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Por que o discurso de parditude soa confortável aos ouvidos brancos?

Ao biologizar a experiência racial e apagar a branquitude como agente do racismo, o discurso da parditude produz assimetrias que ajudam a explicar sua ampla aceitação entre sujeitos brancos
Imagem mostra parte do rosto de um homem negro e de suas mãos.

Imagem mostra parte do rosto de um homem negro e de suas mãos.

— Reprodução/Freepik

14 de fevereiro de 2026

Ao observar os inúmeros comentários presentes nas redes sociais de Beatriz Bueno, pesquisadora e formuladora do conceito de parditude, chama atenção um dado recorrente: embora muitas das pessoas que defendem esse conceito possam ser lidas socialmente como pardas, outra grande parte dos comentários favoráveis parte de sujeitos que poderiam ser lidos como brancos. Esse dado, longe de ser trivial, ajuda a formular uma pergunta central: por que o discurso da parditude soa tão confortável aos ouvidos brancos?

Uma possível resposta está no próprio funcionamento interno desse discurso. Ao analisarmos atentamente a forma como sujeitos brancos e sujeitos negros aparecem na narrativa que fundamenta a parditude, torna-se evidente a existência de pesos e medidas profundamente assimétricos. Ela conta, por exemplo, que sentia vontade de alisar o cabelo e buscava se aproximar de padrões estéticos associados à brancura. Essa experiência, comum a muitas pessoas negras, é apresentada como resultado de uma pressão estética difusa, sem agente definido. O sujeito branco, nesse caso, não aparece como operador do racismo, mas como uma referência abstrata, quase natural.

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Essa lógica se altera radicalmente quando o discurso da parditude se refere a sujeitos negros. Ao relatar sua aproximação com movimentos negros, Beatriz Bueno afirma ter vivido uma grande decepção ao não ser reconhecida como uma pessoa negra. Curiosamente, nunca se explicita qual movimento negro a teria rejeitado, nem em que circunstâncias isso teria ocorrido. Ainda assim, o movimento negro aparece como um sujeito coletivo claramente situado, nomeado e responsabilizado.

Aqui reside uma clivagem fundamental: enquanto o sujeito branco aparece como universal e desracializado, o sujeito negro surge como identidade política específica, localizada e marcada. Essa diferença revela que o conflito racial, no discurso da parditude, não se estabelece contra a branquitude, mas em contraste com o movimento negro. O pardo, nesse arranjo, não é compreendido como produto histórico do racismo, mas como identidade construída em oposição ao negro.

Outro elemento central para entender o conforto que esse discurso produz é seu caráter biologizante. Basta observar comentários recorrentes nas publicações sobre parditude: “sou branco demais para ser negro, mas negro demais para ser branco”. O que se pressupõe aqui é a existência de um negro ideal e de um branco ideal, definidos a partir da ascendência genética, da origem familiar e de uma suposta pureza racial.

Ainda que não se trate de uma defesa explícita da biologia, o discurso da parditude se ancora, no limite, em uma lógica genética: pessoas pardas seriam mestiças porque resultariam da mistura entre raças. O problema é que essa leitura ignora um ponto fundamental já amplamente debatido pelas ciências sociais: a raça não é um dado biológico, mas uma construção social utilizada historicamente para hierarquizar, explorar e inferiorizar populações racializadas.

É justamente por isso que a parditude soa tão confortável aos ouvidos brancos. Ao biologizar a raça e deslocar o racismo de sua base estrutural, esse discurso exime o sujeito branco de qualquer responsabilidade na luta antirracista. Opera-se, assim, aquilo que Florestan Fernandes chamou de política da indiferença: se todos são mestiços, se as fronteiras raciais são dissolvidas biologicamente, então o racismo deixa de ser um problema estrutural a ser combatido.

Tal como o mito da democracia racial, o mito da parditude contribui para o esvaziamento da luta política. Se, no limite, todos somos mestiços, não há racismo a enfrentar, nem desigualdade racial a reparar. O resultado é a manutenção da ordem racial existente, agora revestida de uma linguagem aparentemente crítica, mas profundamente conciliadora.

É nesse ponto que se revela o verdadeiro conforto: um discurso que não nomeia a branquitude, não responsabiliza o branco e não enfrenta as estruturas do racismo dificilmente causará incômodo a quem se beneficia delas. Por isso, a parditude soa tão bem aos ouvidos brancos, não porque desestabiliza o racismo, mas porque o reorganiza sem confrontá-lo.

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Formado em História (Licenciatura) pela Universidade Federal do Tocantins (UFT), mestre em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) e doutorando pelo mesmo programa. Desenvolve pesquisas sobre os discursos de democracia racial no universo do rádio brasileiro nos anos 1950, com interesse especial nas representações e experiências de artistas negros nesse contexto.

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