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Trends das redes sociais desvalorizam estética negra

“Se falamos de trends de ‘garotas limpas’ que não tem mulheres negras, indígenas e não-brancas, o que dá a entender é que essas mulheres não são limpas”, diz cientista social
Imagem mostra algumas trends da internet.

Foto: Alma Preta

23 de junho de 2023

“Coisas que passam um ar de sujeira”, “Clean girl aesthetic”, “Me mande uma mensagem anônima”, “Coisas que não são elegantes”. Todos os dias, novas trends surgem na internet e engajam milhares de pessoas nas mais diferentes redes sociais. Estimativas do Google mostram que os conteúdos viralizados nunca alcançaram popularidade tão rapidamente quanto nos últimos anos, em especial devido à pandemia que obrigou boa parte da população mundial a ficar em casa.

Não é possível identificar a raiz exata das trends, mas há uma máxima: elas normalmente não valorizam a estética e a cultura negras. Existem, inclusive, várias que podem fomentar ataques racistas, como a popular opção de “me mande uma mensagem anônima”, recentemente viralizada no Instagram.

“Vi todo mundo da minha sala fazendo e achei que poderia ser divertido. Quando abri a caixinha para ver o que tinham me mandado, havia vários xingamentos de ‘macaca’, ‘cabelo de bombril’, ‘vai lavar a pele com água sanitária’ ou ‘volta para a África’. Fiquei horrorizada”, conta a estudante Michelle Aparecida, de 17 anos.

Trends de internet não são feitas para mulheres negras

Apesar de vinda da estética de mulheres negras, uma das trends que foi apropriada e logo passou a excluir a feminilidade preta é a “clean girl aesthetic” (estética de garota limpa, na tradução livre), que mostra um visual mais natural, sem tanta maquiagem e com o rosto mais exposto devido ao cabelo preso para trás.

A cientista social e criadora de conteúdo Joana Victória salienta que a viralização da estética clean girl ignora mulheres não-brancas. Com isso, a detentora da página Preta Potência acredita que mesmo inconscientemente a trend colabora com o racismo.

“A partir do momento que temos trends de mulheres em que não vemos mulheres negras e indígenas inseridas, a gente já pode assemelhar isso a uma forma de padronização de mulheres brancas”, elabora.

“Se falamos de uma trend de ‘garotas limpas’ que não tem mulheres negras, indígenas e não-brancas, o que dá a entender é que essas mulheres não são limpas. Que são sujas. Que não possuem os cabelos adequados ou uma pele adequada para essa trend. Logo, há muita seletividade nessas trends”, completa a cientista social.

Sujeira?

Amina Bawa, jornalista, mestre em Cultura e Comunicação e uma das criadoras da página Brasil Mood, enfatiza que o racismo estrutural ocorre de maneira muito fluida, inclusive na internet, terra de ninguém quando se fala de trends que viralizam diariamente.

“Essa ideia de sujeira, a qual os povos negros ainda são associados, é muito estranha, pois o povo escravizado que veio para o Brasil é um povo tradicionalmente muito limpo, com muito contato com a água e com a organização. Logo, essas manifestações nas redes sociais mostram o quanto ainda se tem no inconsciente coletivo as marcas do racismo”, avalia.

A estudante Michelle Aparecida relata que, como adolescente, é comum estar inteirada das trends de internet, em especial, do Tik Tok e do Instagram. Mas, após os ataques racistas recebidos anonimamente, ela passou a enxergar as tendências de outra forma.

“Eu me senti suja com os comentários. E aí comecei a reparar nas criadoras de conteúdo que eu seguia. Tudo que era legal no meu bairro [Brasilândia/SP], quando eu via na internet, ou não era elegante, ou passava ar de sujeira, ou não era clean girl, ou era brega. Trança não é elegante. Unha decorada passa ar de sujeira. O cabelo preso com gel só fica bom em mina branca”, relembra.

