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‘A lei do silêncio prevalece’: as marcas deixadas pela chacina no Complexo da Penha

A jornalista Augusta Lunardi volta à Vila Cruzeiro para investigar o impacto da chacina policial que deixou um rastro de medo que vai além do número de mortos
Paredes cravejadas de bala no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro

Paredes cravejadas de bala no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro

— Julia Sena/Alma Preta

31 de outubro de 2025

Esta não é uma reportagem comum. Você, leitor, vai perceber que não citarei nomes neste texto. Não haverá entrevistas, como costumamos dizer no jornalismo, “em on” ou “em off”.

Voltei à Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha, zona norte do Rio de Janeiro, dois dias depois das cenas de horror que chocaram o país — a maior chacina policial da história do Brasil.

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A chamada “Operação Contenção” — e coloco entre aspas porque tenho minhas dúvidas se algo que deixou ao menos 120 mortos (incluindo quatro policiais) e três civis feridos pode ser classificado como uma operação policial — foi comandada pelo governador Cláudio Castro (PL-RJ) e contou com a mobilização da Polícia Militar, da Polícia Civil, da Secretaria de Administração Penitenciária (SEAP) e, estranhamente, até do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, via o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO).

Uma operação, afinal, pressupõe estratégia e inteligência tática — e o objetivo de causar o menor número possível de danos colaterais.

Antes de chegar ao local, imaginei que seria fácil ouvir relatos da população. Passei a tarde tentando entrevistar os moradores da Vila Cruzeiro para entender, para além da chacina e das imagens brutais que testemunhei, como a “operação” impactou o cotidiano da comunidade. Mas, depois de horas tentando, desisti de gravar qualquer coisa. Ninguém quis falar — nem em vídeo, nem em áudio, nem por mensagem.

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Em conversas mais espontâneas, os moradores me contaram que aqueles poucos que apareceram na imprensa mostrando o rosto e dizendo o nome vêm sofrendo ameaças de morte, enviadas por perfis falsos nas redes sociais.

Dois dias após o massacre, o clima ainda é de tensão. A maioria dos comércios permanece fechada, sem energia elétrica. Uma vendedora de açaí me contou que perdeu todos os produtos — tudo descongelou. O dono de um mini mercado relatou o mesmo: prejuízo com produtos estragados e dois dias de portas fechadas, como quase todos os comerciantes da região.

As unidades de saúde continuam sem funcionar. O mesmo acontece com creches e escolas. Ouvi de uma menina de oito anos: “eu deveria estar na escola, mas a polícia não deixou”.

Um morador me mostrou um copo plástico cheio de cápsulas — cerca de vinte balas de fuzil recolhidas do chão no dia anterior. Perguntei se podia tirar uma foto. Ele respondeu, assustado: “de jeito nenhum”. Aos poucos, fui entendendo: o medo de represálias da polícia calou a comunidade.

Depois de algumas horas, desanimada com a pauta que não saiu como eu esperava, peguei um mototáxi para ir embora. No caminho, puxei conversa com o piloto — que também preferiu não se identificar. Foi ele quem resumiu da melhor forma o clima atual na Vila Cruzeiro: “Depois de uma operação, a lei do silêncio prevalece.”

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  • Augusta Lunardi

    Jornalista formada pela Universidade Paris 8 e mestre em Jornalismo Audiovisual no Centro de Formação de Jornalistas, em Paris. Trabalhou por dois anos em Paris como videorrepórter para os canais franceses Cnews e France 24. No Rio de Janeiro, trabalhou como freelancer para produtoras francesas realizando reportagens sobre política, meio-ambiente, direitos humanos e temas sociais. Esteve na linha de frente da cobertura da pandemia de COVID-19 trabalhando como freelancer para canais franceses. Mais recentemente, participou como videorrepórter temporada 2021 do Profissão Repórter, da TV Globo. Atualmente, é repórter e videorrepórter para veículos brasileiros e franceses.

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