Em um país o qual o racismo estrutural marca as relações sociais e estigmatiza os corpos negros, ser pai afetuoso, presente e consciente é um ato político.
Ser pai negro é enfrentar preconceitos e barreiras históricas, desafiando estereótipos e reivindicando o direito de cuidar e amar os filhos em uma sociedade que muitas vezes invisibiliza essa presença.
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O mito do “pai ausente”, que pesa sobre os homens negros no Brasil, ignora os efeitos da desigualdade racial na autoestima, na estabilidade econômica e nas condições reais para exercer a paternidade com dignidade.
O diretor de arte e fotógrafo Willians Prado, de 39 anos, vive essa realidade. Pai de Benício, de dois anos e meio, ele defende a reinvenção da paternidade para romper ciclos de autoritarismo e violência que marcaram tantas infâncias negras.
“O desafio é não reproduzir comportamentos negativos e, acima de tudo, escutar mais a criança”, afirma.
Foi por meio do coletivo Pais Pretos Presentes, que promove rodas de conversa com mães e pais negros, que Willians conheceu a abordagem da parentalidade positiva. “É um espaço de acolhimento. Mesmo antes de ser pai, eu já sabia que ali encontraria confiança”, relata.
Porém, os desafios vão além das trocas afetivas. Segundo Willians, coordenador de comunicação do coletivo, as barreiras impostas pelo racismo também têm dimensão econômica, que afeta diretamente a rotina familiar.
“Para matricular meu filho em uma boa escola, enfrentei dificuldades comuns: moro em um bairro com boa infraestrutura, mas não posso pagar uma escola particular. A rede pública não atende minha região por ser considerada nobre, presumindo-se que todas as famílias tenham carro. Sem transporte escolar, teria que arcar com um custo extra, que pesa no orçamento”, relata.
Essa exclusão econômica, ressalta, é vivida por muitas famílias negras que enfrentam insegurança financeira para garantir o básico. Ainda assim, ele e a esposa priorizam que Benício cresça cercado de afeto, liberdade e segurança. “Tentamos sempre usar palavras positivas e deixar que ele explore suas curiosidades. Atenção é o que toda criança precisa.”
Mesmo conciliando trabalho em casa, Willians se empenha para estar presente nas pequenas rotinas, como refeições, brincadeiras e passeios em família. “Essa fase passa rápido. Tentamos aproveitar e participar de tudo.”

Ao refletir sobre os estigmas que rondam os homens negros, ele cita o médico psiquiatra e filósofo Frantz Fanon: “Uma sociedade é racista ou não é. Não existem graus de racismo.” Para o diretor de arte, garantir o direito à paternidade afetuosa é também lutar por transformações sociais profundas. “Não é só por nós e nossos filhos. É por uma convivência social que beneficie a todos.”
Aquilombamento como base para uma nova paternidade
Willians não está sozinho nessa jornada. Em diversas regiões do país, homens negros vêm criando espaços de diálogo e apoio para discutir a paternidade em meio às dificuldades impostas pelo racismo estrutural. O coletivo Pais Pretos Presentes, fundado em 2018 no Rio de Janeiro por Humberto Baltar, é um exemplo dessa mobilização.
Humberto, professor e palestrante da disciplina “Paternidades Pretas” na pós-graduação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), é pai de Apolo, de seis anos, que, assim como ele, é neurodivergente.
“Quando soube que seria pai, percebi que não tinha repertório racial, emocional ou afetivo para criar meu filho”, recorda.
Em busca de apoio, ele enfrentou desdém e até ataques racistas ao tentar abordar suas inseguranças em grupos de masculinidade.
Dessa exclusão nasceu o coletivo, que começou com uma pergunta simples nas redes sociais: “Quem conhece um pai preto presente para me apresentar?”. Rapidamente, a iniciativa ganhou força, formando grupos para pais pretos, mães pretas, famílias mistas e com crianças neurodivergentes.
“O primeiro movimento de quem chega é abandonar os padrões da masculinidade hegemônica”, explica Baltar. O professor completa que muitos relatam o alívio de não precisar sustentar posturas de agressividade ou distanciamento emocional, e começam a praticar escuta, inteligência emocional e afeto — um verdadeiro processo de cura.

