PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

RD Congo pede reconhecimento de genocídio e enfrenta reação de Ruanda na ONU

Kinshasa denuncia massacres cometidos pelo M23 e acusa Kigali de apoiar milícia; governo ruandês chama campanha de "estúpida"
Amigos, familiares e membros da comunidade assistem em Bukavu, em 4 de março de 2025, ao funeral das vítimas das explosões de 27 de fevereiro de 2025, após reunião do movimento M23.

Amigos, familiares e membros da comunidade assistem em Bukavu, em 4 de março de 2025, ao funeral das vítimas das explosões de 27 de fevereiro de 2025, após reunião do movimento M23.

— Amani Alimasi/AFP

10 de setembro de 2025

O governo da República Democrática do Congo (RDC) iniciou nesta terça-feira (9) uma campanha na Organização das Nações Unidas (ONU) para que a violência no leste do país seja reconhecida como genocídio. O ministro dos Direitos Humanos, Samuel Mbemba, afirmou em Genebra, na Suíça, que “o mundo precisa quebrar o silêncio”, ao acusar Ruanda e a milícia M23 de praticarem massacres sistemáticos contra civis.

Segundo Mbemba, episódios recentes, como o massacre de quase 300 pessoas em julho em Rutshuru, na província de Kivu do Norte, e a execução sumária de mais de 140 civis de origem hutu, denunciada pela organização Human Rights Watch, demonstram crimes em escala genocida.

Quer receber nossa newsletter?

Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!

“Turk (alto comissário da ONU para Direitos Humanos) poderia, com base em suas próprias conclusões, caracterizar os eventos como genocídio”, disse o ministro, em referência a relatório publicado na semana anterior.

Ruanda rebate acusações

Nesta quarta-feira (10), o governo de Ruanda reagiu duramente. O ministro das Relações Exteriores, Olivier Nduhungirehe, classificou a iniciativa congolesa como “uma proposição estúpida”. “Genocídio contra quem? Etnias não tutsis? Todas elas? Foram alvo de destruição, enquanto tal?”, questionou em declaração à agência de notícias francesa AFP. 

A representante permanente de Ruanda na ONU, Urujeni Bakuramutsa, também rejeitou as acusações, dizendo que “provas rigorosas são inegociáveis” e que qualquer tentativa de flexibilizar esse padrão será contestada.

Kigali nega apoiar militarmente o M23, embora relatórios de especialistas da ONU e de organizações internacionais apontem envolvimento direto. O governo ruandês argumenta que enfrenta ameaça existencial devido à presença de grupos rebeldes hutus no leste congolês, alguns deles formados por líderes do genocídio de 1994.

Contexto do conflito

O leste da RDC vive há mais de 30 anos em situação de violência crônica envolvendo dezenas de milícias e grupos armados. A retomada das armas pelo M23 em 2021, com apoio documentado de Ruanda, resultou na captura de cidades estratégicas como Goma e Bukavu em 2025.

Apesar de um acordo de paz assinado em junho entre RD Congo e Ruanda e de um cessar-fogo permanente pactuado em julho com o M23, os confrontos continuam. Um relatório da ONU divulgado recentemente apontou que todas as partes cometeram graves violações de direitos humanos, incluindo crimes contra a humanidade.

O presidente congolês Félix Tshisekedi também tem defendido que o Parlamento classifique oficialmente a violência como genocídio, argumentando que os fatos se enquadram nos critérios da Convenção de 1948. Para o governo de Kinshasa, o reconhecimento internacional é fundamental para reforçar a responsabilização de Ruanda e de seus aliados.


Já Ruanda insiste que qualquer acusação sem base sólida fragiliza o direito internacional e ameaça o processo de paz.

Apoie jornalismo preto e livre!

O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de financiamento coletivo.

Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor.

O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

Leia mais

PUBLICIDADE

Destaques

Cotidiano