A cidade congolesa de Uvira, na província de Kivu do Sul, recebeu o reforço de combatentes do M23 ao norte da cidade e um aumento da presença de militares do Exército Congolês ao sul. Enquanto a milícia e o governo da RD Congo discutem a paz com a intermediação do Catar, o clima de incerteza paira sobre a cidade.
Nas últimas semanas, militares congoleses chegaram a Kalemie, capital da província de Tanganyika. Imagens nas redes sociais mostram os militares entrando em embarcações com destino a Uvira. As estimativas são de 7 mil soldados, informação confirmada para a Alma Preta por um porta-voz do Exército Congolês.
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Apesar da maior presença de militares na região, o reforço não significa que os combates vão acontecer, segundo Sumaili Dunia Virgile-Elie, doutorando da Universidade de Burundi e pesquisador do Centro de Pesquisa sobre o Desenvolvimento de Sociedades em Reconstrução (CREDOR). Ele acredita que a dificuldade de um combate em Uvira deixa os dois lados cautelosos.
“Não será fácil, dado o que está em jogo nesta guerra. Eu destaco a posição estratégia de Uvira, a implicação de Burundi nesta guerra, a forte militarização de Uvira, e a histórica reputação de Uvira de uma cidade de resistência”, explica.
A tomada de Uvira representaria o contato do M23 com o lago Tanganyika, na fronteira da RDC com Burundi, Tanzânia e Zâmbia. A conquista da cidade pode aumentar as tensões regionais, principalmente pelo fato da milícia ser apoiada por Ruanda.
No dia 25 de março de 2025, depois da tomada das cidades de Goma e Bukavu na RDC, Évariste Ndayishimiye, presidente do Burundi, afirmou que Ruanda tinha um plano para atacar o país. Ele disse, contudo, que os cidadãos do Burundi “não vão aceitar serem mortos como os congoleses estão sendo”, acrescentando que “burundeses são lutadores”.
Os dois países, Burundi e Ruanda, têm as fronteiras fechadas há um ano. Burundi acusa Ruanda de financiar um grupo armado que promove ataques no território burundês.
“Um ataque a Uvira pode fazer o Burundi atacar Ruanda. Acho que isso faz com que não ocorra um ataque direto, principalmente por conta da forte mobilização armada da cidade”, afirma o pesquisador.
Relatório da ONU acessado pela Alma Preta mostra que, desde o início do conflito entre o M23 e o Exército Congolês, a cidade de Uvira tem sido marcada pela presença dos Wazalendoo, milícias armadas nacionalistas e pró-Kinshasa, que tem como objetivo repelir a presença de Ruanda e do M23.
Por isso, Sumaili Dunia Virgile-Elie acredita que o movimento seja uma demonstração de força dos dois lados, não o prenúncio de uma batalha.
“Mesmo com o reforço das posições, eu não penso que Uvira será tomada ou entrará em guerra em breve. Eu penso que é mais um processo de intimidação mútua”, explica.

As discussões de paz
A ausência do M23 no acordo de paz assinado entre a RD Congo e Ruanda, em 27 de junho, em Washington, levantou suspeitas sobre a efetividade do tratado. A principal milícia armada do Leste do país discute um acordo com o governo da RD Congo com a intermediação do Catar.
Desde o dia 9 de julho, representantes do M23 e do governo da RDC e de Ruanda estão no Catar para as discussões de paz. A expectativa é de que essa seja a última rodada de negociações para o anúncio de um acordo.
Os representantes do M23 chegaram a acusar o governo de Kinshasa de não levar os diálogos de maneira séria. Os rebeldes insistem na soltura dos integrantes que estão presos e na abertura dos bancos nas áreas ocupadas. O M23 também quer uma maior autonomia para aquela região, para ser tratada como uma área especial
As expectativas são de que as partes estão resolvendo questões restantes para o fim do texto e que os diálogos caminham em uma “boa direção“.
As discussões mais recentes foram as primeiras que reuniram representantes oficiais da RDC e de Ruanda. Os congoleses enviaram Jacquemain Shabani, vice-primeiro-ministro e ministro do Interior, e os ruandeses, Vincent Biruta, ministro do Interior do país. O Ministério do Interior é o equivalente à pasta da Segurança, no Brasil.
Os Estados Unidos têm a meta do acordo sair antes do fim de julho, quando o presidente estadunidense, Donald Trump, espera receber em Washington os mandatários dos dois países, Félix Tshisekedi, da RDC, e Paul Kagame, de Ruanda.