Para o educador, a ancestralidade africana é um pilar central. Por meio do contato com referências como a filosofia ubuntu e o pan-africanismo, os participantes ressignificam sua identidade, rompendo com a narrativa da África apenas como miséria. “É nessa reconexão que o coletivo cria espaços seguros, onde o homem negro pode mostrar vulnerabilidade e transformar sua paternidade.”
Estado, sociedade civil e protagonismo negro
Desde 2020, o coletivo ampliou sua atuação ao estabelecer parcerias com organizações do setor privado, terceiro setor e poder público. Para Baltar, coordenador da Comissão Temática das Paternidades da Rede Nacional da Primeira Infância (RNPI), essa articulação é fundamental para dar visibilidade às paternidades negras.
A entrada do coletivo na RNPI evidenciou o quanto a parentalidade preta ainda é marginalizada no debate público. Dados do Instituto Ethos de 2020 mostram que somente 6% das organizações brasileiras dedicam atenção à questão racial.
Para preencher essa lacuna, em 2021 o coletivo lançou o Primeiro Relatório sobre as Paternidades Negras no Brasil, produzindo dados essenciais para fundamentar políticas e ações. O protagonismo negro nas políticas públicas é prioridade para Baltar, que atua em áreas como saúde, educação, segurança e assistência social.
Neste ano, em parceria com o Instituto Promundo, promoveu debates sobre masculinidades saudáveis e paternidades positivas com agentes comunitários de saúde no Piauí, Maranhão e Rio de Janeiro, fortalecendo iniciativas como o Programa Pré-natal do Parceiro.
Além disso, o coletivo mantém diálogo constante com secretarias municipais e estaduais para garantir que as demandas da comunidade negra, historicamente negligenciada, sejam ouvidas e respeitadas. Reconhecido pelo impacto social de sua atuação, o Pais Pretos Presentes já recebeu moção na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, reafirmando seu papel na ressignificação das trajetórias negras no Brasil.

Paternidade negra: gesto de resistência em meio ao racismo estrutural
Para Leandro Rocha, educador e especialista em masculinidades negras pelo Ministério da Saúde, ser pai negro no Brasil é uma experiência atravessada por desigualdades profundas, impostas por um sistema que nega direitos e invisibiliza afetos.
“O racismo é uma forma sistemática de exercício de poder que gera desvantagens a determinados segmentos raciais da sociedade”, explica. Segundo o especialista, esse sistema atinge todas as esferas da vida da população negra — inclusive a maneira como os homens negros vivem e exercem a paternidade.
O educador destaca que, enquanto o modelo dominante de paternidade ainda se baseia em referências brancas e eurocentradas, os pais negros enfrentam o desafio de afirmar suas formas de cuidado como legítimas e possíveis.
“Ser pai negro é diferente de ser pai branco. A sociedade nos enxerga e trata de forma desigual”.
Estigmas, medos e políticas ausentes
Rocha alerta para os estigmas sociais que pesam sobre esses homens, como a ideia do “pai ausente”. Para ele, esse discurso desconsidera a presença de tantos pais negros que, mesmo diante de barreiras estruturais, cuidam ativamente de seus filhos. “Esse discurso nega o direito ao cuidado desses homens”, pontua.
Entre os desafios enfrentados, o medo da violência é um dos mais marcantes — especialmente diante da violência policial e do racismo que atravessa as relações desde o nascimento dos filhos. Esse receio constante se torna ainda mais intenso quando o homem negro se torna pai: o medo de não ver os filhos crescerem, de deixá-los em vulnerabilidade econômica ou de vê-los também vitimados por violências institucionais.
Essa dimensão se concretiza, segundo Leandro, nas instituições por onde esses homens e suas famílias circulam. Nos serviços de saúde, por exemplo, muitos pais enfrentam barreiras para acompanhar a gestação e o parto. A precariedade dos vínculos de trabalho, marcada pela informalidade, dificulta a presença em consultas e momentos importantes, sem qualquer garantia de licença ou ausência remunerada. “Essa ausência é uma imposição, não uma escolha”, destaca.
Afeto como prática de reconstrução
Mesmo diante de tantos obstáculos, Leandro afirma que homens negros têm criado caminhos para resistir e reconstruir suas paternidades. Redes de apoio, rodas de conversa e grupos sobre masculinidades ajudam a romper com a ideia de que homens negros não podem ou não sabem cuidar com afeto.

“Agora estão redescobrindo o valor do afeto”, diz. Através dessas vivências coletivas, muitos pais têm construído uma nova relação com seus filhos e com a própria identidade.
“A presença amorosa do pai preto ajuda a construir autoestima e identidade fortes em crianças que a sociedade insiste em negar.”
Para transformar essa realidade, Leandro defende que os meios de comunicação, as escolas e os serviços públicos ampliem a representação de pais negros como cuidadores e afetivos. “É preciso mostrar mais pais negros cuidadores, para que nossas crianças também se reconheçam nesses afetos.”
“O estabelecimento do vínculo afetivo na primeira infância, portanto, é determinante não apenas para o desenvolvimento da criança, mas também para o próprio processo de transformação do pai que nasce — ou renasce — com a experiência da paternidade”, finaliza.
Este conteúdo faz parte de uma parceria com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal para a produção de reportagens sobre a primeira infância.
