No Brasil, a experiência religiosa constitui um dos principais eixos de produção de sentido, pertencimento e dignidade, sobretudo em contextos marcados pela desigualdade racial, de gênero e de classe. Nas últimas quatro décadas o cristianismo evangélico ocupa uma posição central, operando como o que Foucault chamou de dispositivo de poder, sendo não apenas uma prática de fé, mas de força social, política e pedagógica que incide diretamente sobre corpos, afetos, moralidades e projetos de futuro.
Nas dimensões microssociais, sua expansão acelerada (6,5% em 1980 e 26,9% em 2022) — especialmente entre populações negras e periféricas — tem, por um lado, reconfigurado o cotidiano, os imaginários e os regimes de verdade que orientam a vida social, produzindo estranhamento, distanciamento e formas de exterioridade em relação à cultura negra e indígena brasileira. De outro lado, complementarmente, ser convertido é também um processo corporal, estético e existencial, modelado pelo medo e a culpa que constituem esse dispositivo de confissão.
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
Aqui, dois aspectos são centrais sobre o grupo dos pentecostais e outras igrejas “não denominadas”: (1) seu caráter dinâmico é marcado por apropriações seletivas de elementos culturais e ritualísticos de outras religiões e culturas; para assim (2) fazer uso dessas apropriações com a finalidade de sacralizar ou demonizar práticas e identidades étnico-religiosas, ao mesmo tempo em que as reinserem de modo “cristianizado”, reproduzindo continuidades do projeto colonial.
No Carnaval de 2026, o resultado do investimento no fundamentalismo e na intolerância foi o ataque à cultura, dignidade e lazer por meio do apelo à moral cristã, através da criação de leis em diferentes regiões do Brasil. Em Salvador, a Câmara Municipal aprovou (mas não sancionou) um projeto de lei (PL 28/2025) que criou um programa de combate à cristofobia, com previsão de punições e ações educativas que visem “garantir o respeito aos cristãos e convivência pacífica entre diversas crenças e religiões”. De acordo com o texto, são proibidas “campanhas e fantasias desrespeitosas aos cristãos”, em festas populares como carnaval, festas e atividades culturais.
Dia 3 de fevereiro de 2026, a Câmara Municipal de Belo Horizonte aprovou um Projeto de Lei (PL 11\2025) que proíbe a presença de crianças menores de 12 anos em eventos artísticos, carnavalescos, culturais, LGBTQIAPN+ e outros que “apresentem exposição de nudez ou conteúdo inapropriado para menores de idade”. Ambos os projetos foram propostos por vereadores do Partido Liberal (PL), legenda que elegeu mais vereadores nas 26 capitais brasileiras em 2024, com 94 parlamentares eleitos, segundo dados do Brasil de Fato.
Tal cenário nos aponta que as estruturas de poder estão continuamente tentando enfraquecer a laicidade do estado brasileiro e criar cidadãos normalizados, padronizados, estética e subjetivamente capturados pela experiência de segregação e racismo que a igreja proporciona. Entretanto, as respostas ao aumento do domínio evangélico e do regime de medo como tecnologia de controle nos apontam também caminhos férteis e saídas possíveis.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra uma desaceleração do crescimento evangélico esperado e aumento dos sem religião (de 7,9% em 2010 para 9,3% em 2022), expondo o fato de que esse é o terceiro maior grupo religioso do país, que segue majoritariamente católico (56,7%) e evangélico (26,9%). Essa correlação entre diminuição e crescimento é investigada pioneiramente pela doutoranda em antropologia Thayane Fernandes (PPGA\UFPE), através de análises que se detém nos “processos de ruptura” das pessoas negras com a igreja evangélica – a “desconversão” e “dissidência” com esse tipo de cristianismo.
Dados de um mapeamento ainda em aberto realizado com mais de 250 pessoas negras brasileiras desigrejadas, afastadas ou ex-evangélicas, com idade entre 18 e 45 anos, apontam que, o trauma da passagem e da ruptura precisa e pode ser curado por meio da sacralização do que é cultura. Ao serem perguntadas “42. Você sente falta de algo que fazia enquanto estava na igreja?” destacam atividades ligadas à arte e a cultura “música”, “canto”, “louvor”, “dança”, “teatro”, “grupos de jovens”, “ensino”. Quando questionados sobre “31. Estando na igreja, você consumia/consome arte e cultura de pessoas não evangélicas?”, 84,6% responderam positivamente.
Na pesquisa em andamento, esses e outros dados coletados evidenciam que nem mesmo o mais rígido regime de controle, docilização e dominação cultural pode sequestrar pessoas negras das culturas inscritas em seus corpos, os arquivos-vivos e produtores da mudança. As experiências estéticas (como ouvir uma música, ver um filme, ir em lugares desconhecidos) então, aparecem como peças-chave para o acesso à novas concepções de sagrado, dando espaço para fantasia e o Carnaval. Esse dado desde muito tempo é conhecido por aqueles que oprimem e violentam continuamente o negro no Brasil, porque imaginar fora da estética evangélica e seus desdobramentos conservadores é romper com o medo já naturalizado e corporalizado em relação ao diferente. Carnavalizar é ritualizar, resistir e resguardar valores religiosos e culturais perenes que dão sentido à existência.