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Teatro Oficina, em SP, realiza debates com artistas e pensadores negros

Programação gratuita reflete sobre racismo, teatralidades negras, arqueologia, memória e resistência no Bixiga
Imagem mostra um grupo de artistas em apresentação no Teatro Oficina, em São Paulo.

Imagem mostra um grupo de artistas em apresentação no Teatro Oficina, em São Paulo.

— Divulgação

13 de março de 2026

O tradicional Teatro Oficina recebe, entre março e abril, uma programação que articula arte, pensamento crítico e luta política. Serão seis encontros gratuitos na sede do teatro, no Bixiga, em São Paulo, tendo como fio condutor o espetáculo-rito “BORI”, que esteve em cartaz entre 2023 e 2024 e ganha apresentação única no dia 12 de abril.

Com o título “BORI: Luz Negra no Terreiro Eletrônico”, inspirado no conceito da filósofa e artista Denise Ferreira da Silva de “pôr luz negra no mundo, fazer brilhar o que é opaco”, a série de conversas, leituras e ritos propõe uma reflexão sobre racismo, luta urbana, teatralidades pretas e culturas afrodiaspóricas em diálogo crítico com a biografia da própria companhia.

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“O Oficina tem 67 anos, é patrimônio da cultura brasileira, é fundamental que a gente olhe para o racismo estrutural que nos atravessa e atravessa as relações entre teatro e território”, defende Marília Piraju, idealizadora e co-diretora do espetáculo e uma das organizadoras do ciclo de debates.

Idealizado como um rito de oferenda à cabeça, o Ori, BORI estreou em 2023 e, desde então, vem sendo apresentado em datas simbólicas para a companhia. O espetáculo investiga as criações fundamentais de artistas pretos e nordestinos na construção da linguagem coral e ritual do Oficina, sobretudo a partir dos anos 1970, quando a volta do exílio de José Celso Martinez Corrêa e a chegada de migrantes do Nordeste radicalizaram ainda mais a pesquisa estética e política da Uzyna Uzona.

A montagem não entra em temporada, mas opera como catalisadora de discussões mais amplas. “Desta vez, tiramos o espetáculo como centro da iniciativa e colocamos o trabalho como disparador de diálogos com outras/os pensadoras/es, artistas e intelectuais que temos acompanhado desde os primeiros movimentos deste time em torno de BORI”, explica Marília.

A abertura da programação, no sábado (14), fica por conta do multiartista e historiador Salloma Salomão, que conduz a conversa “Teatralidades negras, interpretações corais”. Doutor em História, com mais de 40 anos de carreira e dez álbuns lançados, Salloma é uma das referências nos estudos da cultura afro-brasileira e diaspórica.

No dia 25, o Coletivo Legítima Defesa apresenta uma leitura encenada de “O Poder Negro”, peça do poeta e ativista norte-americano Amiri Baraka montada pelo Oficina em 1968, com direção de Fernando Peixoto e elenco formado por Antônio Pitanga e  Ítala Nandi.

A atividade, que celebra a potência daquela temporada histórica – fortemente perseguida e censurada pela ditadura –, será seguida de conversa com o pesquisador William Santana Santos, curador e especialista na memória do Teatro Experimental do Negro (TEN), companhia fundada em 1944 por Abdias do Nascimento.

Já em 28 de março, o arqueólogo Eduardo Neves, diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP (MAE-USP), e a jornalista e ativista Luciana Araújo, liderança do movimento Mobiliza Saracura/Vai-Vai, se encontram para a conversa “A Terra Quer: arqueologia em territórios pretos e indígenas – rotas de luta e imaginação”.

O debate articula o trabalho de Neves na Amazônia, pesquisas que desmistificam a ideia de floresta intocada ao revelar a presença de sociedades indígenas complexas, com a luta de Luciana pela memória do Quilombo Saracura, sítio arqueológico negro ameaçado por obras do metrô no Bixiga.

“Juntar saberes e perspectivas, em aliança, para criar novos paradigmas, é a base de atuação desta luta, que atualmente tem como desafio enfrentar o racismo ambiental e a lógica neoliberal que expulsa grupos de teatro, apaga memórias e gentrifica o Bixiga. Luciana Araújo tem sido fundamental nesse sentido, trazendo uma perspectiva necessária sobre como a implantação do Parque do Rio Bixiga pode acabar expulsando a população preta que criou esse patrimônio”.

A fala de Marília encontra eco em um histórico recente de ataques à cultura paulistana: nos últimos anos, espaços como o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, o Teatro Vento Forte e o Teatro do Contêiner foram expulsos de suas sedes, vítimas de uma política urbana que sistematicamente apaga iniciativas culturais e expulsa artistas de seus territórios.

No sábado, 11 de abril, a filósofa e artista Denise Ferreira da Silva encerra o ciclo com a conferência “Luz Negra no Mundo – a epifania do corpo infinito”. Professora na Universidade de Nova Iorque, Denise é referência mundial em estudos de raça, ética e feminismo negro anticolonial.

No dia 12, o Oficina será palco da apresentação única de BORI, às 18h. O espetáculo reúne um coro de artistas pretos, nordestinos e caboclos que encarnam e presentificam as caravanas migratórias dos anos 1970 e 1980, ao mesmo tempo em que atualizam as perspectivas pretas no aqui e agora da companhia. A dramaturgia coral entrelaça tragédias coloniais com cantos de trabalho, partilha da comida, festa e a tecnologia política que o teatro chama de “alegria como arma de desmassacre”.

A programação acontece em um momento simbólico para o Oficina e para o bairro do Bixiga. A luta de mais de quatro décadas pelo Parque do Rio Bixiga acaba de conquistar uma etapa importante, com a abertura do concurso nacional para o projeto de implantação do espaço público.

O território, que abriga o sítio arqueológico do Quilombo Saracura, segue no centro do debate sobre memória, pertencimento e direito à cidade.

Serviço

Ciclo de debates + apresentação única do espetáculo BORI

Local: Teat(r)o Oficina – Rua Jaceguai, 520, Bixiga, São Paulo/SP

Todas as atividades são gratuitas

Classificação indicativa: espetáculo BORI, 16 anos; demais atividades, livre

Programação completa

14 de março (sábado), 11h

Abertura com Salloma Salomão

Tema: Teatralidades negras, interpretações corais

21 de março (sábado), 11h

Aulão com castilho

r.ebó.lar – corpo como arquivo vivo

25 de março (quarta), 20h

Leitura encenada de O Poder Negro

Com Coletivo Legítima Defesa, seguida de conversa com William Santana Santos

28 de março (sábado), 11h

Conversa com Eduardo Neves e Luciana Araújo

Tema: A Terra Quer: arqueologia em territórios pretos e indígenas – rotas de luta e imaginação

11 de abril (sábado), 11h

Conversa com Denise Ferreira da Silva

Tema: conferência Luz Negra no Mundo – a epifania do corpo infinito

12 de abril (quinta), 18h

BORI – apresentação única do espetáculo-rito

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