PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Antes do pitch, o tabuleiro: o Julho das Pretas e o legado negocial das mulheres negras

O que chamam hoje de inovação, nós já fazemos há séculos e com muito mais impacto
Participantes de uma cerimônia de dança Tambor de Mina na cidade maranhense de Codó, no nordeste do Brasil.

Participantes de uma cerimônia de dança Tambor de Mina na cidade maranhense de Codó, no nordeste do Brasil.

— Tyrone Turner

25 de julho de 2025

Dia 25 de julho é uma data marcante do Julho das Pretas e estrear no Alma Preta neste momento é uma verdadeira honra para mim. Logo, não seria coincidência se eu escolhesse começar essa jornada celebrando o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha que, no Brasil, se tornou o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra.

Tereza de Benguela foi uma líder quilombola do século XVII, que estruturou uma organização política, econômica e social sofisticada — assim como tantas outras mulheres negras que vieram muito antes de mim, mas deixaram seu legado em minha vida no que, hoje, chamamos de empreendedorismo. A partir do domínio de seus tabuleiros, feiras, rodas e sistemas inteiros de economia popular e sob um sistema matrifocal próprio dos povos africanos, as mulheres negras destacam-se por suas engenhosidades sensíveis.

Quer receber nossa newsletter?

Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!

Ao contrário do que a história ocidental insiste em nos contar, a centralidade da mulher negra nas decisões familiares não decorre da ausência masculina. Trata-se de uma herança cultural ancestral das sociedades iorubás da África Ocidental, denominada matrifocalidade.

Nessas sociedades poligâmicas, homens podiam ter mais de uma esposa e, com isso, tinham como responsabilidade a obrigação de trabalhar para sustentar suas mulheres e filhos. Já as mulheres eram as verdadeiras gestoras: articulavam o lar, lideravam a economia doméstica, dominavam as feiras como grandes comerciantes e mediadoras de bens materiais e simbólicos. Eram estrategistas sofisticadas, acumulando riqueza e atuando em associações como é o caso de Ialodês e Gueledés.

A Ialodê era, literalmente, a senhora encarregada dos negócios públicos. Tinha assento no conselho supremo das cidades e representava os interesses das comerciantes. Uma verdadeira liderança empreendedora, antes mesmo de existir o termo!

No entanto, ao chegar no Brasil e com a violência da diáspora e da escravização, esse protagonismo foi sequestrado, mas não apagado. Aqui, essas mulheres apenas usaram seus saberes para arquitetar uma economia paralela ao sistema, surgindo as ganhadeiras: mulheres que negociavam sua liberdade, de seus filhos e de seu povo, acumulavam excedentes e sustentavam territórios com a inteligência econômica trazida do continente africano.

Com isso, o que hoje se chama de empreendedorismo, nossas ancestrais chamavam de estratégia de vida, perpetuada pela tradição e sabedoria ancestral. Elas são as verdadeiras arquitetas desse modelo econômico, que ainda hoje se mostra frágil por não ter incorporado saberes que o Ocidente não consegue sistematizar: o cuidado e a inteligência coletiva.

Diferente das mulheres descendentes de europeias, nós não somos netas de bruxas, pois não fomos queimadas na Inquisição. Somos netas de ganhadeiras negociadoras, mães-de-santo e Terezas de Benguela, diplomatas sustentando sistemas e histórias.

A matrifocalidade, tantas vezes retratada como “ausência de pai”, é, na verdade, uma forma de organização social ancestral. Como destacou Teresinha Bernardo, “as mulheres negras vivem essa estrutura não como um fardo, mas como forma de autonomia.” E essa autonomia é exercida com método nos mercados, nos terreiros, nos territórios urbanos e quilombolas.

O que chamam hoje de inovação, nós já fazemos há séculos e com muito mais impacto.

O empreendedorismo como conhecemos hoje foi forjado para beneficiar o sistema, não quem empreende. Transforma ideias em KPIs, molda vidas a pitches, territórios a mercados, estruturando para escalar, lucrar e não para libertar. Uma apropriação que esvazia a sabedoria ancestral das mulheres negras, que criaram um modelo de economia baseado no cuidado, na coletividade, na troca e na autonomia.

A matrifocalidade é um sistema vivo de cuidado e estratégia oriundo da mulher negra, provedora, diplomata e líder. Não se trata da ausência de um pai, ela é, na verdade, baseada na presença.

O empreendedorismo moderno, como conhecemos, dos campi do Vale do Silício, é uma cópia superficial, ocidental e capitalizada de algo que já existia – e funcionava – mas teve apagada uma inteligência crucial: o cuidado.

Sendo assim, eu proponho em minhas pesquisas algo que chamo de Engenharia do Cuidado: uma lente capaz de traduzir a técnica ancestral para redesenhar estruturas econômicas inteiras. Não se trata de uma romantização ou afeto, como o Ocidente, em sua limitação, pôde interpretá-lo, mas da sistematização do cuidado como uma tecnologia social e sua metodologia inerente.

Para reconstruirmos com soberania, e não para caber em parâmetros enviesados, por isso precisamos retomar o nosso tabuleiro por direito.

Afinal, para nós, mulheres negras, empreender nunca foi sobre abrir CNPJ. Foi – e sempre será – sobre garantir liberdade, sustentar territórios e preservar a vida.

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

Apoie jornalismo preto e livre!

O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de financiamento coletivo.

Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor.

O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

  • Camila Santos

Leia mais

PUBLICIDADE

Destaques

Cotidiano