O Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou a suspensão de “todos os programas de assistência em andamento” para o governo da Somália. A medida foi comunicada em uma publicação na rede social X e representa uma resposta a relatos de desvio de ajuda alimentar.
O subsecretário norte-americano para Assistência Estrangeira, Assuntos Humanitários e Liberdade Religiosa afirmou que os EUA adotam uma política de “tolerância zero” para desperdício ou roubo de recursos.
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A publicação alegou que autoridades somalis “destruíram um depósito do Programa Mundial de Alimentos (PMA) financiado pelos EUA e apreenderam ilegalmente 76 toneladas métricas de ajuda alimentar financiada por doadores para somalis vulneráveis”.
O Departamento de Estado acrescentou que qualquer ajuda futura estará “condicionada ao governo federal da Somália prestar contas” e remediar o assunto.
Em resposta, o Governo Federal da Somália emitiu um comunicado para esclarecer o caso. O governo afirmou que “as commodities mencionadas nos relatórios recentes permanecem sob a custódia e controle do Programa Mundial de Alimentos, incluindo a assistência fornecida pelos Estados Unidos”.
O texto explicou que o depósito do PMA em questão está localizado dentro da área do Porto de Mogadíscio, onde obras de expansão e readequação estão em andamento como parte de atividades mais amplas de desenvolvimento portuário. O governo somali garantiu que “estas operações não afetaram a custódia, gestão ou distribuição da assistência humanitária” e que um comitê interagencial revisa o assunto em coordenação com parceiros humanitários.
A Somália reafirmou seu “compromisso total com os princípios humanitários, transparência e prestação de contas” e disse valorizar a parceria com os EUA e todos os doadores internacionais.
Contexto de tensões envolve imigração e reconhecimento da Somalilândia
A suspensão da assistência ocorre em um momento de crescentes tensões entre Washington e Mogadíscio. Nas últimas semanas, autoridades norte-americanas criticaram repetidamente a comunidade somali nos EUA, com operações de imigração em Minnesota — estado que foi palco do assassinato de uma cidadã estadunidense por um agente do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), na quarta-feira (7) — e alegações de fraude em benefícios públicos no estado, que abriga a maior comunidade somali do país, com cerca de 80 mil membros.
Em novembro, o presidente Donald Trump encerrou o status de proteção temporária para imigrantes somalis, acusando-os de violência de gangues e sugerindo que fossem “enviados de volta para onde vieram”.
A medida também reflete uma ruptura mais ampla que envolve os aliados dos EUA na região. No mês passado, Israel anunciou o reconhecimento oficial da Somalilândia, um território autodeclarado independente da Somália desde 1991. A posição da Somalilândia no Golfo de Aden, próxima a adversários de Israel no Iêmen, é estratégica.
O grupo armado islamista Al-Shabaab, que combate o governo somali há cerca de duas décadas, prometeu lutar contra qualquer tentativa de Israel de usar a Somalilândia como base. A Somalilândia tem sua própria moeda, passaporte e exército, mas não apenas Israel reconhece a independência da região.
O reconhecimento de Israel à Somalilândia recebeu apoio dos Estados Unidos, mas foi criticado pela União Africana, Egito, Turquia, o Conselho de Cooperação do Golfo (composto por seis nações) e a Organização para a Cooperação Islâmica, com sede na Arábia Saudita.
A União Europeia insistiu que a soberania da Somália deve ser respeitada. A Somália, localizada no Chifre da África e assolada por conflitos internos, é com frequência classificada pelas Nações Unidas como um dos países menos desenvolvidos do mundo.