Boston, EUA – A discussão sobre soluções para o Brasil foi o mote principal da Brazil Conference, uma discussão ampla que incluiu um painel para discutir segurança pública. Em conversa com a Alma Preta, a jornalista e especialista em segurança pública Cecília Oliveira, uma das palestrantes do evento, apontou as responsabilidades de diversos setores como a imprensa e as universidades para discutir segurança pública em um ano que o tema deve ser destaque nas eleições.
Para a cofundadora do The Intercept Brasil, a realização do debate durante a Brazil Conference atende a uma das principais preocupações dos brasileiros, de acordo com pesquisas. “A discussão sobre esse tema é vital, pois afeta outras áreas como educação, saúde e transporte. Discutir segurança vai além de operações policiais, é sobre o funcionamento das cidades e do cotidiano”, afirma, em entrevista à Alma Preta.
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Oliveira destaca o tema como central para o debate eleitoral, com impacto que vai desde aqueles que temem por sua vida até quem tem medo de ter o celular roubado. “A forma como as campanhas abordam essa pauta será crucial para conquistar os 10% de eleitores indecisos, que podem decidir as eleições”, diz.
Segurança pública: estratégia eleitoral e o papel do jornalismo
Em um ano eleitoral, a segurança pública no Brasil tende a ocupar um espaço central no debate público, mas nem sempre de forma aprofundada. Para Oliveira, autora do livro “Como Nasce um Miliciano”, publicado em 2025 pela editora Bazar do Tempo, a pauta está mais associada a disputas morais e narrativas simplificadas do que a propostas concretas. “Em vez de planos estruturados, predominam respostas imediatistas, como o aumento do uso da força policial, que pouco dialoga com a complexidade dos problemas”, explica.
A jornalista afirma que essa superficialidade se agrava quando se considera que muitos dos desafios da segurança pública ultrapassam fronteiras nacionais, como no caso do tráfico de drogas. Para ela, o debate político raramente incorpora a necessidade de cooperação internacional ou soluções sistêmicas. O que se observa é um ambiente de polarização, com pouca abertura para diálogo e construção conjunta de alternativas.
Ao mesmo tempo, a jornalista ressalta que a forma como a segurança pública é comunicada nas campanhas pode ser decisiva. Em um cenário de divisão política, uma parcela de indecisos no eleitorado pode ter um papel determinante. “Para esse grupo, a percepção sobre segurança, diretamente ligada ao cotidiano e ao sentimento de medo, pode influenciar o voto”, afirma.

Em complemento, Oliveira reflete sobre o papel do jornalismo e da academia nessa discussão. “Apesar da ascensão das redes sociais, a grande mídia ainda influencia o debate. No entanto, a cobertura muitas vezes é problemática, contribuindo para uma má compreensão do tema. É essencial que ela atue com responsabilidade, especialmente em relação aos direitos humanos”, pontua.
Já sobre as universidades ela ressalta que, apesar de a academia ter muito a oferecer, é fundamental que as pesquisas sejam comunicadas de forma acessível. “Muitas pessoas, como minha mãe, não leem relatórios acadêmicos, mas têm preocupações sobre segurança. Precisamos traduzir esse conhecimento para que chegue a quem realmente precisa”, completa Cecília.
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Diversidade e segurança pública
Um dos pontos centrais no debate sobre segurança pública é a diversidade e a diversidade. No Brasil, estudos revelam que pessoas negras têm até 2,3 vezes mais risco de morrer por homicídio.
Nesse sentido, a jornalista Cecília Oliveira enfatiza a importância da diversidade no debate sobre segurança pública, especialmente em um contexto como o da Brazil Conference, que recentemente elegeu Merlim Batista como a primeira mulher negra na presidência de comunicação.
A partir disso, ela ressalta que os problemas de segurança são multifatoriais, exigindo que as soluções sejam construídas a partir de diferentes perspectivas. A presença de vozes variadas não apenas enriquece a discussão, mas também aumenta as chances de se chegar a soluções eficazes para os desafios enfrentados pela sociedade.
Para ela, a diversidade de opiniões permite uma compreensão mais abrangente do cenário, em que cada voz representa um aspecto da realidade. Com isso, Oliveira argumenta que, ao unir diferentes perspectivas, conseguimos formar um quadro mais completo, essencial para abordar questões complexas como a segurança pública.
Debate na Brazil Conference pede soluções estruturais
O painel “Defendendo a Ordem e Garantindo Progresso: os desafios da segurança pública e o combate ao crime organizado”, realizado em 29 de março na Brazil Conference reuniu diferentes três especialistas. Além da jornalista Cecília Oliveira, participaram do debate a advogada e socióloga Carolina Ricardo, o promotor de Justiça do Estado de São Paulo Lincoln Gakiya e o ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) Rodrigo Pimentel. A mediação foi de Samuel Knijnik.
Em sua fala, Oliveira destacou que as operações policiais mais visíveis cobrem apenas uma pequena parte do problema, enquanto facções e milícias se fortaleceram ao longo de décadas, sobretudo nas dimensões política e econômica.
Esse diagnóstico dialoga com a análise de Pimentel, que apontou o Rio de Janeiro como um cenário próximo a um conflito armado não internacional. Para ele, a centralidade da polícia não resolve o problema e ainda expõe moradores a riscos constantes. A maioria dos cidadãos nas periferias brasileiras, onde as polícias costumam atuar de forma ostensiva, é de pessoas negras. Já Carolina Ricardo ressaltou o medo como algo generalizado na população e defendeu a ampliação do olhar para além do domínio territorial, incluindo mercados ilícitos menos visíveis.
Por sua vez, Gakiya reforçou que a segurança pública envolve, para além das polícias, áreas como saúde, educação e urbanismo, e alertou para a infiltração do crime organizado no Estado. Oliveira complementou a análise ao destacar que milícias e facções operam hoje de forma semelhante, diversificando suas atividades.
O consenso entre os participantes é claro: o Brasil já conhece seus problemas, mas ainda falha em transformá-los em soluções estruturais.
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