Após um hiato de dois anos e um período de reclusão marcado pela dor da partida da mãe, Dona Jacira, o rapper Emicida reencontrou o público na última quinta (30) e sexta-feira (1º), no Espaço Unimed, em São Paulo. A dobradinha de estreia da turnê “Emicida Racional MCMV” (Mesmas Cores & Mesmos Valores) não foi apenas o lançamento de um repertório, foi um manifesto de sobrevivência que conectou a dor íntima do luto à potência política do rap nacional.
O novo projeto, baseado no álbum homônimo de 2025, mergulha na estética dos Racionais MC’s para reafirmar a identidade de um artista potente e igualmente vulnerável. No show, essa linhagem ganhou corpo com a participação de Edi Rock, que subiu ao palco para celebrar a conexão entre gerações e validar um Emicida que, embora transformado pela perda, surge mais gigante em cena.
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Dividida em cinco atos e sob direção de Naruna Costa, a segunda noite do espetáculo, apresentado no Dia do Trabalhador, para uma casa lotada, utilizou trechos da peça “Tá Pra Vencer” para pontuar a urgência de uma população que, entre um beat e outro, ainda luta para não ser invisibilizada.
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Tupananchiskama: O luto que virou oração coletiva
O ápice emocional da noite ocorreu durante a performance de “Mãe”. Sob o impacto da recente partida de Dona Jacira, Emicida foi tomado pelas lágrimas, sendo amparado por seus fãs, que também ansiavam pelo momento de celebrar a vida da maior fã do rapper.
No telão, a expressão quéchua “Tupananchiskama” (até que a vida volte a nos reencontrar) selou o tom espiritual da noite. Ali, não era apenas o artista, era o filho de Jacira honrando a ancestralidade que o sustenta e que rege o seu caminho.
O acerto de contas com a história e a nova escola
A caneta de Emicida continua afiada e global. A transição entre o clássico “Sonho Meu”, de Xis, e a densidade de “Ismália” serviu de palanque para denunciar o ataque em escola bombardeada por Israel e Estados Unidos no Irã no início de março.
No telão, a mensagem “dedicado às 168 meninas assassinadas em uma escola do Irã pelos amigos de Epstein”, conectou o racismo estrutural brasileiro com as violações de direitos humanos que ocorrem ao redor do mundo.
A noite também foi de resgate para o hip-hop paulistano com a reunião dos Três Temores. Ao lado de Rashid e Projota, Emicida reviveu a sintonia da Batalha da Santa Cruz ao denunciarem a violência policial e celebrarem, juntos, a resistência da periferia.
Ao som de “Nova Ordem” e “A Mema Praça”, o momento, marcado pelas lágrimas de Projota, serviu como um acerto de contas histórico: uma resposta direta à repressão que tentou calar o rap durante um show dos Racionais MC’s na Virada Cultura em 2007, reafirmando que o grupo não apenas sobreviveu ao sistema, como o venceu.
A participação de Jotapê, um dos nomes centrais da nova cena, também foi marcante. Juntos, eles cantaram “Leandro Roque”, mas foi o freestyle final do jovem MC que desarmou o rapper. Ao ouvir Jotapê afirmar que sua trajetória só foi possível graças ao caminho aberto por ele, Emicida chorou ao se ver celebrado como o alicerce da nova escola.
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Projota, Rashid e Emicida. (Divulgação 30e/@bmaisca) 
O rapper Emicida. (Divulgação 30e/@bmaisca) 
Emicida e Prettos. (Divulgação 30e/@bmaisca) 
Emicida e Jotapê. (Divulgação 30e/@bmaisca) 
Emicida e Edi Rock. (Divulgação 30e/@bmaisca) 
Com casa lotada em São Paulo, Emicida celebra o lançamento da turnê “Racional MCMV”. (Divulgação 30e/@bmaisca)
A vitória é coletiva ou não é vitória
Caminhando para o desfecho, o show tornou-se uma aula de história. Emicida reverenciou quem pavimentou o chão que ele pisa: citou Quinto Andar, Kamau e Marechal. Uniu o clássico “Homem na Estrada” (Racionais) e “Ela Partiu” (Tim Maia) ao hino de resiliência “Levanta e Anda”.
Acompanhado da dupla de samba “Prettos”, que performaram “Quem tem um amigo (tem tudo)” e “Us Memo Preto Zika”, Emicida encerrou a noite reafirmando que sua música é, acima de tudo, um exercício de memória e celebração da vida.
A turnê, que ainda passará pelo Rio de Janeiro, Curitiba e Belo Horizonte em 2026, marca o retorno de um artista que compreende que vencer sozinho não é vitória, é preciso levar a ancestralidade no palco e celebrar a comunidade que caminha ao nosso lado.