Não é raro atribuírem à Igreja um papel essencialmente alienante, caracterizando as pessoas evangélicas como intolerantes, alienadas e alinhadas ao capital, em um processo que contribuiria para a manutenção das desigualdades raciais. Frequentemente, se negligencia o fato de que esse universo é composto por uma expressiva parcela de homens e mulheres negros e negras.
Segundo dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população evangélica no Brasil alcançou 26,9% (cerca de 47,4 milhões de pessoas), sendo majoritariamente formada por mulheres e pessoas negras (pretas e pardas).
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As características atribuídas aos “crentes”, bastante comuns no ambiente virtual, podem, por vezes, suscitar interpretações apressadas. Embora haja produção seríssima sobre o tema, tanto escrita quanto midiatizada, o volume de conteúdos de caráter generalizante é bastante significativo e, via de regra, tende a produzir análises simplificadoras e problemáticas, que mais desinformam do que informam.
No debate sobre intolerância, e cabe aqui citar o importante trabalho realizado pelo Movimento Negro Evangélico (MNE), por mais que as notícias e, às vezes, exemplos particulares nos levem a pensar o contrário, não é possível sustentar a ideia de que “todo evangélico” possa ser reduzido a uma massa homogênea de religiosos intolerantes.
Me explico: parte desses evangélicos possui origens religiosas diversas e, frequentemente, convive socialmente com pessoas que não pertencem ao referido credo. Além disso, trabalham, vivem e se relacionam cotidianamente com indivíduos de diferentes crenças, valores e visões de mundo.
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Algum nível de negociação — não sem conflitos — precisa ser estabelecido, pois o cotidiano se apresenta muito mais complexo do que aquilo que se performa em espaços nos quais não se vive integralmente a experiência religiosa. Com isso, não estou dizendo que não há intolerância, mas indicando que o debate se coloca bem mais complexo do que parece.
Embora possa parecer o contrário, dadas as características raciais e sociais das principais lideranças evangélicas estampadas nas mídias digitais e impressas no Brasil hoje, o rosto que deveria representar o segmento evangélico é um rosto negro — e afirmo isso com base nos dados do IBGE apresentados acima.
Nesse sentido, o quilombismo como projeto ou uma ação de grande alcance que mire a mobilização da população negra demandará a incorporação dos sujeitos negros(as) evangélicos, com suas tradições, signos, simbolismos e demandas específicas.
Tal perspectiva implica reconhecer que o processo histórico nos apresentou diversas tradições religiosas e que, por opção ou por opressão, aderimos a credos que nem sempre estão vinculados ao que se classifica como herança africana.
Será necessário superar generalizações reducionistas que associam automaticamente cristãos e cristãs negros ao embranquecimento, à negação do racismo e à alienação, reconhecendo que esses sujeitos também participam de processos de disputa simbólica, criatividade e produção de sentido, tal como ocorre com negros(as) vinculados(as) a outras tradições religiosas.
Falamos muito dos limites e desafios impostos pela Igreja evangélica no processo de adesão de homens e mulheres negros ao referido credo, mas, por vezes, uma outra dimensão é negligenciada: quantas dessas pessoas negras se convertem ao evangelho e permanecem vivas?
Não há dúvida de que o caráter proselitista das religiões evangélicas potencializa essas conversões e a divulgação do impacto na vida dos fiéis, mas seriam essas pessoas apenas fruto de uma manipulação ilimitada, sem qualquer decisão sobre o rumo de suas próprias vidas?
Para muitas famílias negras brasileiras, o dilema cotidiano que se impõe é o “crente vivo” ou “desviado morto”. Nesse cenário de salve-se quem puder, a Igreja opera como salvaguarda da vida, uma instância de proteção social, enquanto o sujeito pode, tacitamente, eleger a conversão como mecanismo de transformação individual e familiar, num universo em que o Estado e a garantia de direitos estão permanentemente ausentes.
Por fim, gostaria de terminar com um breve relato que tive a oportunidade de experienciar. Em 2020, nos primeiros meses da pandemia, realizei pesquisa em um complexo de favelas do Rio de Janeiro e participei da Marcha para Jesus. Alguns pontos merecem destaque: os limites territoriais impostos por facções não se aplicam à abrangência das igrejas nas favelas. O tráfico e as facções, ao menos nessa experiência, respeitam esse trânsito religioso, sem sanções.
Outro aspecto relevante: independentemente de quem seja o pastor, o tráfico “desce as armas” e pede oração por suas vidas. Tive a oportunidade de passar por algumas “bocas de fumo”, onde jovens negros envolvidos com o tráfico colocavam suas armas de lado e ouviam atentamente as orações dos pastores negros. Orações que não defendiam nem legitimavam o crime organizado, mas que buscavam o recrutamento para a Igreja, a saída do tráfico — ou, como diziam, “ia descer sepultura”.
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Tratava-se de discursos contundentes, nada coniventes com o tráfico, que priorizavam a vida do jovem, utilizando Jesus e a Igreja como instrumentos de convencimento para a saída do crime. Onde o Estado não estava — ou estava de forma precária —, a Igreja era uma das instituições que se fazia presente, tentando retirar a juventude do tráfico.
Pode ser impactante afirmar isso, mas, sem a Igreja, a situação seria muito pior. Digo isso considerando que, dada a capilaridade das igrejas evangélicas, elas também conseguem, com todos os seus limites e idiossincrasias, retirar pessoas do tráfico e garantir redes de apoio comunitário. Com isso, não nego a existência de contradições nem de ações questionáveis, mas, ainda assim, o que se impõe, ao menos na experiência que vivenciei, é a primazia pela vida.