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Emicida entrega ritual de sobrevivência na estreia da turnê ‘Racional MCMV’

Volta aos palcos do rapper em São Paulo foi marcada pela saudade de Dona Jacira e celebrou a linhagem do rap nacional ao lado de nomes como Edi Rock, Projota, Rashid e Jotapê
Emicida durante apresentação no Espaço Unimed, em São Paulo, em 1 de maio de 2026.

Emicida durante apresentação no Espaço Unimed, em São Paulo, em 1 de maio de 2026.

— Divulgação 30e/@bmaisca

4 de maio de 2026

Após um hiato de dois anos e um período de reclusão marcado pela dor da partida da mãe, Dona Jacira, o rapper Emicida reencontrou o público na última quinta (30) e sexta-feira (1º), no Espaço Unimed, em São Paulo. A dobradinha de estreia da turnê “Emicida Racional MCMV” (Mesmas Cores & Mesmos Valores) não foi apenas o lançamento de um repertório, foi um manifesto de sobrevivência que conectou a dor íntima do luto à potência política do rap nacional.

O novo projeto, baseado no álbum homônimo de 2025, mergulha na estética dos Racionais MC’s para reafirmar a identidade de um artista potente e igualmente vulnerável. No show, essa linhagem ganhou corpo com a participação de Edi Rock, que subiu ao palco para celebrar a conexão entre gerações e validar um Emicida que, embora transformado pela perda, surge mais gigante em cena.

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Dividida em cinco atos e sob direção de Naruna Costa, a segunda noite do espetáculo, apresentado no Dia do Trabalhador, para uma casa lotada, utilizou trechos da peça “Tá Pra Vencer” para pontuar a urgência de uma população que, entre um beat e outro, ainda luta para não ser invisibilizada.

Leia mais: Álbum de Emicida ganha versão em vinil em projeto especial

Tupananchiskama: O luto que virou oração coletiva

O ápice emocional da noite ocorreu durante a performance de “Mãe”. Sob o impacto da recente partida de Dona Jacira, Emicida foi tomado pelas lágrimas, sendo amparado por seus fãs, que também ansiavam pelo momento de celebrar a vida da maior fã do rapper.

No telão, a expressão quéchua “Tupananchiskama” (até que a vida volte a nos reencontrar) selou o tom espiritual da noite. Ali, não era apenas o artista, era o filho de Jacira honrando a ancestralidade que o sustenta e que rege o seu caminho.

O acerto de contas com a história e a nova escola

A caneta de Emicida continua afiada e global. A transição entre o clássico “Sonho Meu”, de Xis, e a densidade de “Ismália” serviu de palanque para denunciar o ataque em escola bombardeada por Israel e Estados Unidos no Irã no início de março.

No telão, a mensagem “dedicado às 168 meninas assassinadas em uma escola do Irã pelos amigos de Epstein”, conectou o racismo estrutural brasileiro com as violações de direitos humanos que ocorrem ao redor do mundo.

A noite também foi de resgate para o hip-hop paulistano com a reunião dos Três Temores. Ao lado de Rashid e Projota, Emicida reviveu a sintonia da Batalha da Santa Cruz ao denunciarem a violência policial e celebrarem, juntos, a resistência da periferia. 

Ao som de “Nova Ordem” e “A Mema Praça”, o momento, marcado pelas lágrimas de Projota, serviu como um acerto de contas histórico: uma resposta direta à repressão que tentou calar o rap durante um show dos Racionais MC’s na Virada Cultura em 2007, reafirmando que o grupo não apenas sobreviveu ao sistema, como o venceu.

A participação de Jotapê, um dos nomes centrais da nova cena, também foi marcante. Juntos, eles cantaram “Leandro Roque”, mas foi o freestyle final do jovem MC que desarmou o rapper. Ao ouvir Jotapê afirmar que sua trajetória só foi possível graças ao caminho aberto por ele, Emicida chorou ao se ver celebrado como o alicerce da nova escola.

Leia mais: Em turnê nacional, Emicida lança projeto de incentivo à leitura

A vitória é coletiva ou não é vitória

Caminhando para o desfecho, o show tornou-se uma aula de história. Emicida reverenciou quem pavimentou o chão que ele pisa: citou Quinto Andar, Kamau e Marechal. Uniu o clássico “Homem na Estrada” (Racionais) e “Ela Partiu” (Tim Maia) ao hino de resiliência “Levanta e Anda”.

Acompanhado da dupla de samba “Prettos”, que performaram “Quem tem um amigo (tem tudo)” e “Us Memo Preto Zika”, Emicida encerrou a noite reafirmando que sua música é, acima de tudo, um exercício de memória e celebração da vida.

A turnê, que ainda passará pelo Rio de Janeiro, Curitiba e Belo Horizonte em 2026, marca o retorno de um artista que compreende que vencer sozinho não é vitória, é preciso levar a ancestralidade no palco e celebrar a comunidade que caminha ao nosso lado.

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  • Mariane Barbosa

    Curiosa por vocação, é movida pela paixão por música, fotografia e diferentes culturas. Já trabalhou com esporte, tecnologia e América Latina, tema em que descobriu o poder da comunicação como ferramenta de defesa dos direitos humanos, princípio que leva em seu jornalismo antirracista e LGBTQIA+.

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