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Nova ministra da Igualdade Racial promete continuidade no combate a retrocessos

Em entrevista exclusiva à Alma Preta, Rachel Barros defende transversalidade da pauta racial, detalha ações para quilombolas e afirma que "igualdade racial é o alicerce da democracia"
A ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros.

A ministra da Igualdade Racial, Rachel Barros.

— Bruno Fernandes/MIR

8 de abril de 2026

A socióloga Rachel Barros assumiu no dia 1 de abril a liderança do Ministério da Igualdade Racial (MIR). A cerimônia de transferência de cargo em Brasília contou com a presença da agora ex-ministra Anielle Franco. 

A nomeação consolida uma trajetória construída no interior da própria pasta e em instituições de pesquisa e gestão pública.

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Doutora pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e mestre em Sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), Rachel Barros chega ao comando da pasta após exercer o cargo de secretária-executiva e chefiar a Assessoria Especial do órgão.

Em entrevista à Alma Preta, a nova ministra traçou as prioridades para os próximos nove meses de gestão, situou seu papel na continuidade do trabalho da antecessora e respondeu sobre os desafios que a esperam para o novo cargo.

Durante a conversa com a nova ministra, alguns assuntos foram destaque: ataques às ações afirmativas, conflitos fundiários com envolvimento de comunidades quilombolas e a necessidade de converter a chamada transversalidade racial em resultados concretos para a população.

Experiência na Secretaria como base para a gestão

Antes do novo cargo, Rachel Barros atuou como secretária-executiva do próprio Ministério da Igualdade Racial. Foi nessa função que acompanhou, de perto, a construção das políticas da pasta desde o início do governo Lula. 

Para ela, essa trajetória representa uma vantagem na condução do ministério neste momento de “fechamento de ciclo”.

“Eu chego a este lugar com essa experiência, que me ajuda bastante a continuar com esse olhar de gestão e a garantir que a gente consiga fechar esse ciclo muito bem”, afirmou. “É um momento de apresentar resultados, é um momento de seguir com avanços.”

A ministra destacou que a proximidade com quem permanece na Secretaria Executiva é um dos pilares da nova gestão. A ideia, segundo ela, é manter o alinhamento interno para que os projetos em curso não percam ritmo.

Os desafios orçamentários também estiveram na pauta da conversa. A ministra reconheceu as limitações, mas apresentou dados de execução como argumento central. 

“O Ministério da Igualdade Racial, em 2025, executou praticamente 100% do seu orçamento. Isso é muito importante para garantir recursos para as próximas políticas”, afirmou.

A estratégia para ampliar o orçamento passa pela busca de emendas parlamentares e pela articulação com outras pastas do governo.

“Fazemos junto com o MDA, junto com o INCRA”, exemplificou, ao falar sobre as políticas voltadas para quilombolas.

Leia mais: Quem é Rachel Barros, nova ministra da Igualdade Racial

Continuidade, não ruptura

A nomeação de Rachel Barros foi apresentada pelo governo como ato de continuidade. A própria ministra rejeita qualquer leitura que sinalize ruptura com a gestão de Anielle Franco. 

“Eu fui parceira da ministra Anielle Franco desde o início da construção desse ministério. Vou dar seguimento, avançando nas políticas que ela já inaugurou”, afirmou.

Entre as ações que ganham destaque nesse período, as Casas de Igualdade Racial ocupam posição central. 

A primeira unidade foi inaugurada no Rio de Janeiro. Outras devem ser abertas ainda no primeiro semestre de 2026. Os equipamentos oferecem apoio jurídico, atendimento psicológico e suporte social para vítimas de crimes raciais.

Para Rachel Barros, o principal legado do Ministério da Igualdade Racial nesta gestão não está em uma política isolada, mas em um processo estrutural: a transversalização da pauta racial dentro do governo federal. 

“Fazer com que a igualdade racial seja reconhecida como um pilar da democracia e que ela apareça também nas políticas executadas pelas outras pastas — esse é o nosso principal legado”, disse.

A lógica é que a população negra (maioria da população brasileira) passe a se reconhecer não apenas nas políticas originadas diretamente pelo ministério, mas também nas ações das demais pastas do governo. Trata-se, segundo a ministra, de um ganho estrutural para o país.

