Uma pessoa é um Sol vivo. É isso que diz a cosmologia dos bakongo, etnia da África Central, onde ficava o antigo Reino do Congo. A área hoje corresponde a porções de Angola, República Democrática do Congo (RD Congo) e República do Congo. Ao longo de 300 anos, a região viu o sequestro e a escravização de pessoas levadas às Américas, especialmente ao solo brasileiro.

Como o Sol, todos nascem, alcançam o ponto mais alto do céu (o momento mais quente e intenso do dia) e morrem ao entardecer. O muntu (o ser humano, a pessoa) representa a materialidade do Sol na Terra. Ou seja, cada criança que nasce é um novo Sol.

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Entender parte do caminho dessas crianças está diretamente ligado a observar o país, o gênero, a identificação racial, a classe social, as ancestralidades, quem constitui suas famílias e as estabilidades e instabilidades que as cercam antes mesmo de seu nascimento.

Qual é o céu em que essas crianças nascem? Onde nascem esses sóis? E como eles e suas mães são conduzidos nas primeiras horas do dia, quando estão em sua primeira infância (zero a seis anos)?

Para responder a essas perguntas, a Alma Preta conversou com pesquisadores e ouviu as congolesas Claudine Shindany e Prudence Kalambay e o angolano Isidro Sanene, que fizeram do Brasil uma nova casa. Chegar aqui trouxe uma constatação unânime para os três e seus filhos: a xenofobia e o ineditismo do racismo brasileiro.

Mesmo sob circunstâncias adversas, suas trajetórias guardam pistas importantes de como produzir cuidado, acolhimento e uma base para o futuro dos novos sóis que nascem no Brasil.

Guerra na RD Congo afeta o país há quase 30 anos. Ilustração: Daniel Pereira/Alma Preta
Guerra na RD Congo afeta o país há quase 30 anos. Ilustração: Daniel Pereira/Alma Preta

Os céus fechados do contexto congolês

Há três décadas, a RD Congo é palco de um conflito armado. O segundo maior país da África vê sua região leste em meio a uma guerra que já acumula cerca de dez milhões de vítimas. As batalhas têm participação direta de Ruanda, nação vizinha com interesses econômicos nos minérios congoleses, matérias-primas indispensáveis para a fabricação de produtos de alta tecnologia.

Claudine Shindany é uma imigrante congolesa radicada em São Paulo e trabalha no Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (CAMI) como técnica de regularização migratória. Ela reflete que os sóis nascidos na RD Congo encontram um céu fechado.

“Criar um filho no meu país não é fácil. A situação econômica desde a guerra influencia bastante. Tudo é conflito. Com a guerra e a corrupção, a situação está pior. A sobrevivência é um milagre”, afirma.

O governo congolês enfrenta tensões internas com diversas milícias, entre as quais se destaca o grupo M23, acusado de receber apoio militar e logístico de Ruanda. A crise humanitária na região coloca em risco extremo a população jovem, com impacto particular sobre mulheres e crianças.

“Nessa guerra, a pessoa central que sofre é a mulher. A mulher é estuprada, a mulher é a violentada de todas as formas, mais ainda quando pegam a família dela [marido e filhos]”, reflete a congolesa. Shindany trabalhava como jornalista em seu país e viajava pelo território para reportar violações de direitos humanos contra mulheres e crianças.

O relatório Stop The War On Children: Security For Whom? (“Pare a guerra contra crianças: segurança para quem?”, em tradução livre), da ONG Save The Children, aponta que em 2024 a RD Congo registrou mais de quatro mil casos de violações graves contra crianças e adolescentes (zero a 17 anos) derivadas da guerra na região.

Mesmo diante de uma história colonial e do atual contexto adverso, Shindany mantém viva a noção coletiva de cuidado de seu país. “Para mim, que sou mãe, qualquer filho pequeno igual ao meu é meu filho, eu sou mãe de todos. Para nós [na RD Congo], meu pai é o seu pai e minha mãe é a sua mãe”, explica.

