PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Parlamentares negros classificam decisão dos EUA sobre PCC e CV como ameaça à soberania brasileira

Decisão de Trump e Marco Rubio autoriza sanções financeiras e pode justificar ações militares em território brasileiro; deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) afirma que medida abre precedente para "atos de guerra"
O presidente dos EUA, Donald Trump, discursa ao lado do secretário de Estado, Marco Rubio, durante uma reunião de gabinete na Sala de Reuniões do Gabinete da Casa Branca, em Washington, D.C., em 27 de maio de 2026.

O presidente dos EUA, Donald Trump, discursa ao lado do secretário de Estado, Marco Rubio, durante uma reunião de gabinete na Sala de Reuniões do Gabinete da Casa Branca, em Washington, D.C., em 27 de maio de 2026.

— Kent Nishimura/AFP

29 de maio de 2026

A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas provocou reação imediata de parlamentares negros brasileiros, que apontaram riscos à soberania nacional e denunciaram o uso político da medida no contexto eleitoral brasileiro.

O anúncio foi feito nesta quinta-feira (28) pelo secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. Em comunicado oficial, o governo dos EUA informou que as duas facções passarão a integrar a lista de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO, na sigla em inglês) a partir de 5 de junho. 

Quer receber nossa newsletter?

Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!

PCC e CV também foram incluídos na categoria de Terroristas Globais Especialmente Designados, mecanismo que permite bloqueio de ativos e sanções financeiras.

Segundo Rubio, as facções brasileiras estão entre “as organizações criminosas mais violentas do Brasil” e mantêm atuação internacional ligada ao tráfico de drogas. O secretário afirmou que a administração Donald Trump utilizará “todas as ferramentas disponíveis” para combater organizações associadas ao narcotráfico.

A medida surgiu um dia após o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se reunir com Rubio nos Estados Unidos. Na mesma semana, o parlamentar solicitou diretamente ao presidente Donald Trump que as facções brasileiras fossem enquadradas como grupos terroristas.

Embora o governo norte-americano sustente que a classificação fortalece mecanismos de combate ao crime organizado, especialistas em segurança pública destacam diferenças jurídicas e conceituais entre organizações criminosas e organizações terroristas. 

Enquanto facções como PCC e Comando Vermelho atuam por interesses econômicos, grupos terroristas costumam operar a partir de objetivos políticos, religiosos ou ideológicos.

Nos bastidores da política e da segurança pública, cresce a preocupação de que o enquadramento abra margem para ações unilaterais dos Estados Unidos em território estrangeiro sob justificativa de combate ao terrorismo. 

Leia mais:  Especialista diz que classificar facções como terroristas é pretexto de Trump para violar soberania brasileira

“Ameaça gravíssima à soberania”

O deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP) classificou a medida como “uma ameaça gravíssima à soberania nacional” em publicações no X.

“Contrariando os mais básicos pressupostos do Direito, os EUA acabam de classificar organizações criminosas brasileiras como terroristas”, escreveu.

Na sequência, Orlando Silva afirmou que a legislação norte-americana autoriza “ataques físicos” e “atos de guerra”em países onde organizações enquadradas como terroristas atuam. O deputado responsabilizou integrantes da família Bolsonaro por incentivarem a medida.

“A famiglia mafiosa Bolsonaro, com o corrupto Flávio e o traidor Eduardo à frente, serão responsáveis diretos por qualquer ato de guerra dos EUA contra o Brasil”, declarou.

Em outra publicação, o parlamentar reforçou a distinção entre crime organizado e terrorismo. Segundo ele, facções criminosas atuam com motivação financeira, enquanto organizações terroristas possuem finalidade política.

Orlando Silva também afirmou que a legislação dos EUA já foi utilizada para justificar operações militares e ações extraterritoriais em outros países. Para o deputado, o risco agora é que o mesmo argumento seja mobilizado em relação ao Brasil.

“É como dar a esse maníaco um pretexto ‘legal’ para invadir a Amazônia ou explodir um barco na Baía da Guanabara”, escreveu.

O deputado ainda defendeu as operações conduzidas por órgãos brasileiros de combate ao crime organizado, como Polícia Federal, Receita Federal e Controladoria-Geral da União. “Os EUA querem ajudar? Prendam os chefes lá foragidos e confisquem o dinheiro. Não se atrevam a mexer no Brasil”, afirmou.

Parlamentares associam decisão à disputa eleitoral

O deputado estadual Matheus Gomes (PSOL-RS) também relacionou a medida ao cenário político brasileiro. Para ele, a decisão representa uma forma de intervenção estrangeira. “O sentido dessa decisão é acabar com a nossa soberania”, publicou em seu perfil no X

Matheus Gomes afirmou que o governo Lula propôs cooperação institucional entre Estados para enfrentar o crime organizado, enquanto Trump e Rubio buscariam ampliar mecanismos de interferência política sobre o Brasil.

“Isso não é combate ao crime, é a velha geopolítica do terror dos EUA mais jogo eleitoral”, escreveu. Segundo o parlamentar, a medida surge em meio a disputas políticas internas e tentativas de mudança da agenda pública nacional.

A vereadora de Belo Horizonte Iza Lourenço, presidente do PSOL em Minas Gerais, também criticou a decisão norte-americana. Em publicação no X, ela classificou a medida como “mais um ataque à soberania” brasileira. “Trump classificou o CV e o PCC como organizações terroristas porque quer intervir nas eleições brasileiras”, afirmou.

Iza Lourenço também acusou Flávio Bolsonaro de atuar em favor de interesses estrangeiros. “É um entreguista”, escreveu.

O que muda com a classificação

Na prática, a classificação de PCC e CV como Organizações Terroristas Estrangeiras amplia o alcance das leis norte-americanas. A partir de junho, qualquer pessoa ou empresa nos Estados Unidos poderá responder criminalmente caso ofereça “suporte material” às organizações.

A legislação considera suporte material uma definição ampla, que inclui dinheiro, serviços, consultoria, tecnologia, transporte, hospedagem, logística ou qualquer tipo de apoio econômico e operacional.

O governo Trump já utilizou estratégia semelhante contra cartéis mexicanos. Agora, a medida alcança organizações brasileiras pela primeira vez.


Leia mais: Lula defende soberania e democracia brasileira na ONU e critica ‘forças antidemocráticas’ globais

Apoie jornalismo preto e livre!

O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de financiamento coletivo.

Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor.

O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

Leia mais

PUBLICIDADE

Destaques

Cotidiano