Tenho refletido bastante sobre a questão dos retornos promovidos pelas bibliotecas porque, com frequência, as bibliotecas e projetos sobre bibliotecas são analisados e avaliados em função do seu retorno financeiro ou econômico, ou algo mensurável do ponto de vista lucrativo. Neste sentido, entendo que há serviços públicos que não precisam, necessariamente, ser lucrativos, da mesma forma que existem instituições sem fins lucrativos, que prestam serviços relevantes e insubstituíveis para o público.
A biblioteca nem sempre foi um lugar público de acesso gratuito. Até chegarmos à biblioteca pública como conhecemos hoje, houve um processo evolutivo de avanços e retrocessos, aceitação e negação de vários séculos ao longo da nossa história como sociedade.
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As bibliotecas não foram as pioneiras no compartilhamento da informação e de experiências entre a sua geração e a geração seguinte. Esse processo foi inicialmente um processo de transmissão oral. Depois, a transmissão às gerações seguintes foi sendo feita por indivíduos treinados para esse fim, que pela idade ou estatuto social dentro do grupo ou da tribo, assumiram a responsabilidade de transmitir histórias e experiências às gerações seguintes.
As bibliotecas surgem com a descoberta da escrita, onde já era possível o registro da informação e das experiências entre os seres humanos. Tijolos de barro, rolos de papiro e códices de pergaminho têm a mesma função dos livros.
O Egito e a China, entre outras nações antigas, tiveram bibliotecas muitos séculos antes de Cristo, mas a civilização que deixou registros que comprovam a existência de bibliotecas foi a assírio-babilônica, com o acervo da grande biblioteca de Nínive no IV Século antes de Cristo.
Mais tarde, surge a biblioteca de Alexandria, que continha centenas de milhares de rolos e sabemos que o seu catálogo era disposto em classes, e dentro de cada classe os autores eram classificados em ordem alfabética.
Havia também a biblioteca de Pérgamo, e no IV Século antes de Cristo, há registro da existência de 28 bibliotecas imperiais romanas em Roma.
Com o fim do Império Romano do Ocidente, as bibliotecas entram em decadência, muitas delas fechando e dando lugar às bibliotecas cristãs, constituídas por livros sagrados.
Durante os séculos seguintes, há uma evolução na tipologia das bibliotecas, na bibliodiversidade e na forma de catalogação do acervo.
Antes do século XVI, as bibliotecas eram particulares, ou associadas à instituições; depois do século XVI, verifica-se uma difusão do tipo de bibliotecas conforme podemos verificar a seguir:
- bibliotecas constituídas como fundação, e mantidas como dotação;
- as bibliotecas nacionais (em geral derivam das reais);
- as bibliotecas circulantes, com pagamento de certa importância por parte do usuário;
- as filantrópicas, com base financeira mista;
- as públicas anglo-americanas, mantidas por contribuições fiscais.
As bibliotecas públicas possuíam uma dotação orçamentária ligada às grandes universidades, e isso foi determinante para a sua multiplicação e expansão. No entanto, o fato de serem nomeadas bibliotecas “públicas”, por si só, não significava acesso público sem restrição. Havia algumas bibliotecas públicas de acesso público irrestrito, como foi o caso da Biblioteca Angélica de Roma, aberta pelo padre Agostiniano Angelo Rocca em finais do século XVI; a Biblioteca Ambrosiana, criada pelo Cardeal Frederico Borromeu, entre 1603 e 1609.
Um dos grandes bibliotecários do século XVII, G. Naudé, defendia que a biblioteca deveria “estar ao serviço de todos e ter um carácter universal; deveria conter os livros mais importantes editados em todo o ramo do saber, nas línguas originais e em tradução; deveriam estar representadas todas as literaturas antigas e as contemporâneas e deveria ter lugar para obras ortodoxas e heterodoxas”.
Portanto, fica claro que a concepção de biblioteca pública pressupõe a ideia de que o acesso é para todos, de forma irrestrita, e que o acervo deve ser diversificado, e abrangente a todos os gêneros e épocas.
