Mais do que uma data histórica, o 13 de maio, data que marca a assinatura da Lei Áurea, em 1888, convida a uma revisão crítica sobre o que, de fato, significou a abolição da escravidão no Brasil.
É nesse ponto que ecoa a provocação presente na música “14 de Maio”, de Lazzo Matumbi — que questiona o que aconteceu com a população negra no dia seguinte à assinatura da Lei Áurea e evidencia a ausência de políticas de reparação após a liberdade formal.
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A partir dessa perspectiva, a Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN) fez uma curadoria com dez filmes e documentários disponíveis, on-line, no YouTube e na Plataforma Todesplay.
Ao reunir essas produções, a associação propõe uma reflexão crítica sobre o Brasil contemporâneo, evidenciando que a abolição da escravidão não significou o fim das desigualdades raciais, mas sim um período marcado pelo abandono e pela marginalização sistemática da população negra.
Os filmes ajudam a compreender o presente e a pensar no futuro, reforçando a importância de ampliar o debate sobre reparação em um país onde o racismo estrutural ainda define oportunidades e trajetórias.
Confira a seguir:
1. “Alma no Olho” (1973) – YouTube
Dirigido por Zózimo Bulbul, o curta é uma poderosa metáfora visual sobre a experiência negra no Brasil. Por meio da linguagem corporal, o filme conecta ancestralidade africana, colonização e o processo de libertação, propondo uma reflexão sobre identidade e consciência.
2. “Abolição” (1988) – YouTube
Também dirigido por Zózimo Bulbul, o documentário investiga o que aconteceu com a população negra no século seguinte à assinatura da Lei Áurea. Ao evidenciar a ausência de políticas públicas e o silenciamento histórico, o filme se conecta diretamente à ideia de “falsa abolição” e à urgência do debate sobre reparação histórica.
3. “Família Alcântara” (2006) – Plataforma Todesplay
O documentário, produzido por Lilian Solá Santiago e Daniel Solá Santiago, acompanha a trajetória de uma família de origem angolana escravizada no Brasil e sua resistência ao longo dos séculos. A preservação de práticas culturais evidencia a força da memória e da ancestralidade como formas de reparação simbólica.
4. “Por Gerações” (2019) – Plataforma Todesplay
O curta-metragem foi dirigido por Leila Xavier e destaca o legado de Iyá Nitinha e a continuidade das tradições afro-brasileiras, especialmente no campo religioso. Ao mostrar a permanência dessas práticas, a obra reforça a importância dos territórios de resistência cultural.
5. “Filhas de Lavadeiras” (2019) – YouTube
Produzido por Edileuza Penha, curta apresenta histórias de mulheres negras que acessaram a educação graças ao esforço de suas mães. Ao evidenciar trajetórias de ascensão e resistência, o filme aponta caminhos possíveis para o futuro.
6. “Guia das Revoltas Negras“ (2020) – Plataforma Todesplay
A produção percorre diferentes dimensões da insurgência negra, abordando desde práticas de saúde até religiosidades e tecnologias. Ao evidenciar formas históricas de resistência, a série reforça que a luta por direitos sempre esteve presente. A produção foi realizada e dirigida pelo coletivo Lentes Malungas, composto pelas cineastas Aline Rocha, Anna Raquel e Thayna Lemos.
7. “Confluências” (2020) – Plataforma Todesplay
Apresenta o pensamento de Antônio Bispo dos Santos, propondo a “confluência” como união de saberes e territórios em uma lógica de ancestralidade e compartilhamento. Ao valorizar modos de vida marginalizados, o filme dialoga com a reparação histórica ao afirmar práticas que resistem às desigualdades do pós-abolição.
8. “Utopia” (2021) – Plataforma Todesplay
Dirigido por Rayane Penha, o documentário acompanha a trajetória de uma filha que busca reconstruir a trajetória do pai, um garimpeiro que morreu no exercício do trabalho. A partir de arquivos pessoais, como fotos, vídeos e cartas enviadas à família, o filme revela as condições duras e as vivências no garimpo, propõe um olhar sensível sobre vidas atravessadas por desigualdades estruturais, e evidencia como a precarização do trabalho e a falta de acesso a direitos dialogam diretamente com o legado do pós-abolição, reforçando a urgência da reparação histórica no país.
9. “Lebara – As Pombagiras protegem todo mundo, mas defendem principalmente as mulheres e as afeminadas” (2021) – Plataforma Todesplay
O curta documental dirigido por Maja Vargas e Patrícia Guimarães, que explora a figura da Pombagira no universo afro-brasileiro. Ao destacar seu papel como entidade de proteção e acolhimento, especialmente para mulheres e pessoas afeminadas, o filme evidencia as espiritualidades afro-brasileiras como espaços de resistência e cuidado. Nesse sentido, a obra se conecta ao debate sobre reparação histórica ao reafirmar saberes e práticas historicamente marginalizadas, que seguem fundamentais diante das desigualdades herdadas do pós-abolição.
10. “Pretas da História” (2023) – Plataforma Todesplay
Dirigida e roteirizada por Danielle Valentim, a série resgata trajetórias de mulheres negras apagadas pela narrativa oficial, como Dandara dos Palmares e Tereza de Benguela. Ao reposicionar essas figuras, a obra contribui para a reconstrução da memória coletiva e para o reconhecimento de protagonismos historicamente invisibilizados.
Ao reunir essas produções, a proposta é provocar uma reflexão crítica sobre o Brasil contemporâneo, evidenciando que a abolição da escravidão não significou o fim das desigualdades raciais. Pelo contrário, inaugurou um período marcado pela ausência de políticas de inclusão e pela marginalização sistemática da população negra.
Mais do que revisitar o passado, esses filmes ajudam a compreender o presente e a pensar no futuro. Em um país onde o racismo estrutural ainda define oportunidades e trajetórias, ampliar o debate sobre reparação histórica é fundamental para construir uma sociedade mais justa e igualitária.
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