Com uma intensa cobertura da COP30, os canais de TV brasileiros têm mostrado não apenas os bastidores e decisões do evento, mas também fragmentos do território que o sedia. Belém do Pará é uma cidade geograficamente distante, mas que faz parte, e muito, do meu próprio país. Este é um dos dramas de viver em uma nação de dimensões continentais como o Brasil.
Na tela, pratos típicos da região, como tacacá, maniçoba e vatapá, eram apresentados com um entusiasmo quase pitoresco. Além da inegável vontade de provar, veio uma constatação incômoda: se eu não viajar ao Pará, é provável que nunca experimente certas iguarias que estão a poucos voos dentro do meu próprio país. Foi aí que me dei conta do quanto desconheço uma cultura inteira, com seus dialetos, ritmos, histórias e modos de vida. Eu me vi estrangeira dentro da minha própria nação.
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Esse sentimento me remeteu a outro incômodo antigo: o deslumbramento fetichista com Salvador. Quando fui à cidade pela primeira vez, não consegui compreender a “magia” que todos exaltavam. A tristeza me abateu ao ver a disparidade entre a força simbólica da capital mais negra do país e a ausência de redistribuição real de poder e recursos.
Vi em Salvador belezas naturais e um relicário vivo da cultura negra brasileira. Mas, ao caminhar pelas ruas, a negligência estrutural e a truculência policial me cegaram para a mágica soteropolitana. Percebi que a fetichização da estética da diversidade servia como uma máscara para a estrutura desigual e violenta da cidade.
Minhas percepções foram confirmadas em outras visitas e por dados atrozes. Com 79,5% da população se autodeclarando negra, a Bahia lidera o ranking nacional de letalidade policial contra pessoas negras, com 25,3 mortes a cada 100 mil habitantes. Em Belém, onde 64% da população é negra, 75% das áreas de risco ambiental são ocupadas por pessoas pretas e pardas, as mesmas que concentram as maiores taxas de pobreza.
A negação dessa realidade é justificada por uma suposta “valorização” cultural. Mas valorizar, no sentido real, é possibilitar direitos mínimos. Celebrar a cultura dessas regiões, sem condicionar melhorias estruturais para elas, é apenas fetichização.
O Brasil se encanta consigo mesmo sempre que olha para suas margens, mas esse encantamento é distorcido. É o mesmo olhar colonial que deseja o diferente, que o consome, mas se recusa a reconhecê-lo como igual. A dificuldade crônica em descentralizar a voz e o poder do país nasce desse fetiche nacional.
Para além da cultura, o Norte e o Nordeste enfrentam sintomas concretos de marginalização. Apesar de sua inegável potência criativa, política, tecnológica e intelectual, esses territórios ainda são escutados apenas pelo som de seus tambores, e não pela força de suas ideias e de seus números.
O Norte e o Nordeste não são meras paisagens culturais ou cenários pitorescos. São centros vibrantes de pensamento, decisão e inovação, e o fazem saber a cada dado e a cada conquista. Os estados nordestinos, por exemplo, alcançam hoje os melhores índices de educação básica do país, fruto de décadas de políticas públicas e de uma gestão local eficaz. A juventude dessas regiões é protagonista de movimentos ambientais, culturais e políticos. Cidades como Salvador, Belém, Recife, Fortaleza e Manaus têm formado intelectuais, cientistas, artistas e engenheiros que estão, concretamente, redesenhando o futuro do Brasil.
Esses territórios não são carentes de voz. O que existe é um país que fala alto demais a partir de seu centro histórico-econômico-narrativo para escutá-los de verdade. A reprodução da marginalização não é um acidente, mas um projeto executado por quem ocupa o centro do poder.
Descentralizar, portanto, não é apenas deslocar recursos ou sediar eventos. É deslocar o centro da escuta. É assumir que Brasil profundo é a denominação para aquilo que é cotidiano para uns e para outros é um Brasil impossibilitado de assumir sua própria narrativa, com sabedorias capazes de sustentar e regenerar essa nação. Não se trata de “permitir” a existência da multiculturalidade do país, ela já existe, potente e inegável. O que o “centro” precisa, urgentemente, é admitir que ele não é o resumo da história do Brasil.