A visão da congolesa contrasta com a ideia institucional de cuidado do próprio país. “A educação das crianças de zero a seis anos na RD Congo é paga e, também, não são todas as crianças que têm acesso a essa educação (alfabetização, creche, etc) […] a maioria das escolas e creches são pagas e não são do governo”, diz.

A chegada do governo de Félix Tshisekedi, atual presidente do país desde 2019, buscou reverter essa situação, ao oferecer acesso gratuito a creches e escolas para crianças em primeira infância, mas sem muito sucesso.

“Ocorreu bem no início, só poucos meses. Com o problema de salários dos educadores e professores, as escolas acabaram pedindo para os pais para pagarem. Por fim, não foi respeitada essa situação de gratuidade de escola no nível primário.”

A guerra e a instabilidade do país ameaçam mais ainda o cuidado em nível estrutural. Milhões de congoleses têm condição de deslocados ou desabrigados dentro do seu próprio território. Na região oriental, por exemplo, epicentro do conflito, 1,6 milhão de crianças estão fora das escolas, de acordo com dados do Unicef.

Claudine Shindany durante atente diariamente imigrantes e refugiados no Cami, São Paulo, 9 de outubro de 2025. Foto: Vinicius Martins/Alma Preta
Claudine Shindany atente diariamente imigrantes e refugiados no CAMI, São Paulo, 9 de outubro de 2025. Foto: Vinicius Martins/Alma Preta

Uma jornada de prudência

Em 2001, não apenas a guerra, mas um contexto de instabilidade política assolava a RD Congo. Nesse mesmo ano, uma jovem modelo chamada Prudence Kalambay, à época com 21 anos, viu sua vida mudar totalmente. Um novo Sol estava a caminho: ela estava grávida de Exaucée Cathy. 

“Lembro quando tive minha primeira filha, meu pai estava muito nervoso, me expulsou de casa e toda a família ficou brava comigo. Ninguém queria mais falar comigo, meus irmãos, meus primos da Europa, ninguém, porque foi tipo ‘você desonrou a família, não teve o casamento”, conta Kalambay, hoje com 45 anos.

Diante das incertezas familiares, ela decidiu ir para o país vizinho, a República do Congo, em busca do pai da bebê, um major do exército perseguido politicamente. Sem sucesso, ela voltou à RD Congo ainda grávida. Apesar dos problemas, o nascimento de Exaucée mudou a percepção da família e a jovem voltou a ter o apoio de seus parentes.

Prudence Kalambay durante as comemorações dos 65 anos de independência da RD Congo, São Paulo, 14 de julho de 2025. Foto: Verônica Serpa/Alma Preta
Prudence Kalambay na comemoração dos 65 anos de independência da RD Congo, São Paulo, 14 de julho de 2025. Foto: Verônica Serpa/Alma Preta

Por intermédio de seu pai, Kalambay passou a trabalhar no gabinete do chanceler de Ordens Nacionais da RD congo, o general-major Benoit Faustin Munene, durante o governo de Joseph Kabila. Dessa forma, ela se aproximou do conturbado contexto político de seu país.

A jovem teve suporte financeiro do partido de seu ex-chefe para criar um projeto de apoio a mães jovens como ela. O trabalho no gabinete e o respaldo de Munene colocaram Kalambay sob um novo risco em seu contexto social: a perseguição política.

“Meu chefe tentou dar um golpe militar, não deu certo, e cada um pegou seu caminho”, reflete.

Receosa pelo futuro e mãe de uma criança de quatro anos, Kalambay se viu sem alternativa a não ser partir. Foi para Angola em 2005, com a ajuda de um coiote, apenas com a filha e sem documentos.

Passou três anos em território angolano e lá conheceu o pai de sua segunda filha. Um novo Sol estava a caminho. Para Kalambay, esse foi um de muitos motivos para deixar o continente africano.

