Belém e São Paulo – A Marcha Global pelo Clima deste sábado (15), em Belém, interrompe o jejum de três anos de atos políticos nas últimas Conferências das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COPs). Ativistas estrangeiros elogiaram a organização e a alegria da manifestação, que é o ápice da agenda paralela desta COP30.
Em outras COPs, a marcha sempre foi um dos momentos mais emblemáticos da Cúpula dos Povos e da agenda paralela. No entanto, ela não aconteceu nas edições do Egito, em 2022, dos Emirados Árabes Unidos, em 2023, nem do Azerbaijão, em 2024. O motivo foram as legislações locais, que proíbem a realização de protestos deste tipo.
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Os últimos atos em COP aconteceram na Escócia, em 2021, e na Espanha, em 2019.
A Alma Preta conversou com diversos ativistas estrangeiros durante a marcha deste sábado (15), que expressaram satisfação pelo retorno das manifestações e pela quantidade de pessoas que estiveram no protesto.
“Acredito que essa marcha está sendo um momento muito importante essa semana para denunciar a situação que há fora dos muros da COP. Além disso, há vários anos que, no contexto da COP, não era permitido protestar”, afirmou a espanhola Coraina de la Plata, representante do grupo Hands Off Mother Earth (Tire as Mãos da Mãe Terra, em tradução livre).
Para La Plata, esse contexto pode ter aumentado a manifestação.
“Por isso, penso que o povo saiu às ruas com muita vontade e com muita força para pedir justiça climática e demandar que os governos comecem a fazer algo”, diz, acrescentando que protesta contra a geoengenharia e a manipulação de sistemas terrestres.
Crítica
Menos otimista, o pós-graduando angolano Custódio Calembela, que estuda Políticas Públicas na Universidade Federal do Piauí (UFPI), destaca que já são 30 edições da Conferência do Clima, mas as pautas são sempre as mesmas.
“Os que sofrem são sempre os mesmos. Passam os anos e os problemas não são resolvidos, mas vão sempre para pior. É excesso de exploração, sem compensar quem é explorado. A Angola sofre disso”, lamenta Calembela.
Ele cita o caso da floresta de Maiombe, em Angola. “Tem a questão da madeira e de outras riquezas que nós não exploramos, mas forças estrangeiras —e falo aqui de forças chinesas — já exploram. Não só a floresta… Há outras terras que o próprio país não explora por falta de meios. Mas o capitalismo, agressivo, faz sempre assim, né? Explora, tira o que é de bom e deixa a miséria e a pobreza”.
Alegria e representação

Sascha Gabizon, que veio dos Países Baixos e é diretora-executiva da Women Engage for a Common Future (WECF), elogiou a alegria da marcha em Belém.
“As pessoas sabem como fazer manifestações. É incrível, nós amamos [a manifestação]. Nós estivemos em COPs nos anos anteriores em países muito autoritários. Nós não tínhamos permissão para fazer protestos. Já aqui no Brasil, olha para isso, há milhares de pessoas, não sei quantos milhares estão nas ruas.”, disse a holandesa eco-feminista, destacando as músicas, o ânimo dos manifestantes e a presença da imprensa.
Henri Chanfort, ambientalista da JVE Campus, uma organização da Costa do Marfim, comemora que a Marcha se mostra ser o espaço “somente das pessoas”, sem seus “escritórios”.
“Nós temos o objetivo de fazer ouvir a voz das comunidades, ouvir seus desafios e como enfrentam a crise climática. Nós pensamos que a COP é das pessoas, e não das pessoas dos escritórios”, afirmou.
União dos povos
A haitiana Aïda Roumer, de 32 anos, que faz doutorado em Políticas Públicas em Frankfurt, na Alemanha, surpreendeu-se com a coalizão de pessoas que defendem tantas causas, tão diferentes.
“Por exemplo, na Europa é muito difícil ter uma coalizão de movimentos anti-imperialistas, pró-Palestina e sindicais juntos em um único protesto. Não se vê muito isso. E aqui está muito claro que todos compreendem que as lutas estão conectadas e são interligadas”, comemora a pesquisadora.

O mesmo sentimento se manifestou no camaronês Youmssi Eya Yvan Lionnel, parte da Réseau des Acteurs du Développement Durable (RADD), que defende populações próximas de agroindústrias.
“Foi extraordinário estar conectado com as pessoas com uma só voz, é maravilhoso. É, sim, é maravilhoso”, afirma. “Estávamos o mundo todo reunido, todos os povos, todas as comunidades unidas por uma causa, uma voz para falar sobre justiça climática e como queremos participar das grandes decisões tomadas na COP”, diz.

Indígenas de outros países
A grande presença indígena não era apenas brasileira. Parte da Organizacion Regional de Los Pueblos Indígenas de Amazonas (ORPIA), que reúne diversos povos originários na Venezuela, o indígena kurripayo Alberto Campo também destacou a unidade dos povos.
“É o momento da unidade de todos os povos indígenas do mundo. O sentimento é um só. É um momento histórico”, disse, ao lado de um grupo de indígenas que viajaram do país vizinho para acompanhar a conferência.

A boliviana Anai Paye Fabian, indígena aymara de La Paz, parte do grupo de juventude cristã latino-americano Tearfund, destacou o papel de sua organização de representar um grupo de 36 povos indígenas.
“Estamos levantando a voz por aqueles que não podem fazer isso e apoiando e respaldando os indígenas que estão protestando nessa marcha pacífica”, disse.