As 16 indicações de “Pecadores” ao Oscar colocam novamente em pauta a discussão sobre representatividade racial na indústria audiovisual internacional. Com elenco majoritariamente negro e uma narrativa que une experiências e subjetividades da diáspora, o longa tornou-se símbolo de avanço no reconhecimento do cinema negro em escala global.
A presença do filme na principal premiação do cinema contrasta com o cenário vivido há uma década. Em 2016, a cerimônia foi marcada pela ausência de artistas negros entre os indicados nas categorias de atuação, episódio que impulsionou o movimento #OscarsSoWhite e evidenciou desigualdades estruturais na indústria cinematográfica. Dez anos depois, uma produção composta majoritariamente por atores negros disputa a grande maioria das estatuetas.
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
Para Tatiana Carvalho Costa, presidente da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN), o reconhecimento internacional de obras protagonizadas por artistas negros representa um avanço simbólico importante, mas também evidencia lacunas persistentes na valorização de cinematografias negras fora do eixo hegemônico, especialmente no Brasil.
“É uma vitória de parte do cinema negro nos EUA. Não é uma vitória, ainda, do cinema negro independente por lá e nem nas diásporas afro-atlânticas. Mas é um avanço simbólico para nossa autoestima coletiva e para, quem sabe, abrir caminhos para realizadores negros tanto no Oscar quanto em outros espaços”, afirma a presidente da APAN em entrevista à Alma Preta.
“Embora o destaque de ‘Pecadores’ contribua para ampliar visibilidade e oportunidades no cenário internacional, o cinema negro brasileiro segue enfrentando desafios históricos relacionados a financiamento, distribuição e acesso a espaços de consagração”, acrescenta.
“A premiação internacional não funciona apenas como termômetro das transformações e conflitos em curso na indústria, mas também serve como lembrete das desigualdades que ainda limitam a circulação de narrativas negras produzidas no país.”
Concentração do mercado e perspectivas para o audiovisual negro
O setor do audiovisual brasileiro depende intensamente de políticas públicas que ainda não decolaram plenamente e enfrenta esvaziamento dos investimentos privados externos, especialmente das plataformas de streaming, em um contexto de disputa por regulação do vídeo sob demanda (VoD).
As políticas para distribuição e exibição dos filmes independentes brasileiros, onde se inclui a maior parte dos cinemas negros, sofrem com assimetria que beneficia poucos grupos econômicos. Mais de 80% da ocupação das salas de cinema no Brasil e mais de 90% dos catálogos das principais plataformas estrangeiras consumidas no país não são de filmes brasileiros, muito menos de filmes negros brasileiros.
A APAN observa ainda uma diminuição de ações voltadas para a promoção de narrativas negras por parte das plataformas de streaming, tanto na produção quanto na contratação de obras prontas. Desde a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e no contexto da regulação do VoD no Congresso Brasileiro, parte do setor tem se alinhado ao discurso supremacista vindo dos EUA, com cancelamento de departamentos inteiros de Diversidade e Inclusão.
A associação defende que o cinema negro brasileiro depende de políticas públicas de governo em diferentes áreas para fazer frente à agressividade da indústria estadunidense no setor. O objetivo, segundo a entidade, é alcançar o que seria “o maior prêmio: a presença de múltiplas narrativas negras nas memórias afetivas da população brasileira ao longo de gerações”.
Diante do cenário, a indicação de “Pecadores” reforça a urgência de ampliar debates sobre diversidade e equidade no cinema mundial, ao mesmo tempo que evidencia a necessidade de fortalecer estratégias que permitam ao audiovisual negro brasileiro ocupar espaços de visibilidade e premiação em escala internacional.