O álbum homônimo de Cartola, lançado originalmente em 1976, completou 50 anos e ganhou uma nova versão, em formato de vinil. Na famosa capa, o músico e sua esposa, Dona Zica, aparecem enquadrados por uma janela. Ele de óculos escuro e ela com lenço na cabeça.
O relançamento em vinil pela Universal Music Brasil, dentro do projeto “Safra 76” — que até o fim de 2026 celebra álbuns daquele ano presentes no acervo da companhia — recoloca essa janela diante dos fãs.
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O disco vem dois anos após o primeiro LP solo, também pela Marcus Pereira, selo movido pelo projeto cultural de registrar repertórios de alto valor histórico. Sob produção de Juarez Barroso, o álbum de 1976, ao lado de seu antecessor com o mesmo nome, fixa em vinil um conjunto de canções que se tornariam núcleo da obra de Cartola.
Lado A
A canção “O mundo é um moinho” abre o LP como declaração definitiva. A flauta de Altamiro Carrilho anuncia a melodia pungente que sustenta um conselho construído sobre as marcas do sofrimento — e sintetizado no título. “Minha” mantém a desilusão amorosa sob andamento mais vivo, com o trombone de Nelsinho dialogando com o canto.
Em “Sala de recepção”, o morro da Mangueira surge descrito com delicadeza e lucidez, sem ocultar a pobreza, mas afirmando como patrimônio a beleza que dali emana — sobretudo pelo samba e pela escola que leva o nome do morro.
“Não posso viver sem ela”, parceria com Bide, acelera o passo sem abandonar o lamento. Ali também o trombone de Nelsinho sublinha a oscilação entre queixa e graça, enquanto o narrador chama a amada de “fingida” e “malvada” e se declara pronto a perdoá-la outra vez. “Preciso me encontrar”, de Candeia, é eternizada no registro de Cartola.
“Peito vazio”, com Elton Medeiros, encontra no clarinete o sublinhado preciso para a saudade que se impõe como vácuo.
Lado B
“Aconteceu” retoma a história de fim de amor sob a perspectiva de quem observa o arrependimento alheio. “As rosas não falam” cristaliza uma das mais simples e exatas declarações de amor da canção brasileira, costurada pela arquitetura impecável do violão sete cordas e pela flauta de Altamiro, que costura respirações e silêncios.
“Sei chorar” faz do sofrimento condição do amar. “Ensaboa” mistura canto de trabalho e crônica urbana, com um arranjo de acento rural. “Senhora tentação”, de Silas de Oliveira, expõe a vertigem da paixão. “Cordas de aço” fecha o ciclo como declaração de intimidade entre poeta e violão — instrumento que é sua extensão simbólica e concreta.
A crítica consolidou o álbum como marco, presença constante em listas históricas e objeto de leituras acadêmicas. Mas antes de qualquer canonização, há a cena da capa: a janela, o casal, a casa. O relançamento em vinil pelo “Safra 76” devolve ao disco sua materialidade original — o peso do objeto, a sequência pensada, o tempo de cada lado.