No dia 11 de abril, às 13h30, na Livraria Aluá, em Belo Horizonte (MG), será lançado “Dinari”, segundo livro infantil da atriz, escritora e psicóloga em formação Éle Fernandes. A obra, que conta com ilustrações de Suzane Lopes, é um convite sensível ao encontro entre a infância e a memória ancestral.
A entrada é gratuita e haverá bate-papo e contação de histórias com a autora. Após o lançamento, o livro também poderá ser adquirido através da loja virtual da Associação Artes Sapas.
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De acordo com dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil 2024 (Instituto Pró-Livro/IPEC), apenas 47% da população brasileira acima de cinco anos pode ser considerada leitora — o menor índice desde 2007.
Diante deste cenário, e em um país onde 56,3% da população é negra, segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), “Dinari” surge como um manifesto poético sobre a importância da representatividade.
O livro oferece às crianças negras a chance de se verem refletidas não pela lente da dor, mas pela potência, beleza e pertencimento, uma forma de perpetuar uma literatura onde corpos negros apareçam de forma segura, honesta e afetuosa.
“Acredito muito na importância de que essas crianças possam se reconhecer nas histórias que leem. Que possam se encontrar nas páginas dos livros, sentir-se representadas, ver refletidas suas belezas, suas ancestralidades e suas potências. Isso significa também acessar narrativas que falem de nós para além da dor, histórias que celebrem nossa existência, nossa imaginação, nossa relação com a natureza, com o universo, com as grandezas e as pequenezas do mundo. Se o livro puder abrir esse espaço para os pequenos leitores e leitoras, então ele já estará contribuindo muito”, comenta a autora.
Na obra, Éle resgata memórias de uma praça de tijolinhos de sua infância, em Betim, região metropolitana de Belo Horizonte, para narrar um encontro ancestral e afetuoso sob a sombra de uma árvore.
“Dinari nasceu de um sonho, mas também das minhas lembranças de infância. Eu cresci em um bairro onde havia uma pequena praça feita de pequenos tijolinhos. Um dia eu sonhei com essa praça e com uma senhora ancestral, uma mulher negra, sentada debaixo de uma árvore. Alguns meses depois, vi novamente aquela praça e fiquei completamente encantada ao perceber que ela já não era tão grande quanto parecia na minha infância, mas também não era tão pequena assim. Foi então que comecei a escrever Dinari, nessa brincadeira entre a pequenez e a grandeza, entre a miudeza das coisas e a força dos elementos da natureza” revela a autora.
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Diálogo entre gerações
Para Éle, o diferencial do livro está no encontro entre a infância e o envelhecer — dois momentos da vida cujas vozes ainda são frequentemente invalidadas.
Ainda de acordo com ela, a narrativa poética valoriza tanto a potência da criança quanto a sabedoria do idoso, aproximando gerações que, apesar de estarem em extremos cronológicos, compartilham o direito de existir, falar, imaginar e, principalmente, ser respeitadas como sujeitos.
A relação da escritora com a leitura teve início justamente na infância, incentivada por sua irmã mais velha, que ajudava os irmãos menores a aprenderem a ler. Mais tarde, as atividades da biblioteca escolar ampliaram seu interesse pela escrita:
“Eu me lembro da gente sentado em volta de uma mesa que tínhamos em casa, enquanto minha irmã pegava os livros, lia e pedia para que a gente repetisse as palavras. Foi ali que comecei a me interessar pela leitura. Lembro que na escola havia um incentivo em que, se a gente lesse uma certa quantidade de livros, poderia ir à Bienal do Livro com a escola. Consegui ir algumas vezes durante o ensino fundamental, e essas experiências foram muito marcantes para mim”, comenta a escritora.
Segundo ela, a convivência com as mulheres que atravessaram sua vida tornou-se o pilar de inspiração para a escrita.
“Venho de uma família com muitas mulheres negras, para mim referências de força, cuidado e existência no mundo. Minha escrita nasce muito dessa convivência. Cresci em um ambiente de comunidade, com as mulheres da família muito próximas, ajudando a cuidar umas das outras e das crianças. Essa rede de afeto e de presença é uma base muito forte da minha forma de olhar para o mundo e essa força atravessa a minha escrita e a narrativa de Dinari”, pontua.
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A leitura como aliada das infâncias
Para Éle Fernandes, o ato de ler é um gesto de resistência e presença em um mundo saturado de estímulos digitais.
“Recentemente ouvi de uma amiga algo que me marcou muito: ler é estar no presente. E eu acredito profundamente nisso. A leitura nos convida a desacelerar e a acessar esse estado de presença. Quando falamos de literatura infantil e da leitura nas infâncias, estamos falando também da formação de novos leitores e leitoras. E formar leitores é, de certa forma, ajudar a construir futuros mais críticos, sensíveis e imaginativos.”
Além do livro físico, o projeto inclui um audiolivro com audiodescrição e tradução em Libras. A autora passou por uma mentoria em Cultura do Acesso para garantir que a obra fosse inclusiva.
O impacto social se estende com a distribuição de 300 exemplares para escolas e bibliotecas públicas de Belo Horizonte e região metropolitana.