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Série ‘Diaspóricas’ reúne cantoras negras do Brasil e de Cabo Verde

Obra audiovisual originada em Goiás inicia processo de internacionalização
A cantora Zul Alves.

A cantora Zul Alves.

— Divulgação/Juliana Cordeiro

21 de dezembro de 2025

O protagonismo  negro  na música e no cinema do Centro-Oeste  brasileiro sempre guiou a trajetória do projeto “Diaspóricas”,  que tem em seu catálogo três temporadas  lançadas da série e a realização  de um festival. Na quarta temporada,  que está  em fase de pós-produção, o projeto atravessa o oceano Atlântico e vai parar em Cabo Verde.

Para Ana Clara Gomes, idealizadora do projeto e diretora da série, o retorno em África é  uma necessidade que pessoas negras da diáspora têm, para se assentarem e entenderem a si mesmas a partir de memórias ancestrais do continente-mãe e o projeto cumpre seu papel de fazer esta conexão. 

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“A gente atravessa o Atlântico na expectativa de encontros que são, na verdade, experiências de retorno. O encontro com nós mesmas, o encontro com as memórias que nos foram roubadas, o encontro com filosofias e formas de viver o mundo que fazem parte da nossa história”, conta, em comunicado à imprensa.

Guiada pela temática “Oralituras”, a temporada prioriza um olhar sobre as tradições orais e a voz de mulheres de África inscrevendo memórias na história de aproximação cultural entre Brasil e Cabo Verde. A nova temporada foi registrada em Praia, capital cabo-verdiana, Cidade Velha e Tarrafal com artistas de grande expressão no país e internacionalmente. Uma delas foi a cantora Zul Alves.

Artista da cidade de Praia, Zul é considerada uma voz inovadora na cena musical cabo-verdiana. Seu álbum Buska traça uma linha de diálogo entre as raízes tradicionais e as novas tendências, com sonoridade que une ritmos diversos do arquipélago. A artista se define como uma “tradicional moderna”, criando pontes entre passado, presente e futuro sonoro de Cabo Verde.

“Participar da série Diaspóricas foi uma experiência muito especial. Admirei muito este projeto, ver um grupo de brasileiros viajarem pela África, viajar por Cabo Verde para documentar as histórias de mulheres negras artistas me tocou profundamente e foi um momento bonito de partilha de ideias, sentimentos e vivências, onde pude refletir sobre a minha história e reafirmar o sentido do que faço como mulher, como artista negra e como cabo-verdiana”, comenta a cantora.

Além da cantora Zul Alves, a série documental contou com a participação de outras artistas como as cantoras Fattú Djakité e Kady, esta com gravações em Lisboa. Essa conexão entre a música do Brasil e de África também esteve presente com a participação  da cantora e compositora brasileira Nara Couto, que se encontrou com o grupo de batucadeiras Delta Ramatxada, representantes do ritmo tradicional cabo-verdiano batuku. A iniciativa teve o apoio do Centro Cultural Brasil Cabo Verde.

Transformações além-mar

Mais do que filmar, Diaspóricas também propõe encontros. As gravações, que ocorreram entre 25 de junho a 11 de julho, foram realizadas por uma equipe reduzida de integrantes do projeto, que embarcou do Brasil rumo a Cabo Verde. Neste período em solo africano, o projeto contou com exibições de episódios das duas primeiras temporadas da série, seguidas de roda de conversa, além de exibição de filmes do coletivo Nhãnha, grupo de cineastas e pesquisadoras cabo-verdianas ligadas à universidade, fortalecendo o intercâmbio entre realizadoras dos dois países.

Toda essa passagem pelo continente-mãe mexeu internamente com Juliana Cordeiro, fotógrafa da série. “Participar da série Diaspóricas para mim foi uma experiência profundamente transformadora não só como fotógrafa, mas como mulher negra. Pisar em Cabo Verde trouxe uma sensação que eu nunca tinha vivido: a de reconhecer partes de mim em cada rosto, cada canto de rua. Foi como se a terra me recebesse com uma memória que o corpo já conhecia, mesmo que eu nunca tivesse estado lá. Fotografar mulheres cabo-verdianas, artistas, musicistas, mães, me fez entender que meu trabalho vai além da imagem.”

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