Alunos criam ‘canteiro de africanidades’ para aprender história e cultura afro-brasileira

Projeto desenvolvido em escola estadual de Curitiba evidencia as contribuições das culturas africana e indígena no cotidiano da comunidade escolar
Professor segurando um punhado de terra do "Canteiro de africanidades" da escola estadual Dom Orione, em Curitiba (PR).

Professor segurando um punhado de terra do "Canteiro de africanidades" da escola estadual Dom Orione, em Curitiba (PR).

— Divulgação/Fundepar

21 de dezembro de 2025

Na escola estadual Dom Orione, em Curitiba, no Paraná, os estudantes aprendem sobre a história e cultura afro-brasileira de um jeito diferente, fora dos limites tradicionais da sala de aula. A troca de conhecimentos se dá por meio do “Canteiro de Africanidades”, uma horta destinada ao cultivo de produtos de origem africana, como café, melancia, lavanda e guiné.

Construído no alto de um barranco dentro da escola, o canteiro é acessado por uma escada aberta na própria terra pelos alunos. A escolha do local é simbólica, representando a relação das africanidades com o sol e a natureza.

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O professor de Filosofia e Sociologia, Jeferson da Costa Vaz, que coordena o projeto, explica que as atividades ocorrem no contraturno escolar e envolvem o cuidado diário com as plantas, algumas delas tradicionalmente usadas para fins alimentares e medicinais.

O objetivo, segundo o docente, é trabalhar na prática as leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008, que tornam obrigatório o ensino da história e cultura dos povos africanos, afro-brasileiros e indígenas nas escolas brasileiras. Por isso, para ele, o projeto vai além do cultivo de alimentos.

“Quando conseguimos levar a história e a cultura afro-brasileira e indígena para outros campos do conhecimento, percebemos o quanto essas culturas estão presentes no nosso cotidiano, muitas vezes de forma invisibilizada”, destaca.

A proposta busca valorizar costumes que fazem parte da vida da população brasileira e que só existem graças às contribuições desses povos. “É uma forma de conscientizar, de mostrar que é possível produzir alimento e pensar o mundo, o meio ambiente e os ecossistemas de outras maneiras. O aluno vivencia isso na prática. A ideia do Canteiro de Africanidades é reconhecer que há cultura africana em todo lugar, no café do dia a dia, na melancia que muitos gostam sem saber de onde veio”, explica o professor.

Para o secretário estadual da Educação, Roni Miranda, projetos como esse evidenciam a inovação e a criatividade da educação do Paraná. “A escola pública tem o potencial de transformar o ensino e a vida da comunidade. É isso que esse projeto faz ao integrar e estimular a educação étnico-racial, a aprendizagem prática, o respeito à diversidade e o protagonismo dos estudantes”, afirma.

Alunos engajados

O engajamento dos estudantes é um dos pontos fortes da iniciativa. De acordo com os alunos do segundo ano do Ensino Médio Enzo Fidelis e Gabriela Woss, ambos de 16 anos, toda a escola se envolve com o projeto. “É muito interessante, porque hoje a maioria das pessoas está tão desconectada da natureza. Plantar não é só cultivar algo, é lidar com memória, cultura e história de um povo”, comenta Enzo. “Eu, por exemplo, plantei o limoeiro que tem aqui na escola, e isso é muito especial para mim”, conta Gabriela.

A ideia do canteiro surgiu a partir de um trabalho do estudante Eduardo Rogerio Begge, hoje no terceiro ano do Ensino Médio, desenvolvido na disciplina de Projeto de Vida. O objetivo era gerar impacto positivo na comunidade escolar. “O que mais gosto, além do ambiente que estamos criando para o futuro, é o envolvimento das turmas. Cada um ajudou como pôde, com doação de mudas, trabalho voluntário ou divulgação do projeto à comunidade.”

As plantas cultivadas também se tornam objetos de estudo. “Elas nos permitem refletir sobre a herança deixada por esses povos e como isso nos afeta atualmente. Além de alimentos frescos, aprendemos sobre o cuidado com os espaços verdes e sobre a necessidade de construir um planeta mais sustentável”, completa Eduardo.

Agrofloresta e futuro

O projeto também se estende para a criação de uma agrofloresta escolar, com o plantio de árvores e hortaliças, como pés de citronela, pitangueira, boldo e cerejeira-do-mato.

A proposta, explica Jeferson, é que o sistema se retroalimente de maneira natural, seguindo os conhecimentos dos povos originários. Ao se decompor, a vegetação que cai das árvores nutre o solo e permite o cultivo de alimentos sem devastação, dispensando adubos sintéticos. Além disso, a grama e o mato cortados em outros espaços da escola são reaproveitados como cobertura do solo, ajudando a manter a umidade e a enriquecer a terra.

Para o futuro, o professor tem muitos planos. Entre os próximos passos do projeto estão a expansão do espaço, com a criação de outros canteiros ao longo do barranco, o plantio de novas espécies, como samambaia e espada-de-são-jorge, além de melhorias estruturais. A ideia é pintar o muro com grafites coloridos e instalar placas de identificação das plantas, que permitirão o acesso a informações nutricionais, científicas, históricas e culturais sobre cada espécie.

Para Jeferson, a escola é um espaço fundamental para o enfrentamento do preconceito. “O caminho é sempre pela educação, pelo conhecimento que liberta. É na escola que começamos a entender as diferenças e a conviver com outras realidades, costumes e tradições. Com ações contínuas e diárias, conseguimos combater aos poucos o preconceito.”

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