Quando o negro procurou seu corpo, percebeu que pertencia ao seu senhor terreno. Quando procurou sua alma, percebeu que ela havia sido apropriada por seu Senhor Celestial. E quando procurou algo que realmente lhe pertencesse, não encontrou nada além de sua sombra, que desapareceu na penumbra.
– Frederick Douglass, 1894, p.34 -35.
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Deslocar o olhar como ato radical
No debate público brasileiro, “evangélico” tem sido costumeiramente mobilizado como uma categoria descritiva, aparentemente evidente, fechada e reduzida ao campo da moral e da política – seja ela partidária ou não. Todavia, ao fazermos o exercício de observar cautelosamente esse campo amplo, que é habitado por aqueles e aquelas que professam a fé na doutrina cristã evangélica, cuja maioria é negra e feminina, podemos aperfeiçoar a capacidade de ver por entre as brechas, e encontrar mais do que a superfície anuncia.
Em larga escala, não se pode negar que a maioria dos evangélicos são conhecidos por sua intolerância religiosa, principalmente contrários às religiões de matriz africana e afro-indígena. Essa rejeição da diferença, ancorada na supremacia branca, patriarcal, precisa ser lida como parte de um projeto de dominação, que visa a regulação estrita dos corpos, dos desejos e das formas de vida existentes fora desta matriz religiosa.
Tal desprezo pelo “negro” toma corpo através da imposição de discursos e gramáticas morais de controle, proteção e salvação, atualizando uma cena colonial. Por meio da definição de quem pode ser reconhecido ou não como digno, essa religião oferece às pessoas negras a possibilidade de vislumbrar o status de humano – sob condição da conversão, de tornar-se filho de Deus.

Sua crescente presença e influência nas muitas áreas da vida social incide em instituições centrais às dinâmicas formativas e disciplinares (FOUCAULT, 1987), como por exemplo as esferas do executivo e do legislativo; as prisões; as casas de recuperação; os hospitais psiquiátricos; as unidades socioeducativas e as escolas, evidenciando a capilaridade dos evangélicos na sociedade brasileira.
Estamos acompanhando e encontrando maneiras de lidar com esse fato? Deslocar o olhar para além do familiar é uma ação radical para pessoas negras, porque aquilo que nos foi ensinado e naturalizado – sobretudo a subjugação racial e o sexismo – não nos permitem enxergar o que não está nas narrativas dominantes, como as que circulam nas mídias tradicionais e digitais. No caso dos evangélicos, esse deslocamento é um primeiro passo na quebra de um sistema de classificação muito sólido – que produz uma lógica colonial de poder – para repensá-lo.
De fato, uma tarefa fundamental dos pensadores negros críticos tem sido a luta para romper com os modelos hegemônicos de ver, pensar e ser que bloqueiam nossa capacidade de nos vermos em outra perspectiva, nos imaginarmos, nos descrevermos e nos inventarmos de modos que sejam libertadores.
– bell hooks, olhares negros e representação.
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Mapear as sensibilidades | combater o epistemicídio
Compreender essa religião como um dispositivo de poder e um campo de disputa em movimento compõe uma coreografia inédita, que a autora — a doutoranda em antropologia e pernambucana Thayane Fernandes (@antropogata) — tem se dedicado a compor. De caráter pioneiro, a pesquisa é resultado de dez anos de dedicação à compreensão das dinâmicas relativas ao campo, tendo como foco as experiências de pessoas negras constituídas no interior do cristianismo evangélico brasileiro, mas que decidiram romper com essa religião.

Parte dos dados da investigação são oriundos de um mapeamento nacional em andamento, onde o questionário busca extrair diferentes aspectos da travessia feita por pessoas negras – ou seja, o questionamento, a dúvida, a ruptura e a mudança. Nele, são considerados diferentes tipos de ruptura com a igreja, para que se possa entender, alargar e complexificar as relações com a religião, espiritualidade e a fé. Então, se você ex-evangélica/o, ex-crente, desviada/o, desigrejada/o ou outra coisa — sua experiência importa, basta clicar aqui para responder.