Para a ministra, esse é um momento de fechamento de ciclo e apresentação de resultados. Foto: Bruno Fernandes/MIR

Ataques às cotas e a resposta do ministério

Quando questionada sobre o movimento de ataques às cotas, principalmente no setor político, a ministra reconheceu a sua gravidade. “A gente considera que esses ataques anti-cotas são muito preocupantes”, disse. 

Mas a resposta que promete é de confronto direto. Articulação com outros órgãos, acompanhamento de ações judiciais e manutenção de uma postura firme diante de tentativas de retrocesso.

Os argumentos que a ministra apresenta são de natureza pessoal e política ao mesmo tempo. 

“Sou fruto das políticas de ações afirmativas. Falo isso com muito orgulho. A educação transformou a minha vida porque sou fruto da política de cotas”, afirmou. 

Para ela, os resultados das ações afirmativas são incontestáveis e estão respaldados por pesquisas.

Entre os avanços citados, estão a renovação da Lei de Cotas, com a inclusão de quilombolas e indígenas; a extensão das cotas para a pós-graduação; o aumento de 20% para 30% nas cotas no serviço público; e a ampliação da representatividade no governo federal, com cerca de 38% de pessoas negras em cargos comissionados e de confiança.

Leia mais: Lula participa de ato em defesa das cotas raciais em São Paulo

Recorde na titulação de territórios quilombolas

O tema fundiário é um dos pontos em que a ministra demonstrou mais segurança ao responder. Ela citou o recorde de regularização de territórios quilombolas na gestão atual e a titulação de 45 mil hectares em Alcântara, no Maranhão, como conquistas do período.

“O direito à terra é um dos eixos em que o ministério mais teve êxito nesta gestão. Esse é um momento histórico para essa população”, declarou.

Mas o cenário fora do ministério conta uma história mais tensa. Dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) mostram que, entre 2000 e 2023, foram registradas mais de 3 mil ocorrências de conflitos fundiários com envolvimento de comunidades quilombolas. 

Do total, 2.466 casos estão relacionados a disputas territoriais. Houve ainda 259 conflitos pelo acesso à água e 167 registros de prisões, tentativas de assassinato e homicídios. 

Em 2024, o número geral de conflitos no campo no Brasil chegou a 2.185 — o segundo maior da série histórica da CPT, mesmo com uma redução de 3% em relação ao ano anterior. Cerca de 78% desses casos envolvem disputas por terra.

Diante desse quadro, a ministra afirmou que o ministério vai seguir com a Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental Quilombola (PNGTAQ), que atua após o processo de titulação. 

“A gente faz a gestão dos modos de vida, da sustentabilidade e da inclusão produtiva, ajudando as comunidades quilombolas a se organizarem e a manterem suas terras com dignidade, com respeito à ancestralidade e às suas tradições”, explicou. A ministra também mencionou o combate ao racismo ambiental como parte dessa atuação.

“Garantir a igualdade racial é promover a democracia”

A ministra também foi questionada sobre como o ministério pretende mensurar o impacto de suas políticas na redução das desigualdades de renda, trabalho e educação para a população negra.

“Política pública se faz com diagnóstico, execução, monitoramento e avaliação. A partir disso, vem a qualificação dessas políticas. É um ciclo contínuo de avanço e monitoramento”, defendeu.

Ao encerrar a entrevista, Rachel Barros resumiu a razão de ser do ministério. “Garantir a igualdade racial é promover a democracia. É por isso que trabalhamos. Trabalhamos para melhorar a vida da população negra no Brasil, porque sabemos que isso é o alicerce da democracia.”

A ministra afirmou que assume o cargo com condições de dar continuidade ao trabalho de Anielle Franco e com o apoio do presidente Lula. 

Sobre a relação com a imprensa negra, foi direta: “Sabemos da importância dessas mídias para pautar aquilo que o ministério faz, trazendo a promoção da igualdade racial para o centro do debate. Se queremos que as políticas cheguem a quem mais precisa, os veículos para comunicar isso são aqueles que dialogam diretamente com a população negra.”

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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