Na manhã da última quarta-feira (29), acompanhei os desdobramentos da operação policial que deixou mais de 120 mortos no Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Ao chegar ao local, por volta das 10h, uma multidão se reunia na praça São Lucas, onde carros chegavam a todo momento trazendo corpos encontrados na parte alta do morro, na mata. Ao me aproximar, me deparei com uma mãe ajoelhada em frente a um dos corpos, chorando pela morte do filho que acabara de ser encontrado. Não demorou muito para que um carro do Corpo de Bombeiros chegasse e levasse os corpos que estavam enfileirados no local.
Encontrei alguns moradores que se preparavam para subir até a pedreira, conhecida como mata da Vacaria, em busca de mais desaparecidos. Eles me convidaram para acompanhá-los, e eu fui. Perto da subida, pediram que não fizéssemos imagens, pois havia um grupo de homens armados em uma das ruas que dá acesso ao local.
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Chegando lá, durante as buscas, alguns moradores que eu acompanhava encontraram uma camisa do Flamengo com marca de tiro e um boné, além de algumas cápsulas de fuzil no chão. O grupo que eu segui não encontrou corpos. A busca durou quase duas horas, e todos desceram.
De volta à praça São Lucas, pedi que um mototaxista me levasse até as casas que foram alvejadas durante a operação. Ele me levou novamente à parte alta do morro e parou em frente a um beco. Foi então que me informou que eu precisaria pedir “autorização pros caras” para fazer qualquer imagem. Me aproximei do grupo, que estava armado e vendendo drogas, me apresentei como repórter e expliquei que queria fotografar as casas atingidas por tiros. Eles permitiram e me deixaram passar.
Poucos metros à frente, vi muitas casas com marcas de tiro e comecei a fotografá-las. Durante o percurso, conversei com dois moradores que concordaram em se identificar e dar seu depoimento sobre como foi o momento da operação.
Jessica Rodrigues, uma das entrevistadas, contou que estava em casa com a filha pequena e teve que se abrigar, deitada com ela em um banheiro no segundo andar. Ela disse que o espaço oferecia menos riscos, já que o barulho das balas no primeiro andar da casa era muito alto. Jessica me mostrou que o relógio de energia elétrica foi atingido e, até aquele momento, a casa estava sem luz. “Foi a manhã mais demorada da minha vida”, relatou.
Um dos vizinhos, Luiz Carlos Brás, também estava em casa com a família no momento do tiroteio e buscou abrigo no banheiro do imóvel, com a esposa e seus três filhos pequenos. Ele conta que ouviu o latido da sua cachorra, Pandora, mas quando correu para o quintal, a cadela já estava sem vida, sangrando após ser atingida por uma bala perdida. Uma bala também entrou na casa de Luiz, se alojando na parede da sala de estar e deixando uma grande marca, como ele mostra no vídeo.
Após fotografar outras casas danificadas por tiros, uma senhora me chamou e pediu que fotografasse a casa dela, que tinha marcas nas paredes da sala e nos dois quartos. Ela pediu para não ser identificada e disse que pretendia se mudar para Magé depois do ocorrido.
Saí da casa e fiz algumas imagens da grade de um bueiro de rua. Abaixo da grade, era possível ver projéteis de balas. Enquanto caminhava para sair do beco, uma criança de cerca de dez anos correu atrás de mim para mostrar o que havia achado. Ele estendeu a mão, exibindo sete cápsulas de fuzil. Fiquei surpresa ao ver o menino segurando as cápsulas como se fossem um brinquedo encontrado na rua. Quando perguntei o que ele faria com aquilo, ele respondeu: “Acho que vou jogar fora. Não serve para nada.” Me despedi dele e saí do beco para deixar a comunidade.