"A viagem de mamãe". Ilustração: Daniel Pereira/Alma Preta
“A viagem de mamãe”. Ilustração: Daniel Pereira/Alma Preta

O vácuo ao redor do Sol

“O Brasil é diferente por ser um país que também foi colonizado, que é uma característica às vezes da busca, entre aspas, por um país irmão”, explica a psicóloga Gleise Arias, doutora pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Ela é autora da tese “A experiência emocional de crianças migrantes e refugiadas acolhidas em São Paulo”, de 2022.

“Isso é bom, por um lado, porque faz as pessoas também virem de encontro a alguma coisa que elas sentem que pode facilitar esse processo todo [de mudar de país]. Mas também é difícil, por outro lado, porque […] encontram um contexto que é discriminatório também“, analisa.

O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) aponta que cerca de 1,2 milhão de congoleses são refugiados ou necessitam de proteção internacional no mundo todo. Ao deixar Angola, Prudence Kalambay tornou-se parte do crescente grupo de congoleses em território brasileiro nos últimos 20 anos.

“Nunca imaginava que eu iria parar no Brasil. Eu falo que o Brasil que me ama e que me acolheu e que me aceitou, […] eu me apaixonei assistindo às novelas brasileiras [enquanto vivia em Angola]”, explica.

No Brasil, 888 pedidos de refúgio foram concedidos a congoleses de 2010 a 2024, conforme o Comitê Nacional para Refugiados (CONARE). Desses pedidos, 65 correspondem a crianças e adolescentes entre zero e 14 anos.

Já o número de imigrantes congoleses no Brasil, registrados entre 2001 e 2022, é de 2740 pessoas, sendo 299 na faixa etária de zero a 15 anos (não há recortes específicos para primeira infância em ambos os casos), segundo o Sistema Nacional de Migrações (SISMIGRA).

"Sempre temos carinho". Ilustração: Daniel Pereira/Alma Preta
“Sempre temos carinho”. Ilustração: Daniel Pereira/Alma Preta

Kalambay chegou ao Brasil no Rio de Janeiro, onde solicitou refúgio como mãe solo. “Quando a criança está na sua barriga, ela é sua, quando ela sai da barriga, ela é de todo mundo. […] Eu tinha toda a família ao meu redor [na RD Congo]”, afirma, acrescentando que no Brasil a experiência foi diferente. “Aqui você está sozinha.”

A realidade enfrentada por Prudence não é uma exclusividade. Uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV) aponta que até 2022 o Brasil tinha cerca de 11 milhões de mães como chefes de lares.

Os desafios começam muitas vezes antes do nascimento de seus filhos. Kalambay chegou ao Brasil ainda grávida de Rozette, sua segunda filha. Mulheres de outros países em contextos de imigração ou refúgio também lidam com diferenças nas várias relações de cuidado necessárias a uma mãe e seus filhos.

“Tem questões culturais a serem respeitadas, acho que a teoria das nossas políticas públicas já coloca que a gente vai ter que respeitar essas particularidades culturais, religiosas e toda a diversidade cultural da família em situações de cuidado”, aponta a psicóloga Gleise Arias.

Mas, na prática, a pesquisadora destaca que as coisas não são tão simples assim: “Presenciei muitas situações de conflitos intensos dessas mulheres em situação de parto, porque algum costume que ela tem não foi respeitado no hospital, seja a situação do corpo, como se faz, como se alimenta.”

“Para nós [na RD Congo] você fica três, seis meses, deitada. Tem toda a família ao redor, vão lavar sua barriga, te dar aquele banho, porque a gente tem um tratamento pós-parto que a gente faz, você não mexe mais em coisa pesada, você fica descansando e o bebê, quando chora, tem pessoas, a família perto para carregar, mas aqui não teve o mesmo”, complementa Kalambay.

