mais caro, enquanto os cigarros, que são produtos extremamente nocivos, continuaram com o mesmo preço”, salienta Kauã Assunção, analista de Controle do Tabaco da ACT Promoção da Saúde, à Alma Preta.

Essa distorção pesa mais sobre a população de baixa renda. Com base na Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, a nota técnica aponta que fumantes brasileiros destinam, em média, cerca de 8% do rendimento mensal domiciliar per capita à compra de cigarros industrializados. 

O estudo destaca que, quanto menor for a renda, maior é o peso do cigarro nas despesas familiares, o que reduz recursos disponíveis para alimentação e outros gastos essenciais. Entre jovens e pessoas com menor escolaridade, esse comprometimento da renda é ainda maior.

“Além do tabagismo ser maior frequente entre pessoas pretas e pardas, o nível de escolaridade também tem influência: quanto mais tempo de estudos, menor a prevalência de fumo. Isso demonstra como as desigualdades sociais são refletidas no tabagismo, que está associado com mais de 50 doenças”, explica Kauã Assunção.

Ao mesmo tempo, políticas de aumento de preços são reconhecidas por terem impacto mais significativo justamente entre jovens e pessoas de menor poder aquisitivo, reduzindo o consumo e a iniciação ao tabagismo — efeito que deixa de ocorrer quando os preços permanecem estagnados.

Diante desse cenário, a ACT defende a retomada de políticas de controle mais rigorosas, com atualização do preço mínimo e fortalecimento da tributação sobre o tabaco. 

A nota técnica aponta ainda que a reforma tributária em discussão no país abre espaço para a adoção de impostos seletivos, mecanismo voltado a desestimular o consumo de produtos prejudiciais à saúde.  O texto destaca que, à época de sua publicação, a reforma tributária ainda estava em discussão e o imposto seletivo não havia sido aprovado. 

Com o avanço do processo, o mecanismo foi incorporado ao novo modelo tributário, prevendo a incidência de imposto seletivo sobre produtos nocivos à saúde, como o tabaco. Apesar disso, ainda falta a definição das alíquotas que serão aplicadas ao setor.

Segundo o documento, essa é uma oportunidade de corrigir distorções e alinhar os preços do cigarro aos seus custos sociais e sanitários. Para a entidade, manter o cigarro barato não apenas facilita o acesso ao produto, como também amplia desigualdades e sobrecarrega o sistema de saúde. 

Campanha alerta que cigarro barato amplia riscos e custos para o país

A campanha #BaratoQueSaiCaro chama atenção para um ponto considerado central no controle do tabagismo no Brasil: o preço do cigarro. Segundo a iniciativa, a falta de atualização do preço mínimo e dos impostos do produto faz com que fumar se torne cada vez mais acessível, o que dificulta a redução do consumo e favorece a iniciação, especialmente entre jovens.

De acordo com o conteúdo divulgado no site da campanha, o valor mínimo do maço de cigarros ficou congelado por anos e teve um reajuste insuficiente, o que contraria as estratégias de saúde pública adotadas internacionalmente. A proposta defendida é clara: preços mais altos reduzem o consumo e ajudam a evitar mortes e doenças relacionadas ao tabagismo, especialmente em grupos populacionais vulneráveis.

O material reforça que o tabaco segue como um grave problema de saúde pública no país. Dados do Instituto de Efectividad Clínica y Sanitária (IECS), de 2025, citados pela campanha, apontam que o consumo de cigarros está associado a cerca de 177 mil mortes por ano no Brasil, além de elevados custos ao sistema de saúde, sobretudo no tratamento de câncer e doenças cardiovasculares e respiratórias.

A campanha também chama atenção para o peso econômico do tabagismo. Segundo os dados apresentados, o custo das doenças relacionadas ao fumo supera amplamente os ganhos obtidos com a venda legal de cigarros. 

A iniciativa aponta que, para cada real arrecadado com a indústria do tabaco, o país gasta múltiplos desse valor com tratamentos de saúde e outras consequências do consumo. A iniciativa também cita uma pesquisa do Instituto Nacional de Câncer (INCA), que revela o impacto econômico do tabagismo no país. De acordo com o levantamento, para cada real de lucro obtido pela indústria do tabaco, o Brasil desembolsa cinco reais em gastos com saúde destinados ao tratamento de doenças relacionadas ao fumo, além de outras consequências associadas ao consumo.

A campanha também destaca que há respaldo social para mudanças na política de preços. Levantamento citado no site mostra que cerca de 75% da população brasileira apoia o aumento anual do preço dos cigarros como forma de proteger a saúde e reduzir o número de fumantes.

Com o slogan “barato que sai caro”, a iniciativa defende que manter o cigarro acessível gera um custo coletivo alto, pago em vidas perdidas, sobrecarga do sistema de saúde e gastos públicos evitáveis. 

Para os organizadores, reajustar o preço mínimo e fortalecer a tributação sobre o tabaco são medidas urgentes para retomar avanços no controle do tabagismo no Brasil e para que a prevalência de fumo volte a cair.

Esta reportagem é resultado de uma parceria da Alma Preta com a ACT Promoção da Saúde e Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável.

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  • Formado em Jornalismo e licenciado em Letras-Português, morador da periferia de Maceió (AL) e pós-graduado em jornalismo investigativo pelo IDP. Com experiência em revisão, edição, reportagem, primeira infância e jornalismo independente. Tem trabalhos publicados no UOL (TAB, VivaBem, ECOA e UOL Notícias), Agência Pública, Ponte Jornalismo, Estadão e Yahoo.

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