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Desigualdade e política de confronto seguirão gerando traumas nas favelas

O combate ao crime precisa existir, sim. Mas ele precisa ser inteligente, proporcional e humano. O que se vê hoje é uma política de confronto que não reduz a criminalidade, apenas renova o trauma coletivo
Ativistas e moradores participam de um protesto no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, Brasil, em 31 de outubro de 2025, para exigir justiça para as vítimas da Operação Contenção, que deixou 121 mortos, incluindo quatro policiais.

Ativistas e moradores participam de um protesto no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, Brasil, em 31 de outubro de 2025, para exigir justiça para as vítimas da Operação Contenção, que deixou 121 mortos, incluindo quatro policiais.

— Pablo Porciuncula/AFP

9 de novembro de 2025

A cada nova operação policial nas favelas do Rio de Janeiro, o Brasil revive o mesmo ciclo: manchetes com números de mortos, discursos de “combate ao tráfico” e uma comoção que dura pouco. Dias depois, tudo volta ao normal, menos para quem perdeu um filho, um vizinho, um futuro. A recente Operação Contenção, que deixou 121 mortos e expôs novamente o cenário de guerra em comunidades do Complexo do Alemão e da Penha, escancara uma verdade incômoda: o Estado entra armado, mas não entra com política pública.

Nas favelas, não há apenas criminosos. Há trabalhadores, mães solo, crianças indo para a escola, artistas, empreendedores, estudantes universitários, gente que sonha em viver com dignidade. É justamente essa maioria silenciosa que paga o preço de uma política de segurança que enxerga o território como inimigo e o morador como suspeito. Quando a bala é “perdida”, a vida que se perde quase nunca é a de quem está armado.

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As operações são anunciadas como “necessárias” e “cirúrgicas”, mas quase sempre resultam em massacres desproporcionais. As estatísticas oficiais, sem investigações profundas, tratam todos os mortos como criminosos, apagando histórias e desumanizando famílias. É como se, ao cruzar a linha invisível que separa o asfalto do morro, os direitos humanos deixassem de valer.

Mas a favela não é ausência de lei, é ausência de Estado. É onde falta saneamento, transporte, escola, hospital, emprego e presença institucional que não chegue com fuzil. Enquanto o poder público tratar a favela apenas como um problema de segurança e não como parte integrante da cidade, o resultado será sempre o mesmo: corpos no chão, medo nas janelas e desconfiança nas ruas.

O combate ao crime precisa existir, sim. Mas ele precisa ser inteligente, proporcional e humano. O que se vê hoje é uma política de confronto que não reduz a criminalidade, apenas renova o trauma coletivo. As mães de jovens assassinados sabem bem disso: elas não choram bandidos, choram filhos.

O verdadeiro inimigo da favela não é o morador, é a desigualdade. Enquanto o Estado insistir em combater pobreza com violência, não haverá paz, haverá silêncio. E silêncio não é sinônimo de segurança.

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Felipe Ruffino

    Felipe Ruffino é jornalista, pós-graduado em Assessoria de Imprensa e Gestão da Comunicação, possui a agência Ruffino Assessoria e ativista racial, onde aborda pautas relacionada à comunidade negra em suas redes sociais @ruffinoficial.

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