Mural infantil no Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (CAMI), São Paulo, 9 de outubro de 2025. Foto: Vinicius Martins/Alma Preta
Mural infantil no Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (CAMI), São Paulo, 9 de outubro de 2025. Foto: Vinicius Martins/Alma Preta

Um país que resiste à força gravitacional do Sol

O cuidado comunitário é a força gravitacional que sustenta um novo Sol. Para o povo bakongo, essa ideia é simbolizada na noção de kindezi: a educação de uma criança é uma responsabilidade coletiva e um compromisso partilhado por todos os membros de uma sociedade.

No entanto, o Brasil impõe uma realidade que resiste a essa força. O país não vive uma guerra com outras nações, mas as desigualdades estruturais e suas consequências não são simples para quem nasce aqui e muito menos para quem vem de outros lugares.

“Essas famílias, quando chegam aqui, mesmo sem observar isso do ponto de vista mais racional em um primeiro momento, vão sofrer todas essas questões que a gente [brasileiros] também e que as nossas crianças, no geral, estão sofrendo”, explica Gleise Arias.

O país tem hoje aproximadamente 20 milhões de crianças na primeira infância. Ao menos metade delas está em famílias de baixa renda, conforme o Perfil da Primeira Infância no Cadastro Único (2024). O componente racial também é um fator relevante: cerca de 71% das crianças com famílias de renda per capita menor que R$ 200 são negras.

A vida no Rio de Janeiro não foi fácil para Prudence Kalambay, que viveu em regiões pobres da cidade e teve dificuldades em seus primeiros empregos pela barreira da língua e da cultura. “Criei todos os meus filhos, pela graça de Deus, sozinha em casa. A dificuldade foi maior em educar e ensinar”, recorda.

Nesse cenário, muitas mulheres brasileiras contam com vizinhas e familiares próximas para lidar com o cuidado cotidiano. Para mulheres imigrantes/refugiadas, até mesmo os próprios filhos cumprem esse papel. “A criança pequena, até cinco, seis anos, […] muitas delas são às vezes cuidadas por seus irmãos mais velhos, o que vai acontecer também na periferia brasileira”, avalia Arias.

“Ensinei minhas crianças para se ajudarem. Então, eu já ensinei desde pequeninos como fazer ovo, a dar banho, etc. […] Ensinei meus filhos porque eu não tive babá”, completa Kalambay.

Entre a população refugiada em território brasileiro, por exemplo, um estudo de 2019 aponta que 19,5% das pessoas estavam desempregadas, 25,2% estavam fora do mercado de trabalho e 67% dos entrevistados afirmavam não ter renda suficiente para cobrir todas as despesas. Quase 80% informaram renda domiciliar inferior a três mil reais.

Além dos desafios socioeconômicos, imigrantes e refugiados têm desafios burocráticos. “[A pessoa] precisa ver os seus documentos, procurar o seu trabalho. Assim é a necessidade da gente ter também a escola, a creche, a vaga, os serviços de cuidado, e também para que essa pessoa possa cumprir outras coisas da vida dela”, explica Arias.

Um levantamento da ONG Todos Pela Educação indica que 2,3 milhões de crianças de zero a três anos estão fora das creches no Brasil por dificuldades de acesso. Entre os 20% mais ricos, 60% das crianças são atendidas, enquanto entre os 20% mais pobres, apenas 30,6% acessam o serviço.

"Nova casa". Ilustração: Daniel Pereira/Alma Preta
“Nova casa”. Ilustração: Daniel Pereira/Alma Preta

O eclipse racista

As desigualdades socioeconômicas são apenas uma face da moeda. A outra se manifesta pelo racismo. E para alguém como Prudence Kalambay, que vem de um país de maioria negra, as ideias de raça e injustiça racial tornam-se fatores inéditos em terras brasileiras.

“Juro por Deus, nunca imaginei que ia viver isso, porque no meu país nunca vivi assim. Na verdade, todo mundo é negro, não tem briga de tom de pele. Talvez o preconceito por classe social, aquele de ter mais dinheiro, mas pelo tom de pele, nunca vivenciei isso. Eu vivi aqui, eu vivo”, diz a congolesa, que hoje vive em São Paulo.

