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‘Momento único para o sertão’: Bahia ganha protagonismo com Kakinho e Borrachinha campeões do Red Bull Paranauê

À Alma Preta, campeões e mestres consagrados destacaram a importância de celebrar a capoeira com um público de 2.500 pessoas no Pelourinho, em Salvador
Kakinho e Borrachinha, os campeões do Red Bull Paranauê 2025, celebram a vitória na Cruz Caída, em Salvador.

Kakinho e Borrachinha, os campeões do Red Bull Paranauê 2025, celebram a vitória na Cruz Caída, em Salvador.

— Fabio Piva/Red Bull Content Pool

26 de agosto de 2025

Os baianos Carlos Marques dos Santos Junior, conhecido no universo da capoeira como Kakinho, e Brenda Alves Xavier de Jesus, a Borrachinha, se consagraram campeões do Red Bull Paranauê, neste sábado (23), após disputas cheias de energia que reuniram alguns dos melhores capoeiristas do mundo na Praça da Cruz Caída, no coração do Pelourinho, em Salvador.

Com uma plateia vibrante e emocionada, a quarta edição da competição, que reuniu 2.500 espectadores, abraçou a responsabilidade de dar continuidade ao legado ancestral da capoeira. Apesar da competitividade, o clima do torneio foi de respeito, afeto e celebração entre os jogadores. 

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No formato eliminatório (oitavas, quartas, semifinais e finais), os atletas enfrentaram os desafios da roleta, que determinava o toque do berimbau e, com ele, o estilo de jogo: Angola, Regional ou Contemporânea. O vencedor de cada rodada era determinado por um forte time de jurados, Mestre Nenel, Mestra Nani e Mestre Maurão.

Kakinho, de 25 anos, venceu o torneio após um jogo acirrado com o paulista e atleta da RedBull, Arthur Fiu, na categoria Angola. À Alma Preta, o atleta consagrado por levar a capoeira de Serrinha (cidade localizada a cerca de 180 km de Salvador) para países como Espanha, Hungria, Alemanha, Espanha, França e Polônia, frisou a sua felicidade em levar o título para a sua cidade natal com a família o apoiando na plateia.

“Para a gente que vem do interior do sertão da Bahia é algo surreal, porque não é uma realidade para nós estar em palcos, estar em momentos como esse. E a gente sabe que a visibilidade sempre acontece para quem está nas metrópoles, nos estados maiores, então para mim, que sou uma pessoa preta, que venho do sertão da Bahia, é um momento único”, celebrou.

Foto: Fabio Piva/Red Bull Content Pool

“Nós, da nova geração, somos a continuidade”

Cria do interior de Catu, nascida em Conjuca, e moradora de Alagoinhas, Borrachinha subiu ao palco com o preceito de que “é necessário sempre acreditar que um sonho é possível”. Essa premissa se estende à sua atuação como professora de capoeira, na qual procura incentivar a futura geração a acreditar na vitória. 

“Você tem que buscar, tem que correr atrás, porque nada cai do céu. Então a gente tem que buscar, e para as minhas crianças isso vai significar muito, de verdade. Vai agregar bastante para eles”, diz a atleta, que também é fã de Bibinha, bicampeã do RedBull Paranauê.

Foto: Fabio Piva/Red Bull Content Pool

“Nós, da nova geração, somos a continuidade. Eu sou a continuação de um sonho, e de vários outros, e o da Bibinha também. Às vezes, a capoeira chega em um patamar no qual as pessoas se limitam. E eu admiro muito ela por ser mãe e continuar nessa batalha, ser bicampeã do Red Bull. Também acho que eu represento ela porque eu sou da Bahia e estou dando continuidade a essa caminhada dela”, celebra Borrachinha.

Celebrando as origens africanas

O RedBull Paranauê é o evento que mais aproxima a capoeira das suas origens africanas, segundo o jurado Mestre Maurão, que pontuou à reportagem com clareza que a competição apresenta a diversidade, a pluralidade e a liberdade da capoeira expressada em praça pública, na cidade de Salvador, berço da capoeira, que é praticada no mundo inteiro. 

Para o curador do evento, Mestre Sabiá, não há como contar a história do Brasil sem contar a história da capoeira. A existência da população está entrelaçada a essa expressão cultural, que também é um ato político, sendo um dos maiores movimentos de inclusão antirracista do mundo.

“A capoeira vem tornando o mundo um outro entendimento sobre a cultura preta, não como uma cultura popularizada, mas sim como uma cultura transformadora e necessária. A capoeira é necessária assim como o futebol. A gente também enche a alma, a gente precisa de cultura para sobreviver.”

O curador também compartilha que a escolha de Salvador se deu pela magia do lugar. “Aqui em cima é a igreja da Barroquinha, foi o primeiro período do canonicato do Brasil. É um lugar que tem uma energia, que tem uma tradição, que tem uma ancestralidade”, explica.

Foto: Fabio Piva/Red Bull Content Pool

É preciso voltar ao passado para viver o presente

Esse entendimento se conecta diretamente com a história de Mestre Nenel, responsável por dar continuidade ao legado do seu pai, Mestre Bimba, um dos nomes mais importantes da capoeira, ao lado de Mestre João Pequeno, figuras simbólicas e avô da Mestra Nani.

“Na década de 30, mestre Bimba realizou algumas lutas na Cruz Caída, que se chamava Belvedere. Naquela época, não haviam os festivais de capoeira que existem hoje, então era luta mesmo”, conta Mestre Nenel, que entende a dor de quem viveu as consequências da arte ser criminalizada no Brasil pelo Código Penal de 1890. 

Foi somente em 1937 que a prática foi legalizada pelo presidente Getúlio Vargas, após uma apresentação feita pelo mestre Bimba e, posteriormente, em 1940, saiu definitivamente do Código Penal.

“Eu tenho a maior honra de ser escolhido por Deus e ter o pai que tive, e o meu avô, Luiz Cândido Machado, que era o mais importante batuqueiro da luta africana, que era uma luta dos escravizados. Essa foi a base de meu pai para poder fazer a Luta Regional Baiana. Porque quando ele nasceu, a capoeira ainda era proibida por muito tempo. Então, meu pai teve que pegar os movimentos do batuque e os movimentos da capoeiragem e fazer a Luta Regional Baiana, que, na verdade, sempre foi a Capoeira Regional”, explica o Mestre.

Hoje, Mestre Nenel, assim como os jurados e atletas, celebram a dimensão que o RedBull Paranauê se tornou. “É um evento mundial no mesmo lugar em que meu pai lutou. É uma coisa muito forte. Para mim, não foi nem um campeonato, foi um festival, porque realmente foi uma festa o tempo todo. Aqui, as pessoas jogam um com o outro, e não um contra o outro, porque todos terminam se abraçando. Foram jogos maravilhosos”, completa.

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  • Mariane Barbosa

    Curiosa por vocação, é movida pela paixão por música, fotografia e diferentes culturas. Já trabalhou com esporte, tecnologia e América Latina, tema em que descobriu o poder da comunicação como ferramenta de defesa dos direitos humanos, princípio que leva em seu jornalismo antirracista e LGBTQIA+.

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