Identificar as condições de trabalho, mapear os territórios de atuação e os modos de fazer e compartilhar saberes das trancistas negras de todo o Brasil estão entre os objetivos da segunda edição do projeto Tranças no Mapa. A iniciativa busca, por meio de mapeamento colaborativo digital, construir o primeiro acervo digital iconográfico com diversidade de imagens de tranças, inseridas pelas próprias trancistas.
O projeto estreou no fim de fevereiro, com inscrições abertas para o mapeamento e tem programação prevista até outubro. Podem se inscrever mulheres negras (cis e trans), maiores de 18 anos, com no mínimo três anos de experiência como trancista.
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Nesta edição, o projeto apresenta os resultados do levantamento realizado em 2023, por meio do mapeamento de trancistas negras do Distrito Federal e Entorno, divulgando indicadores sociais, dados sobre condições de trabalho e o perfil sociocultural das participantes. Também promove oficinas temáticas e formações on-line com especialistas, mestras trancistas e griôs, com foco na valorização e incidência política do ofício de trançar.
Após construir uma cartografia sociocultural inédita e estruturada, o Tranças no Mapa amplia, nesta 2ª edição, sua base para todo o território nacional, incorporando a iconografia ao mapeamento e conferindo maior robustez e dimensão à iniciativa.
Com essa perpectiva, o projeto realiza oficinas formativas, lançamentos audiovisuais, exposições fotográficas nas cidades do Distrito Federal e Entorno, e em Salvador, durante essa etapa, traçando rotas pela visibilidade do saber tradicional e qualificação do debate por políticas públicas.
Como novidade nesta edição, destaca-se a incorporação da dimensão iconográfica e a correalização do projeto pelo Instituto Mãe África, que integra o território da Ceilândia – reconhecida no mapeamento de 2023 por abrigar a maior concentração de trancistas negras (60%) das Regiões Administrativas do Distrito Federal, evidenciando que essas regiões não são apenas reflexos da identidade da capital, mas contribuições essenciais para sua formação.
Além dos dados territoriais e socioeconômicos, o projeto pretende construir um site para organizar documentos, vídeos e reunir imagens de tranças, inseridas pelas próprias trancistas nas respostas do mapeamento. As fotografias inseridas por elas, irão compor um acervo digital que fortalece o reconhecimento do ofício como patrimônio cultural.
A trancista, pesquisadora e mestra no Programa de Pós-Graduação em Sustentabilidade junto a Povos e Territórios Tradicionais na Universidade de Brasília (UnB), Layla Maryzandra, coordenadora do Tranças no Mapa, destaca a incidência da iniciativa na construção de políticas sociais voltadas ao ofício de trançar.
Ela também ressalta a importância da ação para a visibilidade e o reconhecimento profissional da categoria, com base em dados do Mapa Afetivo (2023), que analisou a distribuição sociocultural de trancistas negras no Distrito Federal e Entorno.
“A relação entre território, raça e prática profissional indica que a demanda por tranças afro é maior em áreas com forte presença da população negra. Esse padrão reforça o vínculo da prática com a identidade e a cultura afro-brasileira e evidencia o papel das trancistas na valorização da estética negra e na reafirmação da identidade racial nos territórios onde atuam”, respalda.

Metodologia do mapeamento de trancistas
A metodologia adotada é a cartografia social, uma abordagem participativa que compreende o mapa como construção coletiva de narrativas, experiências e pertencimentos. Mais do que localizar pontos geográficos, o projeto mapeia trajetórias, saberes e relações, reconhecendo as trancistas como produtoras de conhecimento sobre seus territórios e práticas.
As informações fornecidas irão compor o mapeamento digital e iconográfico, bem como subsidiar estudos, publicações, ações formativas e iniciativas culturais voltadas ao reconhecimento do ofício de trancista como patrimônio cultural afro-brasileiro.
Ao produzir dados, imagens e narrativas sobre o setor, o Tranças no Mapa contribui para fortalecer redes, ampliar o respeito ao ofício e subsidiar políticas públicas. Também cria memória ao registrar histórias, técnicas e trajetórias que historicamente não estiveram nos arquivos oficiais, reafirmando a trança como prática cultural ancestral e contemporânea.