Uma outra grande referência na defesa da biblioteca pública foi Gottfried Wilhelm Leibniz, que assumiu o cargo de bibliotecário da Biblioteca de Hanover, em 1676. Leibniz deu à biblioteca o carácter de instituição pública, à semelhança da escola. Ele defendia que “a finalidade da biblioteca é contribuir para o progresso e para o melhoramento da humanidade”. O que Leibniz traz de novo é a ideia de que biblioteca pública deve servir para formação de cidadãos e para o progresso da sociedade. Uma sociedade onde a biblioteca tem um papel central no acesso à informação, contribuirá para a formação de homens livres e conscientes do seu papel no desenvolvimento da sociedade. Este pensamento continua a ser a base, através da qual deve ser vista e pensada a biblioteca pública contemporânea.
Desse modo, podemos ver como Gottfried Wilhelm Leibniz resume de uma forma muito contemporânea e exímia sobre os retornos que a biblioteca pode e deve trazer para a sociedade: “O conhecimento para Leibniz pode progredir somente quando cada indivíduo tem a possibilidade de informar-se sobre o que já foi escrito sobre um certo assunto, daí a função essencial e insubstituível das bibliotecas no progresso das ciências e na pesquisa em geral. O valor de uma biblioteca não depende do número de raridades ou preciosidade de seus livros, mas da qualidade deles”.
Portanto, vemos como a biblioteca é considerada como equipamento fundamental na formação de cidadãos qualificados na ciência e cultura, e como essas qualificações revertem no progresso da sociedade como um todo. O investimento nas bibliotecas gera retornos positivos na sociedade e traz impactos sociais, econômicos e científicos bem fundamentados. Essa contribuição do pensamento de Leibniz, continua atemporal e extremamente importante na atualidade.
Quando falamos sobre os retornos promovidos pelo investimento em bibliotecas, estamos também a falar do que se denomina “valor econômico”, que deriva dos efeitos diretos e indiretos que as bibliotecas exercem sobre o bem estar dos indivíduos. Segundo Ferreira dos Santos (2010), a biblioteca, como instituição, tem impactos econômicos diretos devido ao fato de que, tal como outras organizações, gera emprego, compra materiais, serviços, impulsiona a geração de negócios de proximidade, permite a qualificação profissional e humano, e melhora a qualidade de vida das pessoas, de sorte que devolve um valor direto para a economia local e para o estado.
Em 2016, o Serviço de Bibliotecas Públicas de Navarra (Espanha) também realizou um estudo associado ao valor das suas bibliotecas (Hernández-Sánchez, 2016). Este estudo encontrou um retorno de 4,66 euros em benefícios para a sociedade, por cada 1 euro investido na sua biblioteca, o que implica benefícios líquidos no valor de 64, 6 milhões de euros por ano, notando também que criam um elevado valor econômico, na geração de emprego, direto e indireto, na aquisição de bens e serviços, e no pagamento de impostos, entre outros.
Gostaria de terminar esta abordagem, considerando os retornos promovidos pelo investimento em bibliotecas, com a questão fundamental da remuneração do mercado editorial. As bibliotecas geram um impacto positivo na remuneração e no faturamento de toda a cadeira do livro. O livro digital, sobretudo, tem impulsionado as vendas a cada ano que passa. De acordo com o Publishnews, “o conteúdo digital (e-books e audiolivros), por outro lado, registra um crescimento de 200% em seis anos, desde 2019, o primeiro ano do levantamento do digital. O desempenho positivo com o conteúdo digital impulsionou o crescimento real de todo o setor.”
Desse modo, é essencial valorizar cada vez mais o investimento em bibliotecas, não apenas pelos benefícios que sabemos que a leitura e a literatura promovem no desempenho cognitivo do indivíduo, mas na sociedade, como um todo. Além disso, demonstramos que as bibliotecas impulsionam um desenvolvimento social e econômico importante, dão acesso à informação de qualidade, contribuindo, de forma inequívoca, para a redução de informação falsa disponível na internet e nas redes sociais.
Bibliografia
SERRAI, Alfredo. História da Biblioteca como evolução de uma ideia e de um sistema. Disponível aqui.
Internet Encyclopedia of Philosophy. Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716). Disponível aqui.
Del Sistema de Bibliotecas Públicas de Medellin. Estudio del valor económico y social. Disponível aqui.