PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

‘Sem recursos, não há política de igualdade’: deputada explica PEC que cria fundo para igualdade racial

Em entrevista, a deputada federal Dandara Tonantzin defende que o fundo consolida a luta histórica do movimento negro e assegura financiamento de políticas públicas
A deputada federal Dandara Tonantzin (PT-MG).

A deputada federal Dandara Tonantzin (PT-MG).

— Reprodução/Câmara de Deputados

24 de setembro de 2025

A Câmara dos Deputados instalou, no dia 16 de setembro, a comissão especial responsável por analisar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 27/24, que cria o Fundo Nacional de Reparação Econômica e de Promoção da Igualdade Racial.  

A medida prevê repasses anuais de R$ 1 bilhão durante 20 anos, totalizando R$ 20 bilhões, com possibilidade de complementação por doações internacionais.

Quer receber nossa newsletter?

Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!

Com a relatoria do deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP) e a presidência da deputada Benedita da Silva (PT-RJ), a comissão especial terá 40 sessões para elaborar o texto final da proposta. 

Em entrevista à Alma Preta, a deputada federal Dandara Tonantzin (PT-MG) — que integra a comissão — informou que, durante esse processo, o grupo pretende priorizar o diálogo com movimentos negros, pesquisadores e ativistas, garantindo que a construção do fundo seja coletiva e atenda às demandas históricas de reparação.

Confira a seguir a entrevista completa:

Alma Preta: Qual o objetivo do Fundo Nacional de Reparação Econômica e de Promoção da Igualdade Racial?

Dandara Tonantzin: A luta de reparação histórica é uma luta há mais de 100 anos do movimento negro brasileiro. E essa é uma bandeira que, sem dúvida nenhuma, foi estourada em prioridade com o passar do tempo, porque nós estamos percebendo que sem recursos, sem finanças, não tem política pública para produzir promoção da igualdade racial que fique de pé.

Então, foi ficando cada vez mais nítido para nós que não bastou só criar o Ministério da Igualdade Racial, o Ministério dos Direitos Humanos, criar o Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (SINAPI) porque falta ainda financiamento para estruturar essas políticas. 

É uma reparação econômica, não do ponto de vista individual, mas uma reparação para ter dinheiro para a política pública transformar a vida das pessoas. 

AP: Qual é a sua expectativa em relação à tramitação e possível aprovação do fundo?

Dandara: A minha expectativa é a gente construir algo que seja realmente histórico, um marco nas políticas de promoção da igualdade racial. Que a gente possa aprovar aqui na Câmara um bom texto. Nós sabemos que as mediações vão precisar acontecer para a gente ter uma maioria de votos para a aprovação da PEC.

Espero que a gente consiga colocar objetivamente valores, prazo, mecanismos de participação, gestão e monitoramento desse fundo. E que seja realmente um valor que dê uma robustez às políticas de igualdade racial.

AP: Quais desafios você acredita que a proposta enfrentará durante a tramitação?

Dandara: A tramitação da proposta, ela prevê, inclusive, que o fundo seja administrado por uma instituição financeira federal, que pode ter natureza privada, mas que vai financiar projetos de promoção cultural, social e econômica da população negra. 

E nós sabemos que alguns setores da extrema-direita, eles partem do pressuposto que o racismo já não existe na nossa sociedade. Então, eles são naturalmente contra políticas de promoção da igualdade, de combate ao racismo. Nosso desafio vai ser atuar no convencimento. 

AP: Qual é a importância de tornar o fundo uma norma constitucional em vez de um projeto de lei federal ou estadual?

Dandara: Nós aprendemos a duras penas. Toda vez que tem um avanço da extrema-direita os nossos corpos, a nossa vida, os nossos direitos são um grande alvo. A mão é perdida, ela é muito bem endereçada. Então, deixar na Constituição é também um mecanismo de assegurar que essa política vai ter uma durabilidade, vai ter um processo de implementação e não vai ficar tão frágil, onde uma Medida Provisória (MP) derrubaria se fosse um projeto de lei.

AP: Considerando a aprovação do fundo, qual mudança você espera ver a partir da implementação?

Dandara: Dinheiro para executar uma casa de igualdade racial, para a gente ter um lugar de acolhimento às vítimas de racismo. Dinheiro para impulsionar os projetos ligados à cultura afro-brasileira. Dinheiro para a gente ter política de assistência estudantil e combater o processo de exclusão escolar. Dinheiro para a gente incentivar saúde, esporte, cultura e lazer para a população negra ter o que não tem hoje.

Apoie jornalismo preto e livre!

O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de financiamento coletivo.

Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor.

O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

  • Verônica Serpa

    Formada em Jornalismo pela UNESP e caiçara do litoral norte de SP. Acredito na comunicação como forma de emancipação para populações tradicionais e marginalizadas. Apaixonada por fotografia, gastronomia e hip-hop.

Leia mais

PUBLICIDADE

Destaques

Cotidiano