Outros africanos que vivem no Brasil relatam a mesma experiência, como é o caso do angolano Isidro Sanene, que vive no país há 14 anos, em São Paulo. “Quando cheguei aqui, foi como uma pessoa, como indivíduo. Depois eu percebi que eu não sou um indivíduo. Eu era um indivíduo negro”, relata.

Apesar de compor a maioria numérica da população local, pessoas autodeclaradas negras (pretas e pardas) apresentam indicadores inferiores no acesso e usufruto a serviços e direitos básicos de cuidado como hospitais, escolas, moradia, emprego e renda. Além dos fatores estruturais, o preconceito e discriminação são cotidianos contra pessoas negras no Brasil.

Soma-se o fato de que o racismo contra pessoas racializadas de outros países não está desconectado da história brasileira. O decreto 528 de 28 de junho de 1890, publicado antes do aniversário de um ano da proclamação da República, por exemplo, tinha um viés explicitamente racista e xenófobo:

“Art. 1º ‘É inteiramente livre a entrada, nos portos da República, dos indivíduos válidos e aptos para o trabalho, que não se acharem sujeitos à ação criminal do seu país, exceto os indígenas da Ásia, ou da África que somente mediante autorização do Congresso Nacional poderão ser admitidos de acordo com as condições que forem então estipuladas.'”

A medida ilustra uma das várias tentativas de branqueamento do país pela elite econômica após a abolição da escravização de pessoas. O racismo tornou-se (e ainda é) uma fronteira invisível do Brasil para sua população e para aqueles que continuam a chegar aqui.

“Vivemos em um país em que, infelizmente, pessoas pretas e africanas vivem um preconceito muito grande com o racismo. Eu sou mãe de três meninas e dois meninos e aí meu coração bate muito forte com os meus meninos”, explica Kalambay.

Para Sanene, que é produtor cultural, escritor e artista plástico, as infâncias negras no Brasil estão sujeitas ao mesmo grau de violência. “A criança africana, quando chega no Brasil, ela descobre que ela não é só uma criança, ela é uma criança negra”, afirma.

O escritor angolano Isidro Sanene vive no Brasil há 14 anos, São Paulo, 9 de outubro de 2025. Foto: Vinicius Martins/Alma Preta
O escritor angolano Isidro Sanene vive no Brasil há 14 anos, São Paulo, 9 de outubro de 2025. Foto: Vinicius Martins/Alma Preta

O eclipse na educação infantil

O medo de que a violência racista afete filhos não é infundado. Muitas vezes, o primeiro contato dos sóis com esse ‘eclipse’ acontece na escola, um ambiente que, em condições ideais, deveria ser de proteção e acolhimento.

“No início foi um choque, já passei várias situações em reunião de pais da minha filha naquela época, há muitos anos, e eu não sabia ainda [do racismo], não estava ainda na luta. Minha filha foi chamada de ‘pé de macaco’”, diz Prudence Kalambay ao relembrar o racismo que os filhos viveram em seu percurso educacional.

“Ela me contou e eu fui para a escola. Os professores não me falaram nada que eu deveria correr atrás dos meus direitos. Me deram um cafezinho no escritório da secretaria e me mandaram para casa”, completa.

A história narrada por Kalambay tem ecos no presente. O Panorama da Primeira Infância: o impacto do racismo, estudo realizado pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal em parceria com o Datafolha, demonstra que uma em cada seis crianças de até seis anos já foi alvo de racismo. A pesquisa também aponta que 61% dos crimes aconteceram em pré-escolas e 38% em creches.

No caso de crianças imigrantes/refugiadas ou descendentes de famílias em contexto migratório, há um aspecto adicional.

