Espetáculo infantojuvenil ‘Fala, Ìbejì’ ocupa praças de Salvador

Com apresentações entre março e abril, a montagem costura elementos do Candomblé, da cultura popular nordestina e das festas de Cosme e Damião
Elenco do espetáculo "Fala, Ìbejì".

Elenco do espetáculo "Fala, Ìbejì".

— Isabela Bugmann

21 de março de 2026

Entre o cheiro de dendê, o som do atabaque e o samba nascido no chão de terra dos terreiros das religiões de matrizes africanas, o espetáculo infantojuvenil musicado “Fala, Ìbejì” estreia temporada em Salvador levando arte, fé e brincadeira para as ruas da cidade.

Uma realização da COOXIA Coletivo Teatral com produção da DAGENTE Produções, o espetáculo circula por praças públicas de Salvador entre os dias 27 de março e 12 de abril.

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Integrando o projeto “Dupla de Dois: experimento gastronômico-performativo para as infâncias”, a montagem será apresentada gratuitamente na Ribeira, em Cajazeiras, no Subúrbio Ferroviário e no Centro Histórico de Salvador, reafirmando o teatro de rua como gesto de encontro e celebração coletiva.

Com direção de Guilherme Hunder e dramaturgia de Luiz Antônio Sena Jr., a obra dá continuidade a uma pesquisa cênica afrocentrada de ambos dedicada às infâncias, à tradição oral e às pedagogias do terreiro.

A montagem costura elementos do Candomblé, da cultura popular nordestina e das festas de Cosme e Damião, abordando também o sincretismo religioso como estratégia histórica de resistência. A encenação incorpora a LIBRAS como parte da própria cena, integradas à performance do elenco, formado por Anderson Danttas, Ane Ventura, Fernanda Silva, Gabriel Nafisi e Larissa Libório.

Leia mais: Saravá a Ibeijada: os ancestrais do futuro manifestados no terreiro de umbanda

Mito ancestral, favela contemporânea

A dramaturgia é livremente inspirada em itans da tradição iorubá, especialmente em narrativas que giram em torno dos Ìbejì, os orixás gêmeos. A história os desloca para o contexto de um terreiro situado em uma comunidade periférica, onde fé, arte e resistência caminham lado a lado. A trama se desenvolve na casa de Mãe Mainha, uma matriarca respeitada, enquanto todos se preparam para o caruru em homenagem aos gêmeos.

No entanto, a chegada da Morte, chamada apenas de “Ela”, pois seu nome não deve ser pronunciado, ameaça interromper a celebração e silenciar a festa. Assim, entre cantos, memórias e rituais, a comunidade se vê diante do desafio de proteger a vida, a alegria e a ancestralidade que o caruru celebra.

Entre risadas e mistérios, a meninada — Menino, Menina, Guri e Erê — percebe que será preciso coragem, união e muita brincadeira para enfrentá-la. Afinal, “essa danada não pode estragar a festa!”.

As crianças com a ajuda de Mãe Mainha lançam o desafio: ela só poderá ficar no Caruru se conseguir dançar até o tambor parar — o que nunca acontece, já que os irmãos se revezam na batida e, por serem gêmeos, não percebe que está sendo enganada. 

No espetáculo, a relação com a Morte é um subterfúgio para falar sobretudo a respeito de tradição, memória e continuidade. “Nosso maior interesse é abordar a tradição do caruru, que vem se perdendo entre as crianças, exaltando as tradições da afrodiáspora que constituem nossa cultura, e falar sobre a morte, que ainda é um tema tabu na infância”, revela Luiz Antônio Sena Jr.

Leia mais: Dia dos Ibejis: conheça o orixá das crianças

Teatro de rua como território de pertencimento

Concebido desde o início como um espetáculo de rua, “Fala, Ìbejì” adota uma estrutura que privilegia o diálogo direto com o público e um espaço cênico não frontal. A encenação valoriza a circularidade característica das matrizes afro-diaspóricas, aproximando intérpretes e espectadores e transformando a plateia em parte ativa da experiência.

Ao longo da apresentação, o público é convidado a participar: canta, responde a enigmas, bate palmas e se envolve na brincadeira ritual que ajuda a colocar a Morte para dançar.

Toda a visualidade do espetáculo – cenário e figurino – tem como referência simbólica as feiras populares, berços de cultura viva. O terreiro é casa, quintal e salão de memórias ancestrais. A cenografia concebida por Erick Saboya soma-se  aos  acessórios de cena concebidos por Elis Brito e aos figurinos concebidos pelo diretor, Guilherme Hunder.

Caixotes plásticos de feira, panelas e bacias de ferro, sacolas de palhas e utensílios domésticos, são alguns dos elementos. Os figurinos dialogam com sacos de feira, quiabos e tecidos coloridos, mesclando tradição e urbanidade numa paleta que une os tons do dendê às cores vibrantes da cidade.

Serviço

Confira os locais, as datas e os horários das apresentações:

Ribeira
Largo do Papagaio
27 de março (sexta-feira), às 15h
28 de março (sábado), às 16h

Cajazeiras
Campo da Pronaica
30 e 31 de março (segunda e terça-feira), às 15h

Subúrbio Ferroviário – Plataforma
 Praça São Brás
1 de abril (quarta-feira), às 15h
2 de abril (quinta-feira), às 16h

Centro Histórico
Largo do Campo Grande (Praça Dois de Julho)
4 e 12 de abril
(quintas e sextas, às 15h | sábados e domingos, às 16h)

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