A República de Ruanda anunciou a saída oficial da Comunidade Econômica da África Central (ECCAS), principal bloco econômico da região, após desentendimento com a República Democrática do Congo (RDC) e outros países membros. A decisão ocorre em meio ao agravamento do conflito armado no leste congolês e ao aumento do isolamento diplomático de Kigali no continente.
O anúncio foi feito no sábado (7), após a cúpula do bloco decidir estender o mandato de Guiné Equatorial na presidência da ECCAS, ignorando a sucessão rotativa que colocaria Ruanda na liderança. Em nota, o Ministério das Relações Exteriores de Ruanda classificou a decisão como uma “instrumentalização” do bloco por parte da RDC, com apoio de “certos estados membros”.
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“Ruanda não vê justificativa para continuar em uma organização cujo funcionamento atual contraria seus princípios fundadores”, afirma o comunicado oficial.
RWANDA WITHDRAWS FROM ECCAS.
— Ministry of Foreign Affairs & Int'l Cooperation (@RwandaMFA) June 7, 2025
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Pressões diplomáticas e disputa pela presidência do bloco
Segundo um comissário da ECCAS que falou à imprensa sob anonimato, a tensão entre as delegações de Ruanda e RDC dominou os bastidores da reunião. Representantes congoleses alertaram que não compareceriam a nenhum evento do bloco sediado em Kigali, caso Ruanda assumisse a presidência.
Nas redes sociais, o ministro das Relações Exteriores de Ruanda, Olivier Nduhungirehe, classificou como “inacreditável e inaceitável” o fato de que a RDC “segue choramingando em todas as organizações regionais e internacionais, acusando Ruanda por seus próprios fracassos”.
It's unbelievable and unacceptable to note that, whereas President Tshisekedi met President Kagame in a fruitful meeting in Doha, Qatar on 18 March 2025, whereas Minister Kayikwamba and myself signed a Declaration of Principles in Washington on 25 April 2025, and whereas Rwanda… https://t.co/a9xkHx3QUe
— Olivier J.P. Nduhungirehe (@onduhungirehe) June 8, 2025
Conflito no leste congolês e acusações mútuas
O estopim da crise está no agravamento da guerra no leste da RDC, especialmente nas províncias do Kivu do Norte e Sul. Desde janeiro, os rebeldes do M23, apontados por peritos da ONU e dos Estados Unidos como apoiados por Ruanda, avançaram sobre cidades estratégicas e grandes porções de território congolês. Milhares de pessoas foram mortas nos combates.
A Bélgica, ex-potência colonial de ambos os países, somou-se ao coro de críticas contra Kigali, acusando o governo ruandês de fornecer apoio militar ao M23 — grupo acusado de cometer diversos abusos contra civis.
Em fevereiro, durante a Conferência de Segurança de Munique, o presidente congolês Félix Tshisekedi acusou Ruanda de manter “ambições expansionistas” e explorar os recursos minerais da região. Ele defendeu sanções internacionais contra Kigali e lamentou a omissão da comunidade global diante do avanço dos conflitos.
Segundo Tshisekedi, o objetivo de Ruanda seria controlar áreas ricas em minérios estratégicos — como ouro, estanho e terras raras — utilizados em baterias, celulares e outros dispositivos eletrônicos. Kigali nega todas as acusações e afirma que sua presença militar visa combater grupos armados, em especial as Forças Democráticas para a Libertação de Ruanda (FDLR), fundadas por hutus envolvidos no genocídio de 1994.
Os presidentes Paul Kagame (Ruanda) e Félix Tshisekedi (RDC) se encontraram em março no Catar, para discutir possibilidades de cessar-fogo. Até o momento, no entanto, os diálogos não produziram resultados concretos, e o clima de desconfiança permanece.