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Com 8 anos de violência e deslocamentos, crise de Cabo Delgado, em Moçambique, continua quase invisível

A intensificação do conflito na região segue destruindo vidas e forçando pessoas a fugir  
Cidadãos descarregam caminhão em Palma, na província de Cabo Delgado, norte de Moçambique, 30 de setembro de 2022

Cidadãos descarregam caminhão em Palma, na província de Cabo Delgado, norte de Moçambique, 30 de setembro de 2022

— Camille Laffont/AFP

6 de dezembro de 2025

Quando Bernardo e sua esposa, Alima, fugiram de sua aldeia natal, não levaram quase nada com eles. Queriam apenas descobrir o que acontecera com as duas filhas, que tinham 6 e 9 anos de idade quando homens armados as sequestraram em 2020. Durante anos, o casal não teve notícias das filhas. Recentemente, um sobrevivente que escapou do cativeiro lhes trouxe a informação de que elas ainda estavam vivas. “Cada pensamento não resolve nada”, diz Bernardo às nossas equipes em Mueda, onde a família vive num campo de deslocados desde outubro de 2025. O casal não sabe se algum dia voltará a ver suas filhas.  

Oito anos após o início do conflito em Cabo Delgado, o medo e a incerteza são uma realidade diária para centenas de milhares de pessoas nesta província do norte de Moçambique. Enquanto a atenção internacional se concentra na reabertura de grandes projetos energéticos e na segurança em torno dos recursos-chave da província, as pessoas que vivem esta crise pouco divulgada permanecem fora dos holofotes.  

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De acordo com os dados da ACLED, uma organização sem fins lucrativos que monitora conflitos, e da ONU, desde outubro de 2017, mais de 6 mil pessoas foram mortas e mais de 1 milhão, cerca de um terço da população de Cabo Delgado, foram forçadas a abandonar as suas casas. Cerca de metade delas continuam deslocadas. Desde o final de julho, Cabo Delgado tem vivido níveis devastadores de violência. Este ano já é o mais violento registado, em termos de números e frequência dos incidentes de segurança. Mais de 500 ocorreram nos primeiros oito meses de 2025, incluindo assassinatos brutais, sequestros, saques e incêndios.

Pessoas pegam água no campo de refugiados de Nadimba, em Mueda, na província de Cabo Delgado, Moçambique, 12 de novembro de 2025
Pessoas pegam água no campo de refugiados de Nadimba, em Mueda, na província de Cabo Delgado, Moçambique, 12 de novembro de 2025 (Foto: Igor Barbero/MSF)

Os ataques atingiram a maioria dos distritos da província de Cabo Delgado e espalharam-se para as províncias vizinhas de Nampula e Niassa. Dezenas de milhares de pessoas tiveram de fugir recentemente de suas casas. Para muitas, não é a primeira vez. Algumas estão regressando aos mesmos campos onde procuraram refúgio durante os ataques mortais de 2020 ou 2021. As famílias geralmente fogem com pouco mais do que as roupas que têm no corpo. Mas carregam um pesado fardo de medo, exaustão e trauma.  

O campo de deslocados de Lianda é a casa de Bertina há três anos, apesar das dificuldades crescentes. A comida é limitada. A lona plástica que cobre o abrigo está tão danificada que a chuva entra. A água é escassa: pode levar até três dias para conseguir apenas 40 litros, o que não é suficiente nem para o consumo de um dia para a sua família de nove pessoas.  

Na sua aldeia natal, em Nangade, Bertina costumava colher uma dúzia de sacos de 40 kg de castanha de caju por ano. Junto com os outros cultivos, era suficiente para sustentar toda a família e construir uma casa com um tanque de água privado. Depois da aldeia ter sido atacada, apenas o tanque permanece. 

