Em 18 de maio chega às livrarias brasileiras a primeira obra da escritora porto-riquenha Mayra Santos-Febres lançada no país. Intitulado “Fé disfarçada”, o romance é publicado no Brasil pela Pallas Editora e tem tradução de Josane Silva Souza.
O livro acompanha Martín Tirado, historiador porto-riquenho especializado em preservação digital de documentos, que chega à Universidade de Chicago para trabalhar no Centro de Pesquisas Históricas de Estudos Latino-Americanos.
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Ali, conhece Fé Verdejo, historiadora negra de projeção internacional, estudiosa da escravidão feminina nas Américas dos séculos XVII e XVIII. Entre os dois, nasce uma relação de desejo oblíquo e ritualístico: encontros marcados exclusivamente para a noite de 31 de outubro, véspera de Todos os Santos.
Narrado em primeira pessoa por Martín, o romance acompanha o estado de vigília e expectativa do historiador nos dias que antecedem cada ritual. Enquanto escreve um relato que pode não sobreviver à noite, ele se confronta com o peso do desejo, a memória da diáspora africana e a ferida histórica da escravidão — inscrita, literalmente, na pele de Fé, em queloides que formam um alfabeto silencioso.
No livro, a escolha da data não é arbitrária. Samhain, o Ano-Novo das culturas pagãs celtas que originou o Halloween, é o momento em que o véu entre os vivos e os mortos se afina. A autora sobrepõe camadas de tempo para investigar quem tem o direito de narrar a história e de que matéria essa narração é feita. Fé Verdejo se disfarça não para escapar de si mesma, mas para se conectar com a ancestralidade que carrega.

“O catálogo da Pallas ainda é pequeno na representação da autoria afro-caribenha — e é justamente por isso que o lançamento de Fé disfarçada tem um significado especial para nós. Mayra Santos-Febres é uma das vozes mais importantes da literatura da região. Em sua obra, ela constrói personagens femininas potentes a partir das quais investiga sexualidade, desejo e as marcas do racismo e da escravidão”, afirma Cristina Fernandes Warth, editora da Pallas.
Em 152 páginas, Mayra constrói um romance que se alimenta de fontes primárias reais — narrativas de pessoas escravizadas como Olaudah Equiano, Frederick Douglass, Harriet Jacobs e Mary Prince —, sem abrir mão da ficção como estratégia deliberada de memória e resistência.
A autora informa que parte dos documentos que embasam o livro foi recombinada, traduzida ou francamente inventada. O arquivo também é criação.