“Foi aí que eu percebi que, na verdade, a gente que mora em comunidade não pode nem inventar nada que as meninas ricas começam a criticar. Minha mãe falou isso. Tudo que é nosso, que representa a favela, a negritude, eles acham um jeito de fazer todo mundo acreditar que é feio, brega e sujo”, destaca a estudante.

Parece inocente, mas não é

A adolescente conta que em vários vídeos de consultoras de moda que ela seguia no Tik Tok, as roupas que ela tem eram usadas como exemplo de como não se vestir. “Para mim, ficou muito claro que eu sou deselegante, suja, e brega”, diz Michelle.

“Existem trends que falam do ‘olha o que eu esperava e olha o que eu recebi’ e nessas a gente tem visto muitas imagens de meninas descabeladas, meninas pretas, homens pretos magros, em que se reforça a hipersexualização do corpo negro masculino, dizendo que o homem negro é sempre forte e másculo e quando ele é mais magro, ele não é querido”, comenta Amina Bawa.

Joana avalia ainda outras coisas nas redes sociais que propagam, de forma muito racista, tudo que é relacionado à população negra. Como exemplo, a cientista social enfatiza o uso de gifs e figurinhas que mostram pessoas negras – a fim de causar risadas – nos piores ângulos, sendo ridicularizadas, sem os dentes, entre outras coisas.

“Sempre que a gente vê esse tipo de figurinha ou gif de ridicularização de algo, são pessoas negras em situação de rua, de vulnerabilidade, sejam homens ou mulheres”, pondera.

Responsabilidade sobre o conteúdo criado

Joana Victória reforça que os criadores de conteúdo devem se responsabilizar pelo conteúdo compartilhado e se posicionar de maneira antirracista em seus respectivos perfis, independentemente de ter ocorrido um caso de racismo ou não. Para a cientista social, é imperativo que os seguidores saibam que tipo de influenciador eles estão acompanhando.

“Acho que isso deveria ficar muito evidente nos discursos do dia a dia. E é necessário ainda politizar seus discursos, saindo do campo superficial na sua criação de conteúdo, mesmo que seja sobre maquiagem, cabelo, roupas. É fundamental racializar e politizar as coisas, mas sei que é difícil para criadores que não são negros ou indígenas”, avalia.

Amina Bawa, por sua vez, diz que a criação de conteúdo pode ir além das trends, traduzindo o mundo acadêmico de forma acessível para o público geral. Outro ponto que a jornalista compreende como essencial é salientar que a luta antirracista não é exclusiva para o povo preto.

“Perfis de grande notoriedade, quando utilizam do antirracismo para autodefinição, também devem aderir disso no dia a dia. Não é dar voz, pois já temos voz. É abrir espaços. Consumir de outras pessoas”, destaca.

Caminho contrário

“Eu passei a consumir gente parecida comigo. Criadores que me ensinam a me vestir com o que eu tenho em mãos. Mulheres que fazem penteados com tranças. Até na escola eu passei a me aproximar de outras meninas negras e professoras negras. E principalmente, passei a aderir às trends que façam sentido com a minha realidade”, comenta Michelle Aparecida.

Amina Bawa exemplifica algumas trends que vão pelo caminho oposto ao racismo, como as relacionadas aos cuidados com o cabelo tipo 4 (crespo), penteados protetores – como tranças e dreads –, e também perfis que associam o funk à filosofia e valorizam os saberes negros e toda intelectualidade da diáspora africana.

“Existe um mundo além das trends, existe o conceitual, então, o que podemos criar para disseminar o conhecimento para a população negra, vale a pena investir e influenciar. A globalização é fundamental para esse processo”, finaliza a mestre em Cultura em Comunicação.

Leia também: ‘Como os algoritmos contribuem com o racismo e a lesbofobia?’

  • Caroline Nunes

    Jornalista, pós-graduada em Linguística, com MBA em Comunicação e Marketing. Candomblecista, membro da diretoria de ONG que protege mulheres caiçaras, escreve sobre violência de gênero, religiões de matriz africana e comportamento.

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