As candidatas negras são alvo de 87% da violência política digital nas eleições. O dado consta de levantamento divulgado pelo Instituto Marielle Franco, que acompanhou 77 casos de agressões no ambiente on-line e analisou agressões direcionadas a mulheres que disputam ou exercem cargos eletivos.
Em relação à cor e raça das vítimas, 69% se autodeclaram pretas, 18% pardas, 10% brancas e 3% não identificadas. A maioria das vítimas pertence a partidos de esquerda ou centro-esquerda: PT (43%), PSOL (30%), PCdoB (9%) e PSB (3%).
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A soma dessas quatro legendas responde por 84% dos casos, o que, segundo o estudo, demonstra um viés ideológico na motivação dos ataques.
O estudo também indica que mais de 60% das ameaças de morte e estupro direcionadas a parlamentares e candidatas negras mencionam o assassinato da vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018.
O crime, cuja condenação dos mandantes ocorreu recentemente no Supremo Tribunal Federal (STF), aparece como referência em ataques que buscam intimidar mulheres negras na política.
A ex-ministra da Igualdade Racial e irmã de Marielle Franco, Anielle Franco (PT-RJ), afirmou que a violência política de gênero e raça representa um risco para a democracia. Em declaração, ela disse que o uso da memória da irmã para ameaçar lideranças envia o recado de que mulheres negras e periféricas não devem ocupar espaços de poder.
Anielle Franco defende a aplicação rigorosa da Lei nº 14.192/2021, que criminaliza práticas de exclusão, humilhação ou menosprezo a candidatas e mandatárias em razão do gênero. A legislação, criada a partir de pressão de movimentos sociais, prevê punições para condutas cometidas por meio da internet e redes sociais.
“Nós criamos mecanismos legais para punir essa barbárie e não aceitaremos dar nenhum passo atrás. O debate eleitoral precisa ser travado no campo das ideias, e não sob a sombra do medo e da intimidação jurídica ou digital”, disse Anielle, que também é pré-candidata à deputada federal pelo Rio de Janeiro.
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Deputada Ediane Maria aciona MP após ofensas machistas
O cenário descrito pelo estudo encontra exemplo recente no caso da deputada estadual Ediane Maria (PSOL-SP), pré-candidata à reeleição. Ela apresentou representação ao Ministério Público Eleitoral contra o influenciador Henrique Manzione, conhecido como “Rei Orlando”, após a publicação de um vídeo no Instagram, em 6 de julho de 2026, com ofensas de teor machista contra a parlamentar.
No vídeo, Manzione reagiu a uma publicação da deputada sobre a Copa do Mundo Feminina de 2027. Ele proferiu expressões como “sua deputada esquerdista de merda”, “vai ariar umas panelas que tá com tempo demais” e questionou a capacidade da parlamentar de votar e dirigir.
A representação, assinada pela advogada Tainã Góis, afirma que o discurso reduz a deputada à condição de mulher, a associa a tarefas domésticas estereotipadas e questiona sua legitimidade para o exercício do mandato.
O documento enquadra a conduta no art. 326-B do Código Eleitoral. O artigo prevê pena de um a quatro anos de reclusão para quem “assedia, constrange, humilha, persegue ou ameaça candidata ou detentora de mandato eletivo, utilizando-se de menosprezo ou discriminação à condição de mulher”.
A representação requer a identificação do autor do perfil, a preservação da publicação e o oferecimento de denúncia pelo Ministério Público.
O Ministério Público ainda não se manifestou sobre o caso.
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