O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), afirmou na segunda-feira (11) que pretende dar celeridade à votação de projetos de lei que tratam da proteção de crianças e adolescentes nas redes sociais.
O tema ganhou atenção da Câmara após viralizar um vídeo em que o criador de conteúdo Felipe Bressanim, conhecido como Felca, expõe casos de exploração, adultização e sexualização de crianças e adolescentes na internet.
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
“Esse é um tema urgente, que toca no coração da nossa sociedade. Na Câmara, há uma série de projetos importantes sobre o assunto. Nesta semana, vamos pautar e enfrentar essa discussão”, disse Motta, em publicação no X (antigo Twitter).
Deputados de direita ameaçam obstruir
A Câmara dos Deputados recebeu 32 Projetos de Lei (PL) voltados ao combate de crimes contra crianças e adolescentes na internet. Os PLs apresentados tratam da criminalização da adultização digital, a responsabilização de pais ou responsáveis e o reconhecimento da adultização precoce como forma de violência psicológica.
A exemplo do PL 3867/2025, de autoria da deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ), que impõe regras às plataformas digitais para conteúdos com participação de crianças e adolescentes, como a comunicação direta com conselhos tutelares em caso de violações de direitos.
🚨 O Brasil assistiu ao vídeo do @Felcca sobre adultização e os impactos da monetização de conteúdo de crianças e as redes de ped0filia. Algo que movimentos sociais já denunciavam também. Nossas crianças não estão protegidas no ambiente digital.
— Talíria Petrone (@taliriapetrone) August 11, 2025
Para somar-se aos projetos que já… pic.twitter.com/erO3mGVOeE
Também há projetos que preveem obrigações para as empresas responsáveis pelas plataformas digitais, como controle parental, verificação de idade, canais de denúncia e regras de transparência sobre o impacto de algoritmos em conteúdos voltados ao público infantil.
Mesmo com a mobilização no Congresso, deputados do partido Novo e do Partido Liberal (PL) declararam que avaliam obstruir a votação caso os textos incluam dispositivos que considerem “censurar à internet”. A informação foi divulgada pelo G1.
O deputado e líder do PL, Sóstenes Cavalcante, informou que as propostas legislativas não terão o apoio da legenda caso apresentem qualquer sinal de “censura”. O deputado Marcel Van Hattem, líder do Novo, declarou que os projetos não devem ser usados para restringir a atuação política.
A deputada federal e líder do PSOL na Câmara, Erika Hilton, criticou as declarações dos parlamentares e ressaltou a importância de pautar a exploração infantil no Congresso.
“Com a Câmara prestes a, finalmente, fazer alguma coisa pra impedir a pornografia infantil e a exploração de menores nas redes sociais, a preocupação dos bolsonaristas é que isso represente alguma forma de censura. Que preocupação é essa?”, declarou a parlamentar no X.
Projeto do Executivo quer regular big techs
O ministro da Casa Civil, Rui Costa, afirmou, nesta terça-feira (12), que o governo federal pretende apresentar em breve um projeto de lei que visa regular e punir big techs pela divulgação de conteúdos criminosos nas redes sociais.
Em entrevista à rádio Alvorada FM, do município de Guanambi (BA), Costa declarou que as plataformas digitais não podem estimular ou facilitar crimes contra pessoas vulneráveis, como crianças, adolescentes e idosos.
Exposição à violência
Segundo o levantamento “Mapeamento dos Fatores de Vulnerabilidade de Adolescentes Brasileiros na Internet”, da ONG ChildFund, cerca de 9,2 milhões de adolescentes brasileiros já sofreram algum tipo de violência sexual on-line, com ou sem interação direta de um agressor. O número corresponde a aproximadamente metade dos adolescentes brasileiros.
O estudo evidencia que apenas 35% dos adolescentes recebem supervisão parental durante o uso das redes sociais. Em todo o mundo, há cerca de dez casos por segundo de captura, divulgação ou exposição não autorizada de imagens e vídeos de conteúdo sexual.
A pesquisa indica que o risco de exposição à violência sexual on-line aumenta de acordo com a idade, em decorrência do aumento do tempo de uso da internet. Jovens de 17 e 18 anos têm até 1,3 vezes mais chances de sofrer violência do que adolescentes de 15 anos.
Em entrevista à Alma Preta, o presidente executivo do ChildFund Brasil, Maurício Cunha, explica que a diferença na exposição a partir da idade também está relacionada a uma combinação de fatores comportamentais, sociais e tecnológicos.
“À medida que os adolescentes se aproximam da maioridade, eles tendem a ampliar sua presença digital, explorando novas plataformas, interagindo com públicos mais diversos e, muitas vezes, com menor supervisão adulta. Isso os expõe a riscos mais complexos, como aliciamento, discursos de ódio, fraudes e exploração sexual”, destaca.
O diretor conta que, entre as principais orientações, a entidade destaca que, para denunciar e remover conteúdos abusivos da internet, os responsáveis e familiares devem documentar o conteúdo, denunciar nos canais específicos das plataformas, realizar a denúncia pelo Disque 100 e registrar o boletim de ocorrência.
“A internet pode ser um espaço de aprendizado e conexão, mas precisa ser segura para todos, especialmente para crianças, que é o público mais vulnerável, pois ainda não desenvolveu o arcabouço psíquico para lidar com o relacionamento on-line”, ressalta.