Promover visibilidade e fortalecer a negritude feminina: foi com esse propósito que a jornalista e mãe Patricia Chaves criou o Giro Delas, evento exclusivo para mulheres negras no Rio de Janeiro. A iniciativa busca oferecer um espaço seguro, de acolhimento e pertencimento, onde mulheres negras possam se expressar e celebrar sua identidade, em uma festa feita por negras e para negras.
Em entrevista à Alma Preta, Patricia compartilha a motivação por trás da criação do evento pensado para potencializar a presença negra. A ideia surgiu de forma inesperada, quando ela compartilhou, por engano, uma foto de seu grupo de amigas negras na página do Afro Giro, projeto do qual também é idealizadora.
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A publicação teve grande repercussão, despertando o interesse de outras mulheres negras que acompanhavam a página. Em dezembro de 2024, Patricia reuniu as amigas e também abriu as portas ao público para a primeira edição do encontro, realizada na Casa Malê, no Rio de Janeiro.
“Comecei a procurar algumas marcas de amigas empreendedoras para fazer sorteio, fui atrás de coisas para distribuir. Também chamei a DJ Heavy, que toca nas festas da Casa Black Rio”, conta a jornalista.
Desde então, a festa se tornou uma referência para mulheres negras na capital fluminense, que inclui atrações musicais, empreendedorismo negro e atividades culturais, consolidando-se como um espaço de conexão entre mulheres negras.
“Foi incrível, foram 90 mulheres negras e a partir daí começou a se criar o Giro Delas, que é uma celebração entre a gente. A festa é música boa, um corpo que celebra, uma dança, risada. É a mulher negra ser o que ela quer ser, do jeito que ela quer, sem julgamento. É um espaço de liberdade, onde você pode ser quem é, sem obrigação de performar”, explica.
Pensando na inclusão de diferentes perfis, o evento também contempla mulheres de todas as idades e mães. Por isso, a festa costuma ocorrer entre o período da tarde e o início da noite, garantindo que todas possam participar com segurança.

Patricia Chaves também destaca que no Giro Delas, não há um formato certo de se vestir. A proposta é justamente romper com os estereótipos que ditam como as pessoas negras devem se comportar ou se apresentar em outros espaços. “A mulher negra já sofre com isso por aí, em todos os lugares que ela vai. Então eu falo assim: coloca qualquer roupa que você tiver e o que você acha que é melhor para você”.
Além da celebração, o evento também promove networking e apoio mútuo, criando uma rede de fortalecimento entre mulheres negras. Segundo Patricia, o espaço acolhe inclusive aquelas que chegam sozinhas, preparando um momento especial de apresentação durante a festa. “Dali elas fazem amizade, saem com emprego e com autoestima. Elas saem com um monte de coisa, porque o giro delas é um network na diversão”, enfatiza.

Um dos destaques do evento é a dinâmica chamada “Espelho da Identidade”, idealizada por Patricia. Durante a atividade, Patricia convida as mulheres a se posicionarem lado a lado, organizadas de acordo com seus tipos de cabelo, seja curto, com tranças, crespo ou até raspado, para poderem se reconhecer umas nas outras, enxergar a diversidade da beleza negra e estimular a autoestima coletiva.
“O Giro Delas para mim hoje é isso: a mulher entra e sai fortalecida. É um espaço que ela pertence e também se sente pertencente”, acrescenta.
Iniciativas unem comunicação e protagonismo negro
A jornalista Patricia Chaves tem utilizado a comunicação como ferramenta de visibilidade, representatividade e protagonismo negro. Além do Giro Delas, ela também é idealizadora do AfroGiro, iniciativa que começou pela ausência de registro e valorização de pessoas negras em eventos culturais.
O questionamento ocorreu durante um samba com amigas em Realengo, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Patricia percebeu que, mesmo em espaços majoritariamente frequentados por pessoas negras, como rodas de samba, raramente havia profissionais registrando esses momentos.
Mesmo atuando no jornalismo institucional, ela decidiu buscar algo para mudar esse cenário. “Fiz o meu microfone, colei uma imagem e mandei imprimir. O primeiro evento que eu fui foi o Terreiro de Crioulo e entrevistei a galera preta que estava lá”, conta.
“O Afro Giro serve para ampliar vozes, fortalecer a nossa cultura, tirar a gente da invisibilidade e dar protagonismo”, complementa a idealizadora.
Além de cobrir eventos frequentados majoritariamente por pessoas negras, Patricia passou a circular mais por espaços onde a presença negra costuma ser minorizada, para dar visibilidade às suas histórias.
A proposta também é entrevistar pessoas anônimas que estão nos eventos apenas para se divertirem, abordando o estilo, os cabelos, as roupas e como expressam sua identidade negra.
“Já gravei gente com seu crespo do jeito que é, porque o nosso cabelo não é ativação de cacho. Também já gravei muita gente com seu black. É isso que eu busco, mostrar que a gente pode ser o que quiser, com liberdade e sem culpa”, conta.

Novos formatos e experiências afetivas
Com o sucesso do Giro Delas, Patrícia pretende ampliar os formatos da iniciativa. Uma das próximas edições será voltada a uma tarde recreativa com memórias da infância e brincadeiras afetivas.
Além disso, para dezembro, ela prepara o evento especial “Giro Delas: Pretas em Alto Mar”, que consiste em um passeio pelo litoral do Rio de Janeiro.