“Os processos de acolhimento são distintos para as crianças. Quando se migra, existe um processo de racialização na migração. De algum modo, elas sofrem tanto o racismo quanto a xenofobia, em alguns casos a xenofobia, porque são imigrantes, e o racismo porque são negras”, explica o pesquisador Flávio Santiago, doutor em educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Ele é autor do estudo “Crianças migrantes dos países africanos na educação infantil paulistana: entre o acolhimento e a exclusão”. O trabalho analisou a percepção que as instituições escolares e suas professoras e professores têm sobre crianças ligadas aos diversos países do continente africano.

“Quando eu chego nas instituições para fazer as entrevistas com as professoras, muitas das vezes se dizia que são ‘crianças africanas’. Mas isso é uma resposta muito vaga. É o mesmo que dizer que são crianças da América do Sul, mas que crianças são essas? Eu estou falando de uma localidade, de uma topologia, de uma gênese, que é muito ampla”, explica.

“Se eu falo do continente africano e falo somente que eles falam só uma língua ou que são todos muçulmanos, isso não é uma verdade. Tem cristão, tem muçulmano, tem povos que cultuam outros deuses, enfim. E a gente tem que ficar muito atento a essas especificidades de cada região, de cada país, de cada cultura”, completa.

A congolesa Claudine Shindany está há 11 anos em São Paulo. Em seu percurso no país, ela e seu filho, nascido na RD Congo, constataram um profundo desconhecimento dos brasileiros sobre o país africano.

“Meu filho ficou tão nervoso de falar comigo: ‘Estão me perguntando se já vi leão, leopardo, mas a gente não morava na mata’. Eu tinha que acalmar ele e explicar que ele está vindo de um país de longe e que pessoas são curiosas em conhecer’, explica.

“Na verdade, tinha desde perguntas bobas até perguntas não necessariamente de ignorância, mas de provocação: ‘no Congo tem carro?’. Gente, que pergunta é essa? Que tipo de ignorância é essa?”, indaga.

Mural infantil do Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (CAMI), São Paulo, 9 de julho de 2025. Foto: Vinicius Martins/Alma PreaFoto: Vinicius Martins/Alma Prea
Mural infantil do Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (CAMI), São Paulo, 9 de julho de 2025. Foto: Vinicius Martins/Alma Preta

A impossibilidade de cercar o Sol

Um cenário de integração que respeite as especificidades de cada lugar demanda novos referenciais. Na cosmologia bakongo, por exemplo, o conceito de sâdulo pode apontar alguns caminhos. Trata-se de um espaço em que as crianças vivem suas experiências de formação e descobrimento do mundo.

O artigo “Performance e Ancestralidade: o que a cosmologia bakongo ensina sobre a infância negra brasileira?” elaborado por Gladis Elise Pereira da Silva Kaercher e Gabriel Fortes Pereira, pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), discute que o sâdulo “engloba o mundo das crianças e, crucialmente, não pode ser restringido por paredes físicas”.

Segundo o artigo, a ideia é distinta das creches e pré-escolas ocidentais justamente por ser capaz de oferecer um cenário de integração comunitária e diversa à educação das crianças, sem que as fronteiras físicas e imaginárias afetem o desenvolvimento de um novo Sol.

“Quando a gente pensa na infância, na educação infantil, a gente tem que pensar de modo triangular. A gente tem que pensar a docência e seus docentes, a instituição escola da infância, as crianças e os pais ou responsáveis”, afirma o pesquisador Flávio Santiago.

“Ouvir essas crianças, esses pais e esses responsáveis legais […] a respeito do processo de acolhimento e inserção dos seus filhos no seu próprio processo de acolhimento e inserção”, completa.

A congolesa Prudence Kalambay lembra desse desafio na própria trajetória. Para ela, foi fundamental entender a necessidade de responder e se posicionar contra violências racistas e xenófobas não apenas para si, mas também para seus filhos.

“Foi pela luta, pela participação das reuniões, dos encontros dos imigrantes sobre direitos humanos. Comecei a aprender que eu tenho o direito também de me defender e hoje não abaixo a cabeça”, explica.

