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Espetáculo gratuito em SP debate herança escravocrata no trabalho doméstico

Com sessões gratuitas nesta semana, peça de teatro une drama e suspense para debater racismo, memória e apagamento social
Cena do espetáculo "Elefante".

Cena do espetáculo "Elefante".

— MAU/Divulgação

13 de julho de 2026

O que acontece quando o esquecimento é uma doença biológica para uns, mas um apagamento histórico e social imposto a outros? É essa a premissa de “Elefante”, espetáculo do Grupo de Pesquisas Entre Atlânticas, que inicia temporada gratuita com apresentações em São Paulo e Mairiporã.

Com dramaturgia e direção de Beatriz Nauali, a obra instaura um verdadeiro terror social cotidiano no palco para abordar o racismo, a complexa relação entre memória e esquecimento, e as dinâmicas do trabalho escravo muitas vezes disfarçado no ambiente doméstico brasileiro.

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A narrativa se passa no aniversário de 70 anos de Célia, uma matriarca branca que sofre de Alzheimer e vive o abandono familiar. Ela recebe a visita inesperada do neto, que desconhecia sua condição, e do amigável vizinho Qayin.

É nesse cenário de tensões familiares que a memória de Xhosa, uma mulher preta, paira no ar de maneira misteriosa. Enquanto a matriarca perde suas lembranças para a doença, a história da trabalhadora doméstica revela um apagamento diferente: a invisibilidade estrutural imposta àqueles que historicamente sustentam milhões de casas em nosso país.

Leia mais: Trabalho análogo à escravidão atinge majoritariamente homens negros no Brasil, diz balanço oficial

Concepção de direção

Na encenação, o drama familiar atua como um pretexto para esmiuçar a relação de opressão no eixo negritude-branquitude, materializada na dinâmica entre quatro presenças: duas mulheres (uma preta e uma branca) e dois homens (um preto e um branco).

A montagem mergulha nas camadas de complexidade que sustentam essas dinâmicas, discutindo a lógica do lucro, o papel do cristianismo no apagamento das culturas e, sobretudo, a ancestralidade negra como um motor político de levante.

A proposta estética e narrativa visa causar rupturas profundas nas estruturas que ainda permitem a subalternização do trabalho de mulheres negras.

“O espetáculo pede a radicalização do movimento antirracista, além do fortalecimento das frentes que combatem situações de exploração e violação dos direitos da população negra”, enfatiza a diretora e dramaturga Beatriz Nauali.

Grupo Entre Atlânticas

Formado por artistas pesquisadores oriundos de cidades da Bacia do Juqueri, região periférica da Grande São Paulo, o grupo teatral dedica-se a investigar e materializar nos palcos as tensões raciais, a memória e a ancestralidade que moldam o Brasil contemporâneo. O coletivo tem como pilar a descentralização das artes, conectando o centro a territórios periféricos.

A temporada de Elefante tem fomento do programa “Sementes da Ancestralidade: Fomento à Cultura Afro-Brasileira” da Fundação Cultural Palmares, com apoio do Programa Rumos Itaú Cultural 2024-2025. Todas as apresentações serão seguidas de um bate-papo com o elenco.

Leia mais: Verônica Oliveira transforma experiência no trabalho doméstico em voz por dignidade e direitos

Serviço

Evento: Espetáculo “Elefante”

Quando: 16 a 19 de julho (quinta a sábado às 20h; domingo às 19h)

Onde: Teatro Paulo Eiró | Av. Adolfo Pinheiro, 765 – Santo Amaro, São Paulo – SP

Duração: 90 minutos 

Classificação: 14 anos

Ingressos gratuitos disponíveis na plataforma Sympla ou retirada 1 hora antes na bilheteria do teatro

As sessões do dia 17 de julho contarão com intérpretes em Libras.

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