Silencia e desestrutura: os danos do racismo na linguagem de crianças negras

Fonoaudióloga alerta que racismo na infância atua como estressor crônico, comprometendo memória, atenção e autorregulação essenciais para a aquisição da linguagem
Duas crianças brincando com ursos de pelúcia.

Duas crianças brincando com ursos de pelúcia.

— Reprodução/Freepik

22 de novembro de 2025

A linguagem, a fala e a escuta são as ferramentas primárias com as quais construímos nosso pensamento e interagimos com o mundo. No entanto, para muitas crianças negras, esse processo é atravessado por um obstáculo cruel e doloroso — o racismo.

Muitas delas têm suas vozes silenciadas, palavras distorcidas e pensamentos sufocados por um preconceito que se manifesta de forma brutal. O racismo não apenas cala, como também desestrutura, tornando a comunicação uma luta constante contra a invisibilidade e o apagamento.

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Comentários depreciativos, olhares que desmerecem ou a exclusão sutil em ambientes como a escola, a vizinhança ou mesmo em casa causam impactos que minam a autoestima e restringem o acesso a estímulos linguísticos positivos.

Essas vivências precoces com o preconceito podem limitar interações, prejudicando o desenvolvimento de habilidades de comunicação que são essenciais para essa fase da vida.

Estudos mostram que o racismo estrutural influencia a forma como professores, profissionais de saúde e até familiares enxergam e interagem com as crianças negras. Em vez de terem seu potencial reconhecido, muitas delas são rotuladas por estereótipos que prejudicam o desenvolvimento emocional e comunicacional.

A ciência já comprova essa realidade. Um estudo do Center on Developing Child da Universidade de Harvard explica que o estresse crônico causado pela discriminação diária ativa uma resposta de desgaste no organismo, afetando o desenvolvimento cerebral e outros sistemas biológicos.

As consequências, segundo a pesquisa, são alarmantes e se estendem por toda a vida, incluindo problemas de saúde, dificuldades de aprendizado e impactos na saúde mental e física.

Essa discriminação se manifesta em diversas esferas, desde o acesso desigual à educação e à saúde de qualidade até a falta de oportunidades econômicas. A saúde mental dos pais e cuidadores também é afetada pelo estresse da discriminação, impactando a forma como cuidam e interagem com seus filhos.

O elo entre racismo e desenvolvimento da linguagem

A linguagem é constituída nas interações sociais e afetivas, segundo a fonoaudióloga Nayara Abreu, doutoranda em Ciências Fonoaudiológicas e integrante da Comissão Permanente de Enfrentamento ao Racismo da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Para a especialista, quando uma criança negra vivencia o racismo precocemente, seja por exclusão, rejeição ou desvalorização de sua fala, ela pode desenvolver um sentimento de insegurança.

De acordo com a doutoranda, esse processo afeta a qualidade das interações comunicativas, cruciais para a aquisição da linguagem. Ela ressalta que o racismo age como um estressor crônico, impactando funções essenciais para a comunicação, como memória, atenção e autorregulação.

Abreu pontua que barreiras estruturais, como a redução do acesso a serviços e recursos especializados, como terapias e a Comunicação Alternativa e Aumentativa (CAA) para crianças autistas, acabam ampliando as desigualdades no desenvolvimento linguístico.

Duas crianças brincando.
Foto: Reprodução/Freepik

Racismo estrutural e atrasos no diagnóstico em crianças negras

A especialista afirma que pesquisas já comprovam a relação entre racismo e atrasos no desenvolvimento da linguagem em crianças negras. “O racismo não é apenas uma questão social ou cultural, mas também um fator determinante que afeta diretamente o acesso a diagnósticos, tratamentos e estímulos linguísticos de qualidade”, explica.

Abreu cita o acesso desigual a recursos de comunicação, com estudos indicando que crianças negras com deficiências de desenvolvimento têm menos acesso à CAA do que crianças brancas com necessidades semelhantes. Para Abreu, esse dado mostra “como o racismo estrutural se manifesta dentro dos serviços terapêuticos”

Outro ponto destacado é o diagnóstico tardio. Pesquisas mostram que crianças negras têm menos chance de receber avaliação precoce e encaminhamento adequado, mesmo com desempenhos equivalentes aos de crianças brancas. “O viés institucional retarda a chegada dessas crianças ao tratamento, comprometendo ainda mais seu processo de aprendizagem”, analisa.

