A cada nova operação policial nas favelas do Rio de Janeiro, o Brasil revive o mesmo ciclo: manchetes com números de mortos, discursos de “combate ao tráfico” e uma comoção que dura pouco. Dias depois, tudo volta ao normal, menos para quem perdeu um filho, um vizinho, um futuro. A recente Operação Contenção, que deixou 121 mortos e expôs novamente o cenário de guerra em comunidades do Complexo do Alemão e da Penha, escancara uma verdade incômoda: o Estado entra armado, mas não entra com política pública.
Nas favelas, não há apenas criminosos. Há trabalhadores, mães solo, crianças indo para a escola, artistas, empreendedores, estudantes universitários, gente que sonha em viver com dignidade. É justamente essa maioria silenciosa que paga o preço de uma política de segurança que enxerga o território como inimigo e o morador como suspeito. Quando a bala é “perdida”, a vida que se perde quase nunca é a de quem está armado.
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
As operações são anunciadas como “necessárias” e “cirúrgicas”, mas quase sempre resultam em massacres desproporcionais. As estatísticas oficiais, sem investigações profundas, tratam todos os mortos como criminosos, apagando histórias e desumanizando famílias. É como se, ao cruzar a linha invisível que separa o asfalto do morro, os direitos humanos deixassem de valer.
Mas a favela não é ausência de lei, é ausência de Estado. É onde falta saneamento, transporte, escola, hospital, emprego e presença institucional que não chegue com fuzil. Enquanto o poder público tratar a favela apenas como um problema de segurança e não como parte integrante da cidade, o resultado será sempre o mesmo: corpos no chão, medo nas janelas e desconfiança nas ruas.
O combate ao crime precisa existir, sim. Mas ele precisa ser inteligente, proporcional e humano. O que se vê hoje é uma política de confronto que não reduz a criminalidade, apenas renova o trauma coletivo. As mães de jovens assassinados sabem bem disso: elas não choram bandidos, choram filhos.
O verdadeiro inimigo da favela não é o morador, é a desigualdade. Enquanto o Estado insistir em combater pobreza com violência, não haverá paz, haverá silêncio. E silêncio não é sinônimo de segurança.