Para resolver o déficit de hospedagem em Belém, já previsto em abril de 2024, quatro meses após a confirmação da capital paraense como sede da COP30, o governo Lula (PT) doou um imóvel à gestão estadual de Helder Barbalho (MDB) para a construção de um hotel.
O local foi cedido, por meio de uma licitação, à empresa Roma Serviços de Restauração, Construção e Administração LTDA, a única inscrita no certame. A empresa assumiu a missão de transformar o antigo prédio da Receita Federal em um hotel de luxo da rede portuguesa Tivoli.
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A obra foi oficializada em 10 de julho de 2024, com a assinatura do contrato entre a empresa e o governador Helder Barbalho (MDB), e foi inaugurada na última quarta-feira (1º).
Falta de transparência
A licitação, no entanto, foi marcada por falta de transparência. A Secretaria de Estado de Cultura (Secult), responsável pelo processo, não tornou público o contrato firmado com a Roma, tampouco o edital de cessão do prédio ou o valor oferecido pela empresa.
Além disso, o nome da Roma não consta nas buscas do Portal da Transparência do Governo do Pará.
O ato contraria legislações que garantem a publicidade e a transparência na administração pública, entre elas o artigo 37 e 163-A da Constituição Federal de 1988.
A Lei nº 14.133/2021 (Nova Lei de Licitações e Contratos Administrativos) também exige que todos os atos do processo licitatório sejam disponibilizados em portais de transparência ou nos sites oficiais dos órgãos públicos envolvidos.
O empresário envolvido em polêmica criminal
No ato de assinatura do contrato, a empresa, pertencente ao Grupo Roma, foi representada por seu vice-presidente, Giovanni Maiorana.
Figura central na solução para o gargalo hoteleiro em Belém diante da COP30, Giovanni também é protagonista de um dos episódios mais trágicos e controversos da crônica policial recente da cidade.
Na madrugada de 27 de setembro de 2018, as jovens pretas e periféricas Gabriela Costa, 19 anos, e a trans Kinberly Guedes, 20 anos, foram atropeladas ao sair de uma boate em Belém. Elas não sobreviveram ao acidente.

As jovens foram atingidas pelo carro de luxo dirigido por Giovanni Maiorana, que trafegava em alta velocidade e, segundo testemunhas, com sinais de embriaguez. Dentro do Jeep Compass, foram encontradas garrafas de bebida alcoólica e imagens publicadas nas redes sociais, na mesma noite, mostravam o empresário consumindo “cachaça de jambu” ao lado de Gominho.
Apesar das evidências, Giovanni não permaneceu preso por mais de 24 horas. O processo nunca resultou em denúncia formal por parte do Ministério Público. Em 2023, o caso foi encerrado por meio de um acordo judicial que isentou o empresário de qualquer punição criminal, mediante o cumprimento de condições estabelecidas pela Justiça.
O acordo foi possível após testemunhas alterarem, de forma misteriosa, seus depoimentos sobre a embriaguez do motorista.
Figura-chave na COP30
Quase seis anos após o acidente, Giovanni ressurge como figura central em um dos projetos mais emblemáticos da preparação para a COP30. À frente da Roma Incorporadora, ele assinou com o Governo do Pará a concessão de 30 anos para transformar o antigo edifício da Receita Federal em um hotel cinco estrelas.
O prédio, com 18 andares e 2.709 m², localizado na Rua Gaspar Viana, no centro de Belém, foi transferido ao governo estadual pelo Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos com a finalidade de ser transformado em um hotel.
O empreendimento é operado pela rede Tivoli, de origem portuguesa, que faz parte do grupo hoteleiro Minor Hotels. O hotel conta com 176 acomodações, entre quartos, suítes e duas suítes presidenciais. A um quarteirão da orla e com vista para a Baía do Guajará, oferece acesso a atrações turísticas, como a Estação das Docas, o Mercado Ver-o-Peso, a Praça da República e à Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré.
Durante a cerimônia de assinatura, o governador Helder Barbalho destacou os benefícios econômicos do projeto e afirmou que o Estado será remunerado com um percentual da receita gerada pelo hotel.