“Para as minhas crianças eu ensino para ter cabeça, para se aceitar, ‘sua mãe é ativista’. E minhas crianças não sentem isso [o racismo]. Elas têm aquele orgulho porque a mãe é militante. Imagina nascer da barriga de uma mulher militante?”, acrescenta em tom sorridente.

"A pequena escola". Ilustração: Daniel Pereira/Alma Preta
“A pequena escola”. Ilustração: Daniel Pereira/Alma Preta

Uma bússola solar

O caminho para responder ao racismo e à xenofobia é múltiplo e leva tempo. E um território desconhecido como o Brasil pode demandar mais ferramentas de navegação. Algo como uma “bússola solar”. 

Diferente da bússola convencional, que utiliza o campo magnético da Terra para determinar uma direção, a bússola solar considera a posição do Sol para determinar o caminho a ser seguido. Nesse caso, trata-se de uma ferramenta que coloque as crianças em primeira infância e a educação como centro.

Para a ciência, o cérebro de uma criança em primeira infância é um espaço crucial de desenvolvimento. Dessa forma, o tempo é um aspecto que não pode ser ignorado.

“Para a criança pequena, da primeira infância, um ano na vida de uma criança de quatro anos é alguma coisa muito grande em porcentagem de tempo de vida. Em um ano uma série de mudanças vão acontecer”, explica a psicóloga Gleise Arias.

Uma criança matriculada na educação infantil, por exemplo, pode permanecer na escola entre quatro e sete horas por dia, segundo o Ministério da Educação.

Essa foi uma das motivações para o angolano Isidro Sanene criar uma “ferramenta de navegação”, semelhante a uma bússola solar: o GPS da Ancestralidade, que coloca a diversidade africana e as crianças na educação infantil no centro do mapa.

O projeto tem o objetivo de prevenir o racismo e xenofobia contra crianças negras e africanas ao promover o pertencimento e uma ideia de identidade positiva nas escola de São Paulo.

“Quando nós falamos da questão do racismo, da xenofobia, os principais problemas geralmente começam a partir do desconhecer. É muito normal o ser humano odiar aquilo que ele desconhece”, reflete.

Sanene utiliza narrativas e cantos em línguas africanas, a música e atividades lúdicas para transformar a ancestralidade em uma experiência concreta no ambiente escolar. “As crianças são como esponjas, elas conseguem ter reflexos melhores sobre si enquanto indivíduo”, explica.

O angolano não está sozinho nesse objetivo. A congolesa Claudine Shindany também sentiu a mesma necessidade diante de sua experiência em território brasileiro. Ela percorre as escolas de educação infantil como agente cultural com uma iniciativa semelhante.

“O povo brasileiro não conhece a África. […] Faço palestras para pessoas maiores [jovens e adultos] e muito mais brincadeiras para os pequenos”, explica.

“Na minha atuação na educação infantil em São Paulo eu foquei no ensino sobre África através de brincadeiras, canções, historias, danças [educativas]. Isso foi pensando na minha percepção como imigrante morando na cidade”, completa Shindany.

Claudine Shindany no Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (CAMI), São Paulo, 9 de outubro de 2025. Foto: Vinicius Martins/Alma Preta
Claudine Shindany no Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (CAMI), São Paulo, 9 de outubro de 2025. Foto: Vinicius Martins/Alma Preta

Seja pelo trabalho de Shindany como agente cultural ou pelo GPS da Ancestralidade de Sanene, o ensino sobre o continente africano deve ser feito em sua diversidade. Neste aspecto, o brincar é uma maneira de aproximar crianças, racializadas ou não, de uma imagem positiva do continente, de acordo com Sanene:

“Se vamos falar da África, se tiver uma criança, por exemplo, na sala de aula aqui e essa criança é africana, não fale dessa criança, fale da África, porque ela tem o lugar dela sobre África que ela conhece, que talvez não é o que eu possa trazer, mas é importante que eu possa trazer uma África que todo mundo conheça e motive as crianças a fazer uma reflexão no brincar, no lúdico”, diz.

