A cantora e compositora Sarah Roston construiu trajetória de mais de uma década na música, com composições gravadas por artistas como Xênia França, Léo Santana e Mac Julia, além de trabalhos em trilhas de séries e filmes.
Integrante da banda de Rael e com passagens por projetos coletivos, ela lançou no dia 9 de abril o álbum de estreia “Sensível ao Toque“, viabilizado com apoio do edital ProAC e desenvolvido a partir de uma proposta autoral que articula narrativa, identidade e pesquisa sonora.
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Dividido em três atos, o disco apresenta uma construção que atravessa relações, desejo e busca por conexões, com base em referências musicais que percorrem ritmos brasileiros e sonoridades da diáspora.
Em entrevista à Alma Preta, a cantora fala sobre o processo de criação do álbum, a afirmação da mulher negra no centro do desejo, a mistura de ritmos, a produção em família, a construção visual do projeto e os caminhos que se abrem após a estreia.
Estrutura em três atos
A divisão do álbum em atos surgiu de uma necessidade narrativa e também de uma estratégia de lançamento.
Sarah explica que o primeiro ato trata das relações líquidas, da liberdade sexual e do desejo sem compromisso. O segundo ato aborda a “sofrência”, com arrocha e bachata, ritmos de dança a dois. O terceiro ato celebra o encontro, a paz e a espiritualidade.
“Para chegar ao amor, pelo menos para mim, passei pelas escolhas desses atos. Sinto que não fui só eu, mas que, nos nossos tempos, as mulheres à nossa volta vivenciaram esses ‘amores líquidos’. Relações de ‘passar o rodo’, questionar as maneiras de se relacionar, de viver a libido, até chegar um momento de falar: ‘Espera aí, está muito raso, ninguém está indo fundo’.”, revela.
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O álbum coloca a mulher negra como protagonista do próprio desejo. Sarah afirma que essa escolha responde a um momento de tomada de consciência social.
“É a nossa pauta hoje. A curva da violência, de tudo… a gente realmente se dá conta que nós somos chefes de família em tudo que é canto. É a gente que faz a multiplicação dos pães de Jesus”, conta.
A cantora destaca que a mulher negra, “ponto mais vulnerável na nossa sociedade no Brasil”, precisa ocupar esse espaço de fala. “A gente tem que falar, a gente tem que cantar, a gente tem que pintar isso, a gente tem que fazer matéria disso, a gente tem que estar na rua, a gente tem que ir: é professora, é cozinheira, é tudo.”
A estratégia também serviu às plataformas de streaming. Sarah decidiu lançar os atos separadamente para realizar mais pitches e ganhar alcance. “Se eu lançasse tudo de uma vez, perderia alcance diante dos milhões de lançamentos diários.”
Produção familiar e a diversidade nos ritmos
A mistura de gêneros musicais no material reflete a trajetória de Sarah por oito cidades brasileiras e um intercâmbio na América Latina.
Nascida em São Paulo, ela viveu no Acre e no Mato Grosso antes de retornar à capital. A passagem pelo Equador e pela Colômbia, por meio de um intercâmbio do Rotary, a aproximou do reggaeton.
“Morei até os sete anos no Acre. Lá no Norte do Brasil, se ouve muita música latina, porque é muito perto. Às vezes, como diz a turma, chega mais sinal de rádio do Caribe do que aqui de baixo”, compartilha.
A cantora também se inspirou no pagodão baiano, ritmo que exige dança coletiva, e no arrocha, primo brasileiro da bachata.
“A maioria dos ritmos que brotam da Bahia são ritmos para dançar coletivamente. Pagodão, você não dança sozinho. Até em trend de TikTok, você tem três pessoas dançando pagodão.”

O irmão Saulo Roston assina a produção do álbum. A parceria entre os dois se estende por anos de trabalho conjunto em trilhas de filmes e outras produções. Sarah afirma que a intimidade familiar permitiu um nível de confiança e provocação artística que outros produtores não dariam.
“Ele me conhece do avesso. Me conhece num lugar que nem eu me conheço. É um parto fazer um álbum. Tem música que, se você olhar na guia, é outra música. Nem entraria no álbum se não tivesse a produção. De me provocar a ir mais longe, de me pegar no pulo nas minhas ‘folgas’.”
Em relação à parte visual do projeto, quem assina as direções dos clipes da cantora é o seu companheiro, o diretor criativo Gui Gomes. A parceria resultou no curta “Abstinência de Baile”, que acompanha o álbum.
Sarah, que é formada em Artes Cênicas, retomou os estudos de atuação para o projeto.
“Uma coisa é fazer som. Tem o campo da magia, em que, se eu canto uma música para você, é que nem livro: você vai imaginar um universo na sua cabeça ou sentir uma coisa. Já a pessoa do seu lado vai sentir outra coisa. Agora, o visual, por mais que tenha um universo vasto, é a margem do rio, é uma cor, é o que você comunica.”
Gui Gomes propôs uma abordagem diferente da sensualidade. “Ele falou: ‘Eu não quero aquela visão da mulher fazendo para a câmera, para quem está assistindo. Vamos tentar construir esse tesão em si mesma’. A pessoa está assistindo, e você está ali sentindo a si mesma.”
Próximos passos
Sarah já acumula mais de 50 músicas lançadas com outros artistas e mantém material inédito na gaveta. Ela planeja novos projetos, incluindo um álbum com o irmão, um disco só de arrocha e outro só de groove.
“O que eu conquistei agora não tem retrocesso, não tem andar para trás. Você vai ver disco meu com o meu irmão, vai me ver cantando arranjo de quarteto (só voz), vai me ver fazendo de tudo. Vou fazer o que me der na telha”, promete a artista com animação.
Aos leitores da Alma Preta, a cantora faz um convite para ouvir pelo menos uma faixa de seu primeiro material enquanto solista.
“Peço aos leitores: me deem a oportunidade de ouvir apenas uma música. É a minha área; eu bato qualquer pênalti em final de Copa do Mundo. Ouve ‘Iluminar‘. Eu sei que a nossa galera vai pirar no bailinho. Depois, se quiserem ouvir o álbum inteiro, ouvem.”
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