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A morte é um pacto ancestral

Morrer, para as tradições de Umbanda, não é desaparecer, mas continuar a fazer parte da comunidade em outra forma de presença
Festa na Kalunga, realizada em 2024 no Cemitério São Pedro, na Vila Alpina, em São Paulo.

Festa na Kalunga, realizada em 2024 no Cemitério São Pedro, na Vila Alpina, em São Paulo.

— Tiago Torres

2 de novembro de 2025

Para as matrizes africanas, sobretudo para a Umbanda, a morte é um pacto ancestral. Por mais irônico que pareça, é ela quem permite a perpetuação da vida por meio  da memória. Diferente das religiões cristãs, a morte não é lida como um ponto final, mas  como um episódio que transforma a existência. Não se trata de continuar a vida como era e sim de manter a comunicação, o relacionamento e a presença da pessoa que morreu em  uma nova realidade. 

Aquele que parte permanece vivo não apenas na memória, mas por meio dela. A  partir dessa condição, para além dos requisitos básicos de sobrevivência, o elemento  fundamental da vida para quem se tornou antepassado é a memória. É por meio dela que sua presença continua a habitar o mundo dos vivos. 

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Não há, portanto, um paraíso ou um lugar comparável às noções de céu ou inferno. Não há jardins verdejantes nem um “nosso lar”. O território é o mesmo, o que muda é a  realidade. Assim, uma das perguntas centrais das religiões, “para onde vamos quando  morremos?”, encontra outra resposta nas tradições de terreiro: continuamos convivendo com os vivos, mas a partir de uma dimensão espiritual. 

Isso não significa que as pessoas de terreiro não sintam tristeza com a morte dos  seus. O que existe é a consciência de uma realidade empírica: ainda que sob outra forma,  a pessoa permanece entre nós. Essa compreensão rompe com a lógica do medo do juízo final e com a expectativa de um lugar no céu. Afinal, os processos seguem acontecendo mesmo depois da morte, e a pessoa continua a existir. Suas vontades, hábitos e sonhos permanecem, e, dependendo da relevância que teve em vida, pode ultrapassar a condição de antepassado e tornar-se ancestral. 

O ancestral não apenas é lembrado e reverenciado pelos seus. Ele retorna, manifesta-se no corpo dos que ficam e continua tecendo relações. É o caso dos Pretos e  Pretas-Velhas, Exús e Pombagiras, Caboclos e Caboclas, Boiadeiros e Boiadeiras, entre tantos outros que se fazem presentes no chão dos terreiros. Embora óbvio, é importante  ressaltar que nada muda com a morte no que diz respeito à identidade. Se a pessoa era negra em vida, permanece negra enquanto antepassado; se era branca, continua branca. Um exemplo disso ajuda a compreender melhor: ao contrário do que sugerem certas perspectivas do espiritismo, é impossível que alguém morra como um padre português e, enquanto ancestral, passe a se autodefinir como um indígena brasileiro. A morte não apaga quem se é: identidade, memória e pertencimento permanecem vivos após a  travessia. 

Pensar nessas relações nos leva a compreender que o aprendizado não se encerra com a morte. Os espíritos continuam a aprender, e não é porque morreram que, de repente,  tornam-se sábios, seres de luz, mestres ascencionados ou avatares. A verdade é justamente o oposto: continuam em processo de vida e, consequentemente, de erro e aprendizado

O mundo dos mortos (ku mpemba) é um espaço-tempo que abriga o início invisível e o fim visível de todas as coisas. Lá residem os ancestrais (bakulu), que mantêm  comunicação com os vivos e asseguram o equilíbrio do coletivo. A cosmologia kongo compreende que a horizontalidade das relações é o que sustenta a vida da comunidade, e essa linha horizontal conecta o mundo visível (nza ya mwîni) ao invisível (nza ya  mpîmpa). Quando esses laços se rompem, é preciso restaurá-los por meio de ritos, pois a desarmonia entre vivos e mortos compromete toda a estrutura social e espiritual. 

Esse ciclo da vida se manifesta em consonância com a cosmologia banto, representado pelo cosmograma bakongo, que expressa o movimento contínuo do ser no  mundo. A existência é compreendida por meio de movimentos e encruzilhadas, como o curso do sol, que nasce, se desenvolve até seu ponto mais alto ao meio-dia e depois inicia a descida em direção ao fundo do mar. Esse movimento, conhecido como dingo dingo, celebra a possibilidade do retorno ao lugar de origem, ainda que sempre transformado. 

Celebrar a morte, portanto, é uma prática tradicional e cotidiana na Umbanda, mas, além disso, é também um exercício de cidadania e resistência. O processo de tornar-se ancestral começa ainda em vida e se reafirma nos ritos que ocorrem, de forma coletiva,  entre vivos e mortos, especialmente nos cemitérios, tidos como territórios sagrados conhecidos como Kalunga.

No calendário popular, o dia 2 de novembro é dedicado à  celebração do “Povo da Kalunga”, momento em que comunidades de terreiro reafirmam a continuidade da vida por meio da memória. Diante disso, recentemente, o Poder Judiciário brasileiro consolidou o entendimento de que essas cerimônias constituem expressões legítimas da liberdade de culto e não podem sofrer restrições arbitrárias. Tal  reconhecimento reafirma que impedir ou limitar o direito de culto nesses espaços  representa violação da Constituição Federal e perpetua práticas de racismo religioso. A  decisão simboliza um avanço na efetivação da laicidade do Estado e garante que os povos  de terreiro celebrem seus vínculos com a ancestralidade em seus próprios territórios  simbólicos, onde a morte é compreendida como continuidade e presença, e não como fim.

Morrer, para as tradições de Umbanda, não é desaparecer, mas continuar a fazer parte da comunidade em outra forma de presença. É permanecer no tempo por meio da  lembrança, do canto, da oferenda e da palavra. A morte, nesse horizonte, não é um ponto  final, e sim o movimento que reitera a vida e a memória. Assim, celebrar os mortos é firmar os vivos, pois toda travessia de um corpo é também o retorno de uma história. É  nessa amarração entre mundos que a Umbanda reafirma sua força: transformar o fim em  continuidade, o silêncio em ponto cantado e a ausência em memória presente e viva. 

Saravá os ancestrais!

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Sacerdote e Pai-de-Santo de Umbanda do Terreiro Aruanda, em São Paulo. Mestre em Ciência da Religião pela (PUC-SP) e doutorando em Ciências pela USP (FFLCH). Pesquisa o sincretismo nas religiões de matrizes africanas, sobretudo as sequelas provocadas nos terreiros de Umbanda. É autor do livro "Sincretismo na Umbanda - pactos e impactos na identidade dos povos de terreiro". Apresenta o podcast “Atina pra Isso!”, onde promove um mergulho em saberes tradicionais de terreiros e cultura afro-brasileira.

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