Entre o cheiro de dendê, o som do atabaque e o samba nascido no chão de terra dos terreiros das religiões de matrizes africanas, o espetáculo infantojuvenil musicado “Fala, Ìbejì” estreia temporada em Salvador levando arte, fé e brincadeira para as ruas da cidade.
Uma realização da COOXIA Coletivo Teatral com produção da DAGENTE Produções, o espetáculo circula por praças públicas de Salvador entre os dias 27 de março e 12 de abril.
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Integrando o projeto “Dupla de Dois: experimento gastronômico-performativo para as infâncias”, a montagem será apresentada gratuitamente na Ribeira, em Cajazeiras, no Subúrbio Ferroviário e no Centro Histórico de Salvador, reafirmando o teatro de rua como gesto de encontro e celebração coletiva.
Com direção de Guilherme Hunder e dramaturgia de Luiz Antônio Sena Jr., a obra dá continuidade a uma pesquisa cênica afrocentrada de ambos dedicada às infâncias, à tradição oral e às pedagogias do terreiro.
A montagem costura elementos do Candomblé, da cultura popular nordestina e das festas de Cosme e Damião, abordando também o sincretismo religioso como estratégia histórica de resistência. A encenação incorpora a LIBRAS como parte da própria cena, integradas à performance do elenco, formado por Anderson Danttas, Ane Ventura, Fernanda Silva, Gabriel Nafisi e Larissa Libório.
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Mito ancestral, favela contemporânea
A dramaturgia é livremente inspirada em itans da tradição iorubá, especialmente em narrativas que giram em torno dos Ìbejì, os orixás gêmeos. A história os desloca para o contexto de um terreiro situado em uma comunidade periférica, onde fé, arte e resistência caminham lado a lado. A trama se desenvolve na casa de Mãe Mainha, uma matriarca respeitada, enquanto todos se preparam para o caruru em homenagem aos gêmeos.
No entanto, a chegada da Morte, chamada apenas de “Ela”, pois seu nome não deve ser pronunciado, ameaça interromper a celebração e silenciar a festa. Assim, entre cantos, memórias e rituais, a comunidade se vê diante do desafio de proteger a vida, a alegria e a ancestralidade que o caruru celebra.
Entre risadas e mistérios, a meninada — Menino, Menina, Guri e Erê — percebe que será preciso coragem, união e muita brincadeira para enfrentá-la. Afinal, “essa danada não pode estragar a festa!”.
As crianças com a ajuda de Mãe Mainha lançam o desafio: ela só poderá ficar no Caruru se conseguir dançar até o tambor parar — o que nunca acontece, já que os irmãos se revezam na batida e, por serem gêmeos, não percebe que está sendo enganada.
No espetáculo, a relação com a Morte é um subterfúgio para falar sobretudo a respeito de tradição, memória e continuidade. “Nosso maior interesse é abordar a tradição do caruru, que vem se perdendo entre as crianças, exaltando as tradições da afrodiáspora que constituem nossa cultura, e falar sobre a morte, que ainda é um tema tabu na infância”, revela Luiz Antônio Sena Jr.
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Teatro de rua como território de pertencimento
Concebido desde o início como um espetáculo de rua, “Fala, Ìbejì” adota uma estrutura que privilegia o diálogo direto com o público e um espaço cênico não frontal. A encenação valoriza a circularidade característica das matrizes afro-diaspóricas, aproximando intérpretes e espectadores e transformando a plateia em parte ativa da experiência.
Ao longo da apresentação, o público é convidado a participar: canta, responde a enigmas, bate palmas e se envolve na brincadeira ritual que ajuda a colocar a Morte para dançar.
Toda a visualidade do espetáculo – cenário e figurino – tem como referência simbólica as feiras populares, berços de cultura viva. O terreiro é casa, quintal e salão de memórias ancestrais. A cenografia concebida por Erick Saboya soma-se aos acessórios de cena concebidos por Elis Brito e aos figurinos concebidos pelo diretor, Guilherme Hunder.
Caixotes plásticos de feira, panelas e bacias de ferro, sacolas de palhas e utensílios domésticos, são alguns dos elementos. Os figurinos dialogam com sacos de feira, quiabos e tecidos coloridos, mesclando tradição e urbanidade numa paleta que une os tons do dendê às cores vibrantes da cidade.
Serviço
Confira os locais, as datas e os horários das apresentações:
Ribeira
Largo do Papagaio
27 de março (sexta-feira), às 15h
28 de março (sábado), às 16h
Cajazeiras
Campo da Pronaica
30 e 31 de março (segunda e terça-feira), às 15h
Subúrbio Ferroviário – Plataforma
Praça São Brás
1 de abril (quarta-feira), às 15h
2 de abril (quinta-feira), às 16h
Centro Histórico
Largo do Campo Grande (Praça Dois de Julho)
4 e 12 de abril
(quintas e sextas, às 15h | sábados e domingos, às 16h)