PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Apenas 183 de 2,5 mil policiais usaram câmeras corporais em operação nas favelas do Rio

Novo documento da Comissão Interamericana de Direitos Humanos aponta que a ação não foi eficiente no combate estrutural ao crime organizado e reforçou o sofrimento dos moradores
A imagem mostra dois policiais e uma escavadeira.

A imagem mostra dois policiais e uma escavadeira.

— Pablo Porciúncula/AFP

6 de março de 2026

Um relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), publicado nesta sexta-feira (6), revela que apenas 183 dos 2,5 mil policiais destacados para a Operação Contenção, nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, utilizaram câmeras corporais.

A ação foi deflagrada no dia 28 de outubro de 2025 e resultou em 122 mortes, tornando-se a maior chacina policial da história do país. Entre os relatos de testemunhas, acumulam-se denúncias de execuções, roubos e impedimentos ao reconhecimento dos corpos das vítimas. O caso gerou grande repercussão e motivou a intervenção de órgãos como o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), o Supremo Tribunal Federal (STF) e a Organização das Nações Unidas (ONU). À época, imagens registraram familiares tentando reconhecer seus parentes em meio a uma fila de corpos na rua.

Quer receber nossa newsletter?

Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!

O relatório da CIDH condena a operação e destaca que a experiência vivenciada pelas famílias foi desumanizadora e revitimizadora, com resultado previsível. Para o órgão, a diferença expressiva entre o número de mortos e feridos sugere um contexto de assimetria de força, o que não condiz com um cenário comum de confronto armado.

A ação não foi eficiente no combate estrutural ao crime organizado e reforçou o sofrimento comunitário, aponta o documento. Além de aprofundar a desconfiança institucional, a atuação policial “elevou o padrão histórico de violência estatal a novo patamar”.

“Seu planejamento, execução e resultados refletem uma lógica que privilegiou a eliminação física em detrimento da proteção da vida, mesmo em contexto previsível de elevado risco para a população civil”, diz trecho da publicação.

A Comissão ainda destaca que o uso político de autoridades do Poder Executivo estadual, chefiado pelo governador Cláudio Castro, apresentou o resultado da operação como uma resposta firme ao crime organizado. A prática, explica o relatório, normaliza a morte como instrumento da segurança pública, lógica conhecida como necropolítica. 

“Apenas uma mudança profunda, que substitua a necropolítica por políticas de inclusão, prevenção e justiça eficaz, permitirá romper o ciclo histórico de morte, encarceramento e impunidade que marca a experiência de favelas e periferias urbanas no Brasil”.

Ao final do relatório, a organização recomenda que o Estado brasileiro reoriente as políticas de segurança pública para um modelo que priorize a prevenção da violência e a ampliação de políticas públicas nos territórios marginalizados.=, defendendo o abandono de operações policiais de confronto e alto potencial letal. 

O texto também propõe o alinhamento dos protocolos das forças policiais aos padrões internacionais de direitos humanos, com a implementação de critérios rigorosos para o uso da força, a priorização de armas não letais e a eliminação de práticas de perfilamento e discriminação racial.

A entidade sugere mudanças institucionais para garantir investigações independentes em casos de violência policial, incluindo autonomia dos órgãos periciais, fortalecimento do controle externo exercido pelo Ministério Público e possibilidade de federalização automática de apurações envolvendo chacinas.

Apoie jornalismo preto e livre!

O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de financiamento coletivo.

Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor.

O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

  • Verônica Serpa

    Formada em Jornalismo pela UNESP e caiçara do litoral norte de SP. Acredito na comunicação como forma de emancipação para populações tradicionais e marginalizadas. Apaixonada por fotografia, gastronomia e hip-hop.

Leia mais

PUBLICIDADE

Destaques

Cotidiano