O tradicional Teatro Oficina recebe, entre março e abril, uma programação que articula arte, pensamento crítico e luta política. Serão seis encontros gratuitos na sede do teatro, no Bixiga, em São Paulo, tendo como fio condutor o espetáculo-rito “BORI”, que esteve em cartaz entre 2023 e 2024 e ganha apresentação única no dia 12 de abril.
Com o título “BORI: Luz Negra no Terreiro Eletrônico”, inspirado no conceito da filósofa e artista Denise Ferreira da Silva de “pôr luz negra no mundo, fazer brilhar o que é opaco”, a série de conversas, leituras e ritos propõe uma reflexão sobre racismo, luta urbana, teatralidades pretas e culturas afrodiaspóricas em diálogo crítico com a biografia da própria companhia.
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“O Oficina tem 67 anos, é patrimônio da cultura brasileira, é fundamental que a gente olhe para o racismo estrutural que nos atravessa e atravessa as relações entre teatro e território”, defende Marília Piraju, idealizadora e co-diretora do espetáculo e uma das organizadoras do ciclo de debates.
Idealizado como um rito de oferenda à cabeça, o Ori, BORI estreou em 2023 e, desde então, vem sendo apresentado em datas simbólicas para a companhia. O espetáculo investiga as criações fundamentais de artistas pretos e nordestinos na construção da linguagem coral e ritual do Oficina, sobretudo a partir dos anos 1970, quando a volta do exílio de José Celso Martinez Corrêa e a chegada de migrantes do Nordeste radicalizaram ainda mais a pesquisa estética e política da Uzyna Uzona.
A montagem não entra em temporada, mas opera como catalisadora de discussões mais amplas. “Desta vez, tiramos o espetáculo como centro da iniciativa e colocamos o trabalho como disparador de diálogos com outras/os pensadoras/es, artistas e intelectuais que temos acompanhado desde os primeiros movimentos deste time em torno de BORI”, explica Marília.
A abertura da programação, no sábado (14), fica por conta do multiartista e historiador Salloma Salomão, que conduz a conversa “Teatralidades negras, interpretações corais”. Doutor em História, com mais de 40 anos de carreira e dez álbuns lançados, Salloma é uma das referências nos estudos da cultura afro-brasileira e diaspórica.
No dia 25, o Coletivo Legítima Defesa apresenta uma leitura encenada de “O Poder Negro”, peça do poeta e ativista norte-americano Amiri Baraka montada pelo Oficina em 1968, com direção de Fernando Peixoto e elenco formado por Antônio Pitanga e Ítala Nandi.
A atividade, que celebra a potência daquela temporada histórica – fortemente perseguida e censurada pela ditadura –, será seguida de conversa com o pesquisador William Santana Santos, curador e especialista na memória do Teatro Experimental do Negro (TEN), companhia fundada em 1944 por Abdias do Nascimento.
Já em 28 de março, o arqueólogo Eduardo Neves, diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP (MAE-USP), e a jornalista e ativista Luciana Araújo, liderança do movimento Mobiliza Saracura/Vai-Vai, se encontram para a conversa “A Terra Quer: arqueologia em territórios pretos e indígenas – rotas de luta e imaginação”.
O debate articula o trabalho de Neves na Amazônia, pesquisas que desmistificam a ideia de floresta intocada ao revelar a presença de sociedades indígenas complexas, com a luta de Luciana pela memória do Quilombo Saracura, sítio arqueológico negro ameaçado por obras do metrô no Bixiga.
“Juntar saberes e perspectivas, em aliança, para criar novos paradigmas, é a base de atuação desta luta, que atualmente tem como desafio enfrentar o racismo ambiental e a lógica neoliberal que expulsa grupos de teatro, apaga memórias e gentrifica o Bixiga. Luciana Araújo tem sido fundamental nesse sentido, trazendo uma perspectiva necessária sobre como a implantação do Parque do Rio Bixiga pode acabar expulsando a população preta que criou esse patrimônio”.
A fala de Marília encontra eco em um histórico recente de ataques à cultura paulistana: nos últimos anos, espaços como o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, o Teatro Vento Forte e o Teatro do Contêiner foram expulsos de suas sedes, vítimas de uma política urbana que sistematicamente apaga iniciativas culturais e expulsa artistas de seus territórios.
No sábado, 11 de abril, a filósofa e artista Denise Ferreira da Silva encerra o ciclo com a conferência “Luz Negra no Mundo – a epifania do corpo infinito”. Professora na Universidade de Nova Iorque, Denise é referência mundial em estudos de raça, ética e feminismo negro anticolonial.
No dia 12, o Oficina será palco da apresentação única de BORI, às 18h. O espetáculo reúne um coro de artistas pretos, nordestinos e caboclos que encarnam e presentificam as caravanas migratórias dos anos 1970 e 1980, ao mesmo tempo em que atualizam as perspectivas pretas no aqui e agora da companhia. A dramaturgia coral entrelaça tragédias coloniais com cantos de trabalho, partilha da comida, festa e a tecnologia política que o teatro chama de “alegria como arma de desmassacre”.
A programação acontece em um momento simbólico para o Oficina e para o bairro do Bixiga. A luta de mais de quatro décadas pelo Parque do Rio Bixiga acaba de conquistar uma etapa importante, com a abertura do concurso nacional para o projeto de implantação do espaço público.
O território, que abriga o sítio arqueológico do Quilombo Saracura, segue no centro do debate sobre memória, pertencimento e direito à cidade.
Serviço
Ciclo de debates + apresentação única do espetáculo BORI
Local: Teat(r)o Oficina – Rua Jaceguai, 520, Bixiga, São Paulo/SP
Todas as atividades são gratuitas
Classificação indicativa: espetáculo BORI, 16 anos; demais atividades, livre
Programação completa
14 de março (sábado), 11h
Abertura com Salloma Salomão
Tema: Teatralidades negras, interpretações corais
21 de março (sábado), 11h
Aulão com castilho
r.ebó.lar – corpo como arquivo vivo
25 de março (quarta), 20h
Leitura encenada de O Poder Negro
Com Coletivo Legítima Defesa, seguida de conversa com William Santana Santos
28 de março (sábado), 11h
Conversa com Eduardo Neves e Luciana Araújo
Tema: A Terra Quer: arqueologia em territórios pretos e indígenas – rotas de luta e imaginação
11 de abril (sábado), 11h
Conversa com Denise Ferreira da Silva
Tema: conferência Luz Negra no Mundo – a epifania do corpo infinito
12 de abril (quinta), 18h
BORI – apresentação única do espetáculo-rito