Sanene percorre escolas em São Paulo para questionar a maneira como a diversidade é tratada na educação infantil. “Muitas vezes o corpo da criança negra é muito explorado, é muito visto, muitas vezes como um objeto de estudo na sala de aula”, afirma.

“Ela percebe que ninguém está falando do João, ninguém está falando da Bianca [que seriam crianças brancas]. Ela vai procurar uma estratégia de mundo para que ninguém fale dela”, completa ao refletir como esse processo faz com que crianças racializadas queiram se comportar ou parecer com crianças brancas.

“A criança consegue identificar as diferenças. E essa criança, por exemplo, se ela torna amigo ou amiga de uma criança branca, ninguém vai falar da criança branca, mas ela percebe que vai se falar mais sobre a criança negra”, explica.

Os trabalhos de Sanene e Shindany invertem a relação com memória e a ancestralidade e buscam contribuir com uma ideia de educação para as relações étnico-raciais.

“Nós [enquanto sociedade] reforçarmos uma memória de dor da escravidão. A criança precisa ter uma memória de referências atuais, de coisas boas, […] falar de África é falar de negritude olhando para todos e para todos os níveis de crianças [brancas, negras, indígenas etc]”, afirma Sanene.

“A história brasileira sobre a África é uma história fragmentada. Ela está em pedaços. Então vamos ter que organizar esses pedaços para trazer uma compreensão real a essa futura geração”, conclui.

"O sol". Ilustração: Daniel Pereira/Alma Preta
“O sol”. Ilustração: Daniel Pereira/Alma Preta

O ciclo infinito do Sol

Contrapor uma narrativa de dor e fragmentação, como a do racismo e da xenofobia no ambiente escolar, com uma de criatividade e ancestralidade é um desafio. Hoje, há um cenário em que as notícias são permeadas por temas difíceis: guerras, deslocamentos forçados e crises políticas, como a que trouxe a congolesa Prudence Kalambay ao Brasil.

Como consequência, muitas sociedades ao redor do mundo relatam grau elevado de pessimismo quanto ao futuro. Então, onde é possível encontrar respostas? Talvez nas primeiras infâncias e nas diversas formas de cuidar de uma criança.

É comum a diversas cosmologias africanas ou afro-brasileiras a ideia de circularidade. Nessas perspectivas, o tempo não é linear. Para a cosmologia bakongo não é diferente. Uma criança-muntu sempre está em relação com o passado, com a ancestralidade, por isso, seu cuidado demanda a presença de toda a comunidade ao seu redor.

A memória de um pequeno Sol sintetiza as ligações entre esse passado e o presente. Mas não se trata apenas de um olhar amorfo sobre o que veio antes. A criança é a ancestralidade viva, ela é força vital, a ponto de ser considerada mais velha que o mais velho que a acompanha, segundo a cosmologia bakongo.

Uma criança é um motor criativo, imprevisível, uma potência que produz um milhão de novas conexões cerebrais por minuto.

“A criança não está preocupada com a sua questão existencial, ela não está preocupada se ‘um mais um é igual a dois’. Ela quer saber se o ‘um mais um’ vai brincar com ela”, reflete Isidro Sanene.

E é justamente por ser capaz de aliar o brincar, a criatividade, a potência e o passado social que carrega, que crianças podem contribuir para novos caminhos diante das diversas fronteiras do mundo atual.

“Quando a futura geração tiver uma compreensão melhor sobre si, ela vai estar em um lugar de paz, em um lugar de cura, não mais em um lugar de dor, porque o lugar de dor é o lugar da dúvida, é o lugar do questionamento e do absurdo”, finaliza.

*Colaboraram para esta reportagem Camila Rodrigues da Silva, Pedro Borges e Solon Neto; mentoria de Mariana Kotscho.

**Esta reportagem recebeu apoio do programa Early Childhood Reporting Fellowship, do Global Center for Journalism and Trauma.