Bertina Ernesto, de 40 anos, em frente a sua casa no campo de refugiados de Lianda, perto da cidade de Mueda, Cabo Delgado, Moçambique, 11 de novembro de 2025
Bertina Ernesto, de 40 anos, em frente a sua casa no campo de refugiados de Lianda, perto da cidade de Mueda, Cabo Delgado, Moçambique, 11 de novembro de 2025 (Foto: Igor Barbero/MSF)

Bertina não está sozinha nesta experiência. Muitas pessoas contam às nossas equipes que viram as suas casas serem incendiadas, negócios destruídos; deixaram para trás terras agrícolas e pertences; perderam entes queridos. E, embora agora encontrem uma sensação de segurança nos campos de deslocados, sua saúde física e mental continua ameaçada.  

Anos de conflito enfraqueceram gravemente o já frágil sistema de saúde no norte de Moçambique. Ciclones severos, como o Chido, no final de 2024, atingem regularmente a região e adicionam outra camada de complexidade a este país vulnerável ao clima. Várias unidades de saúde foram destruídas ou abandonadas, enquanto outras funcionam com pessoal e provisões mínimas. Profissionais de saúde, compreensivelmente, estão muitas vezes entre quem foge após ataques. Isto significa que o sistema de saúde, já sobrecarregado, carece de recursos importantes.  

Em alguns distritos, a cobertura vacinal contra o sarampo permanece perigosamente baixa. Mulheres grávidas frequentemente dão à luz em casa porque é inseguro deslocar-se, os centros de saúde estão fechados ou elas simplesmente não têm meios para chegar até os locais. O tratamento para o HIV e para a tuberculose, que requer acompanhamento regular, é repetidamente interrompido quando a violência aumenta, deixando milhares de pessoas em risco de adoecer gravemente ou desenvolver resistência a medicamentos.

Um grupo de pessoas no campo de refugiados de Nandimba na província de Cabo Delgado, Moçambique, 12 de novembor de 2025
Um grupo de pessoas no campo de refugiados de Nandimba na província de Cabo Delgado, Moçambique, 12 de novembor de 2025 (Foto: Igor Barbero/MSF)

Organizações humanitárias, incluindo Médicos Sem Fronteiras (MSF), enfrentam desafios crescentes para chegar às pessoas que mais precisam. Clínicas móveis são rotineiramente suspensas devido à insegurança. Quando a violência aumenta, programas inteiros de saúde, desde cuidados de emergência a ações comunitárias, são forçados a parar.  

Apesar desta realidade ser cada vez pior, Cabo Delgado raramente recebe suficiente atenção internacional, a menos que ocorram grandes ataques ou haja novidades sobre projetos energéticos. No entanto, por trás dos números e das manchetes – ou da falta delas – estão pessoas vivendo com medo. Famílias desmembradas, áreas agrícolas abandonadas, fontes de água perdidas e o acesso aos serviços de saúde repetidamente interrompidos. 

Equipe do Médicos Sem Fronteiras prepara uma tenda para consultas de saúde mental no campo de refugiados de Nandimba, na província de Cabo Delgado, Moçambique, 12 de novembro de 2025
Equipe do Médicos Sem Fronteiras prepara uma tenda para consultas de saúde mental no campo de refugiados de Nandimba, na província de Cabo Delgado, Moçambique, 12 de novembro de 2025 (Foto: Igor Barbero/MSF)

MSF insta todas as partes armadas para que deem prioridade à proteção dos civis e garantam que as pessoas acedam de forma segura aos serviços básicos. É necessário respeitar e proteger os serviços médicos, permitindo que os profissionais de saúde prestem cuidados nas estruturas e nas clínicas móveis.  

No fim das contas, as pessoas em Cabo Delgado querem segurança. Querem reconstruir suas vidas. Algumas ainda mantêm a esperança de voltar para casa, mesmo quando nada resta. Outras já não acreditam que voltarão, mas não conseguem fazer planos para um futuro em outro lugar.  

Com tantas crises em escalada no mundo, é difícil determinar ao que dar a nossa atenção. Mas as pessoas em Cabo Delgado estão simplesmente pedindo uma oportunidade de viver sem medo. 

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