O ponto de partida das reflexões da autora é fundamentado em dois questionamentos centrais: “Quais condições ou crenças tornam possível que uma pessoa negra no Brasil se reconheça como “evangélica”? E, quando esse reconhecimento se rompe, o que se desfaz — e o que pode nascer?
A premissa privilegiada é o entendimento de que romper com crenças profundamente inscritas produz, na maioria das vezes, um deslocamento radical do sujeito negro (FANON, 2008). Isso implica também num trabalho que não estamos habituadas a fazer: reconfigurar a nós mesmas enquanto redescobrimos o novo, que se manifesta no espírito, no corpo e na linguagem. Mas por que, no caso das pessoas negras, esse rompimento tende a assumir tal condição de radicalidade?
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Dispositivo de salvação e o governo da vida negra no Brasil
A explicação que vem sendo elaborada pela autora – movida pelo desejo e propósito de desencobrir o epistemicídio em torno do problema em questão – tem sustentação na discussão foucaultiana sobre o poder e o saber, somada aos debates no campo da teoria crítica da raça e o feminismo negro de recusa. Em diálogo com as definições de dispositivo em Michel Foucault (1979) e o “dispositivo de racialidade” (2005), elaborado pela Sueli Carneiro, Thayane Fernandes cunha a noção de “dispositivo de salvação”.
Podendo ser brevemente definido como um arranjo heterogêneo de discursos, práticas, instituições e sensibilidades — o dito e o não dito — articulado em torno da promessa de redenção do pecado originário. Fundamenta-se na rejeição à diferença como princípio, operando por meio de distinções que hierarquizam o salvo e o não salvo e regulam corpos, condutas e formas de vida. Sua função estratégica se dá na relação saber-poder, produzindo regimes de verdade que orientam o que pode ser reconhecido como legítimo, tornando-os inatos e naturais. Nesse processo, reforça os pilares ontológicos da modernidade (Ferreira da Silva, 2019) ao estabilizar hierarquias de humanidade e valor.
No contexto brasileiro, esse dispositivo não se sustenta sem o que Sueli Carneiro (2005) denomina dispositivo de racialidade. É nessa articulação que a ideia da salvação adquire eficácia, incidindo diretamente na possibilidade de autodeterminação do sujeito negro: ao oferecer reconhecimento sob condição, reforça a branquitude como horizonte normativo e ponto de chegada, reconfigurando os limites do que pode ser vivido como humano, digno e possível.
O dispositivo de salvação é uma modalidade de resposta a um conjunto de demandas que se intensificam no Brasil nas últimas décadas: a necessidade contínua de governar populações marcadas pela desigualdade e subjugação racial; reorganizar a moral pública e alinhá-la a interesses que são parte de uma agenda internacional ligada ao avanço da extrema direita; produzir horizontes de sentido em contextos de instabilidade social e crise climática, dentre outras.
Ao fim, é preciso se perguntar, imaginar: se o crescimento do campo evangélico nas últimas quatro décadas pode ser lido, também, como parte de uma resposta histórica à gestão da vida negra no Brasil, quais brechas podemos encontrar na violência produzida pela religião? Romper com a igreja evangélica pode ser o início de uma caminhada em direção à autodeterminação do negro brasileiro?
Referências
CARNEIRO, Aparecida Sueli. A construção do outro como não-ser como fundamento do ser. 2005. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.
DOUGLASS, Frederick. Lessons of the Hour. Washington, D.C.: [s.n.], 9 jan. 1894.
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.
FERREIRA DA SILVA, Denise. A dívida impagável. São Paulo: Oficina de Imaginação Política, 2019.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro, Graal, 1979.
FOCAULT, Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Tradução de Raquel Ramalhete. Petrópolis: Vozes, 1987.