A fonoaudióloga lembra ainda que as ciências da comunicação frequentemente ignoram os efeitos de raça, poder e privilégio, o que leva à patologização de variações legítimas da fala de crianças negras.  “Quando não se reconhece a diversidade linguística como parte da identidade cultural, o que é variação passa a ser tratado como erro, e isso reforça desigualdades”, completa.

Linguagem racializada e a autoestima em risco

Nayara também chama atenção para o conceito de “linguagem racializada”. Pesquisas revelam que repertórios linguísticos de crianças negras são frequentemente desvalorizados por professores e profissionais, afetando a autoestima e desempenho escolar.

“Quando a forma de falar de uma criança é vista como inferior ou incorreta, não estamos apenas julgando sua linguagem, mas também sua identidade”, resume. Para a especialista, compreender o racismo como um determinante social é fundamental.

“Para promover equidade, precisamos reconhecer que o racismo atravessa o desenvolvimento da linguagem em todas as suas dimensões — do acesso a políticas públicas até a valorização da cultura e da identidade da criança negra”, enfatiza.

Sinais para educadores e famílias observarem

Os efeitos do racismo na comunicação infantil podem ser percebidos por educadores e familiares por meio de comportamentos específicos, explica Nayara Abreu. 

“Os sinais não aparecem de forma única, mas se manifestam em mudanças sutis ou mais visíveis no modo como a criança se relaciona com a fala e com os outros”, destaca. 

Entre os sinais estão o retraimento, a recusa em falar em público, a vergonha do próprio nome, cabelo ou forma de falar, além da autodepreciação e da queda no desempenho escolar. Nayara observa que, em sala de aula, muitas crianças negras deixam de participar das rodas de conversa e preferem se calar.

Esses impactos podem aparecer em respostas monossilábicas, na diminuição da iniciativa de fala, no choro diante de apresentações ou em mudanças significativas no engajamento comunicativo. 

A fonoaudióloga lembra que a fala de crianças negras muitas vezes é interpretada de maneira equivocada, sendo vista como mais agressiva ou menos competente.

“Esse fenômeno é chamado de escuta racializada e mostra como o preconceito atravessa até a forma como a linguagem dessas crianças é recebida”, explica. Ela ressalta que esses sinais precisam ser analisados no contexto das experiências de racismo vividas pela criança, e não de maneira isolada.

Criança rabiscando em um papel.
Foto: Reprodução/Freepik

Medidas para promover um desenvolvimento equitativo

A fonoaudióloga ressalta que escolas, creches e famílias têm um papel decisivo na promoção de um desenvolvimento da linguagem mais equitativa para crianças negras. 

“Não basta esperar que a criança se adapte a ambientes já marcados por desigualdades; é preciso transformar esses espaços para que sejam de fato afirmativos e inclusivos”, destaca. 

No ambiente escolar, de acordo com Abreu, algumas medidas práticas podem fazer a diferença, como incluir autores negros no currículo, promover rodas de conversa em que os turnos de fala sejam distribuídos de forma justa e registrar episódios de racismo. 

Para a doutoranda, nas famílias, práticas simples como a leitura compartilhada diária, a validação da forma de falar da criança e o incentivo à expressão de emoções ajudam a construir segurança comunicativa. Além disso, lembra que é fundamental observar mudanças de comportamento após situações de discriminação e dialogar com a escola.

A especialista defende ainda que as universidades devem assumir responsabilidade nesse processo. “É na formação superior que se constrói o repertório crítico e ético dos futuros profissionais, e a academia precisa incluir debates sobre racismo estrutural, linguagem e práticas clínicas antirracistas”, finaliza.

Este conteúdo faz parte de uma parceria com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal para a produção de reportagens sobre a primeira infância.

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  • Formado em Jornalismo e licenciado em Letras-Português, morador da periferia de Maceió (AL) e pós-graduado em jornalismo investigativo pelo IDP. Com experiência em revisão, edição, reportagem, primeira infância e jornalismo independente. Tem trabalhos publicados no UOL (TAB, VivaBem, ECOA e UOL Notícias), Agência Pública, Ponte Jornalismo, Estadão e Yahoo.

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