Crianças brasileiras nascidas em 2020 enfrentarão 6,8 vezes mais ondas de calor e 2,8 vezes mais inundações e perdas de safra ao longo da vida, em comparação com aquelas nascidas em 1960. Os dados são do relatório “A Primeira Infância no Centro da Crise Climática”, lançado nesta quinta-feira (5) pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI).
A pesquisa utiliza informações do Observatório de Clima e Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que indicam uma escalada nos eventos naturais extremos: de 1.779 em 2015 para 6.772 em 2023. Esses fenômenos já afetam diretamente o desenvolvimento de 18,1 milhões de crianças brasileiras com até 6 anos — grupo que representa 8,9% da população nacional.
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Efeitos na saúde, nutrição e educação
O relatório do NCPI aponta que crianças de até seis anos já enfrentam impactos diretos das mudanças climáticas sobre a saúde, a segurança alimentar e o aprendizado. Entre os efeitos observados, destaca-se o aumento de 34% nas doenças diarreicas entre crianças acolhidas em abrigos após desastres naturais. Também se registra um risco 2,5 vezes maior de desnutrição aguda entre crianças que passam por deslocamentos forçados.
A insegurança alimentar, intensificada por secas e enchentes, também se reflete em dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan): 5% das crianças de até quatro anos apresentam desnutrição crônica e 18,28% estão em risco de sobrepeso. O calor extremo contribui ainda para a queda no desempenho escolar de crianças pequenas, dificultando sua concentração e permanência nas salas de aula.
Desigualdades ampliadas
As mudanças climáticas agravam desigualdades raciais, regionais e socioeconômicas já presentes no Brasil. Crianças negras, indígenas e moradoras das regiões Norte e Nordeste enfrentam maior exposição a riscos ambientais. O estudo mostra que 33,6% das crianças pobres vivem em lares chefiados por mulheres negras que não completaram o ensino médio.
Além disso, 43,5% das escolas de educação infantil nas capitais não possuem áreas verdes, elemento importante para amenizar os efeitos do calor. Nas favelas, o cenário é ainda mais crítico: 52,4% das unidades não oferecem qualquer espaço natural. Esses dados evidenciam que o acesso à infraestrutura básica e segura também é racializado e geograficamente desigual.
Impacto na educação e nos deslocamentos
As mudanças climáticas já afetam o direito à educação. Em 2024, eventos extremos resultaram na suspensão de aulas para 1,18 milhão de crianças e adolescentes. No Rio Grande do Sul, foram perdidas 55.749 horas-aula. Mais de 3.930 crianças de até cinco anos precisaram ser realocadas para abrigos após as enchentes.
Entre 2013 e 2023, mais de 4 milhões de brasileiros foram desalojados por desastres naturais. A ausência de políticas específicas para proteção da infância nesses contextos é uma das lacunas apontadas no estudo.
Propostas para proteção das crianças brasileiras
O NCPI propõe cinco eixos de ação para enfrentar os impactos da crise climática sobre a primeira infância. No eixo da saúde, recomenda a instalação de sistemas de alerta para ondas de calor e a ampliação do uso de cisternas em regiões com escassez hídrica.
Na educação, o estudo propõe a criação de zonas de resfriamento e áreas verdes nas escolas, além do desenvolvimento de protocolos que assegurem a continuidade pedagógica após desastres.
No campo do urbanismo, indica a priorização do reassentamento de famílias com crianças em áreas de risco, além da adoção de soluções como telhados verdes e pavimentos permeáveis para melhorar a adaptação às mudanças climáticas.
No eixo da proteção social, defende a criação de espaços de acolhimento infantil em abrigos e o oferecimento de apoio psicossocial após eventos traumáticos.
Por fim, na área da nutrição, sugere a ampliação do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) com alimentos provenientes da agricultura familiar e a implantação de hortas comunitárias e escolares como forma de fortalecer a segurança alimentar de crianças e comunidades.