Em nota à Alma Preta, a Minor Hotels, que administra o Tivoli Maiorana, não responde por questões relacionadas ao Grupo Roma, proprietário do imóvel. A atuação é restrita à operação hoteleira.
O Grupo Roma e o Governo do Estado também foram questionados sobre as denúncias de falta de transparência no processo licitatório e a tragédia envolvendo Giovanni, mas não responderam até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto.
Valores elevados e comparações
Apesar das promessas de legado para a rede hoteleira da cidade, o projeto também gerou controvérsias pelos altos valores estimados de hospedagem, conforme revelado pelo Poder 360.
Isso porque o hotel construído pelo grupo de Maiorana ofertou ao governo do presidente Lula, em fevereiro deste ano, diárias que chegam a R$ 238 mil para o período da COP, segundo orçamento enviado pela rede. O valor é o da suíte presidencial do Tivoli Maiorana.
Para efeito de comparação, a Penthouse, a suíte mais luxuosa do Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, cobra cerca de R$ 20 mil por diária, destacou o portal de notícias. Foi nesse quarto que se hospedaram as cantoras Madonna e Lady Gaga, em suas passagens pelo Brasil em 2024 e 2025, respectivamente.
O valor cobrado pelo Tivoli é mais de dez vezes o cobrado pelo Copacabana Palace.
À época, os valores finais para algumas dezenas de quartos, com permanência de 15 a 30 dias, ultrapassam a casa dos milhões:
- R$ 34,8 milhões por 71 quartos por 15 dias;
- R$ 63,9 milhões por 71 quartos por 30 dias.
Entretanto, atualmente, para o período da conferência do clima, que ocorre de 10 a 21 de novembro, as diárias do Tivoli Maiorana variam entre R$ 8 mil e R$ 25 mil, conforme o Estadão.
Com investimento de R$ 120 milhões, o hotel Tivoli Maiorana abriu as portas na quarta-feira (1º). A ocasião foi marcada por uma homenagem ao irmão de Giovanni, Romulo Maiorana Netto, que recebeu o prêmio Jovem Empresário do Ano. Giovanni Maiorana não participou da cerimônia.
Marco Amaral, vice-presidente de Operações e Desenvolvimento da Minor Hotels para a América do Sul, disse ao Estadão que o Tivoli Maiorana já tem 70% dos 176 apartamentos reservados para a conferência e o restante está em negociação.

No próximo dia 9 de outubro é a vez da inauguração de mais um hotel, o Vila Galé Collection Amazónia. Ambos somam 403 apartamentos ao número de leitos na cidade, que totalizam em torno de 36.015. A expectativa é que Belém supere o número de 53 mil leitos atuais até novembro. Na conferência, são esperados cerca de 50 mil turistas.
Relações de poder e influência
Giovanni Maiorana é filho de Rômulo Maiorana Júnior e membro de uma das famílias mais influentes da elite paraense. O Grupo Roma, do qual é vice-presidente, é proprietário da produtora Roma Eventos, do portal Roma News, do hotel Radisson e da incorporadora responsável pelo novo hotel da COP.

A proximidade entre o grupo e o governo Helder Barbalho foi fortalecida nos últimos anos. Em 2024, já haviam sido firmadas outras parcerias, como o evento Parárraia, promovido com apoio do Grupo Roma, que ganhou uma nova edição em 2025. O vínculo se aprofunda com a concessão do prédio federal localizado no coração de Belém.
Para o Governo do Estado, o novo hotel é um dos legados da COP30 para a cidade. “Por um lado, temos a construção civil e o emprego imediato; por outro, a ampliação de leitos, aumentando a competitividade da nossa capital e atraindo turismo, que certamente é uma das principais estratégias para consolidar a nova economia em favor do Estado do Pará”, declarou o governador Helder Barbalho na assinatura do contrato com Maiorana.