Para as matrizes africanas, sobretudo para a Umbanda, a morte é um pacto ancestral. Por mais irônico que pareça, é ela quem permite a perpetuação da vida por meio da memória. Diferente das religiões cristãs, a morte não é lida como um ponto final, mas como um episódio que transforma a existência. Não se trata de continuar a vida como era e sim de manter a comunicação, o relacionamento e a presença da pessoa que morreu em uma nova realidade.
Aquele que parte permanece vivo não apenas na memória, mas por meio dela. A partir dessa condição, para além dos requisitos básicos de sobrevivência, o elemento fundamental da vida para quem se tornou antepassado é a memória. É por meio dela que sua presença continua a habitar o mundo dos vivos.
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Não há, portanto, um paraíso ou um lugar comparável às noções de céu ou inferno. Não há jardins verdejantes nem um “nosso lar”. O território é o mesmo, o que muda é a realidade. Assim, uma das perguntas centrais das religiões, “para onde vamos quando morremos?”, encontra outra resposta nas tradições de terreiro: continuamos convivendo com os vivos, mas a partir de uma dimensão espiritual.
Isso não significa que as pessoas de terreiro não sintam tristeza com a morte dos seus. O que existe é a consciência de uma realidade empírica: ainda que sob outra forma, a pessoa permanece entre nós. Essa compreensão rompe com a lógica do medo do juízo final e com a expectativa de um lugar no céu. Afinal, os processos seguem acontecendo mesmo depois da morte, e a pessoa continua a existir. Suas vontades, hábitos e sonhos permanecem, e, dependendo da relevância que teve em vida, pode ultrapassar a condição de antepassado e tornar-se ancestral.
O ancestral não apenas é lembrado e reverenciado pelos seus. Ele retorna, manifesta-se no corpo dos que ficam e continua tecendo relações. É o caso dos Pretos e Pretas-Velhas, Exús e Pombagiras, Caboclos e Caboclas, Boiadeiros e Boiadeiras, entre tantos outros que se fazem presentes no chão dos terreiros. Embora óbvio, é importante ressaltar que nada muda com a morte no que diz respeito à identidade. Se a pessoa era negra em vida, permanece negra enquanto antepassado; se era branca, continua branca. Um exemplo disso ajuda a compreender melhor: ao contrário do que sugerem certas perspectivas do espiritismo, é impossível que alguém morra como um padre português e, enquanto ancestral, passe a se autodefinir como um indígena brasileiro. A morte não apaga quem se é: identidade, memória e pertencimento permanecem vivos após a travessia.
Pensar nessas relações nos leva a compreender que o aprendizado não se encerra com a morte. Os espíritos continuam a aprender, e não é porque morreram que, de repente, tornam-se sábios, seres de luz, mestres ascencionados ou avatares. A verdade é justamente o oposto: continuam em processo de vida e, consequentemente, de erro e aprendizado.
O mundo dos mortos (ku mpemba) é um espaço-tempo que abriga o início invisível e o fim visível de todas as coisas. Lá residem os ancestrais (bakulu), que mantêm comunicação com os vivos e asseguram o equilíbrio do coletivo. A cosmologia kongo compreende que a horizontalidade das relações é o que sustenta a vida da comunidade, e essa linha horizontal conecta o mundo visível (nza ya mwîni) ao invisível (nza ya mpîmpa). Quando esses laços se rompem, é preciso restaurá-los por meio de ritos, pois a desarmonia entre vivos e mortos compromete toda a estrutura social e espiritual.
Esse ciclo da vida se manifesta em consonância com a cosmologia banto, representado pelo cosmograma bakongo, que expressa o movimento contínuo do ser no mundo. A existência é compreendida por meio de movimentos e encruzilhadas, como o curso do sol, que nasce, se desenvolve até seu ponto mais alto ao meio-dia e depois inicia a descida em direção ao fundo do mar. Esse movimento, conhecido como dingo dingo, celebra a possibilidade do retorno ao lugar de origem, ainda que sempre transformado.
Celebrar a morte, portanto, é uma prática tradicional e cotidiana na Umbanda, mas, além disso, é também um exercício de cidadania e resistência. O processo de tornar-se ancestral começa ainda em vida e se reafirma nos ritos que ocorrem, de forma coletiva, entre vivos e mortos, especialmente nos cemitérios, tidos como territórios sagrados conhecidos como Kalunga.
No calendário popular, o dia 2 de novembro é dedicado à celebração do “Povo da Kalunga”, momento em que comunidades de terreiro reafirmam a continuidade da vida por meio da memória. Diante disso, recentemente, o Poder Judiciário brasileiro consolidou o entendimento de que essas cerimônias constituem expressões legítimas da liberdade de culto e não podem sofrer restrições arbitrárias. Tal reconhecimento reafirma que impedir ou limitar o direito de culto nesses espaços representa violação da Constituição Federal e perpetua práticas de racismo religioso. A decisão simboliza um avanço na efetivação da laicidade do Estado e garante que os povos de terreiro celebrem seus vínculos com a ancestralidade em seus próprios territórios simbólicos, onde a morte é compreendida como continuidade e presença, e não como fim.
Morrer, para as tradições de Umbanda, não é desaparecer, mas continuar a fazer parte da comunidade em outra forma de presença. É permanecer no tempo por meio da lembrança, do canto, da oferenda e da palavra. A morte, nesse horizonte, não é um ponto final, e sim o movimento que reitera a vida e a memória. Assim, celebrar os mortos é firmar os vivos, pois toda travessia de um corpo é também o retorno de uma história. É nessa amarração entre mundos que a Umbanda reafirma sua força: transformar o fim em continuidade, o silêncio em ponto cantado e a ausência em memória presente e viva.
Saravá os ancestrais!