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Caso Marielle: Justiça não apaga a dor, mas rompe o ciclo de impunidade

Num país onde a maioria das vítimas da violência tem cor e endereço certos, responsabilizar os mandantes de um crime político contra uma mulher negra é um precedente que precisa ser defendido com firmeza
Imagem mostra duas pessoas negras segurando uma bandeira do Brasil, com ilustrações dos rostos de Marielle Franco e Anderson Gomes, e escrita "o marco de um novo Brasil" e "Justiça por Marielle e Anderson".

Imagem mostra duas pessoas negras segurando uma bandeira do Brasil, com ilustrações dos rostos de Marielle Franco e Anderson Gomes, e escrita "o marco de um novo Brasil" e "Justiça por Marielle e Anderson".

— Reprodução/Instagram/Instituto Marielle Franco

28 de fevereiro de 2026

Os assassinos de Marielle Franco e Anderson Gomes foram condenados. É preciso começar assim pelo nome dos dois. Marielle, mulher preta, cria da Maré, socióloga, vereadora que denunciava as milícias e o genocídio da juventude negra. Anderson, trabalhador, motorista, pai de família, que estava ali exercendo seu ofício e teve a vida interrompida junto com a dela.

Durante anos, o Brasil assistiu à tentativa de transformar esse crime em estatística, em suspeita, em disputa narrativa. Mas não havia dúvida de que foi uma execução fria, um crime político para silenciar uma mulher negra que enfrentou estruturas criminosas.

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A recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que condenou em 25 de fevereiro de 2026 os mandantes Domingos e Chiquinho Brazão, além de outros três homens, marca um capítulo importante dessa história. Eles acreditavam na impunidade, apostaram no poder político, nas conexões e no silêncio. Apostaram que matar uma mulher preta não teria consequência.

No julgamento, o ministro Alexandre de Moraes foi direto ao afirmar que se tratou de “crime motivado por misoginia e racismo”. A declaração enfrenta um dos grandes desafios da ciência jurídica: caracterizar, no tipo penal, quando a violência política se estrutura a partir do ódio de gênero e raça. O caso Marielle inaugura um marco nesse debate, ao reconhecer que não se tratou apenas de eliminar uma adversária política, mas de atingir o que ela representava enquanto mulher negra no exercício do poder.

A justiça demorou muito, mas ela chegou, e isso importa.

Quando matam uma, querem intimidar muitas

Eu sou mulher preta, de periferia, e estou na política. Sei o que significa ocupar um espaço que não foi pensado para nós. Sei o que é ser questionada não pelo conteúdo das minhas ideias, mas pelo corpo que carrego, pelo território de onde venho, pela ousadia de existir.

O assassinato de Marielle é parte de um sistema que reage quando mulheres negras rompem o lugar que nos foi imposto. Marielle denunciava milícias, a violência policial, a política feita para poucos. Ela incomodava, e mulheres negras que incomodam pagam um preço alto no Brasil.

Por isso, esse julgamento tem um peso que vai além das condenações individuais. Ao reconhecer a motivação misógina e racista, o STF também afirma que não estamos diante de um episódio isolado, mas de uma engrenagem que combina discriminação estrutural e interesses criminosos para tentar nos expulsar da vida pública.

Combate à violência política de gênero

Quando ajudamos a construir, em Minas, a primeira lei estadual de combate à violência política contra a mulher, não foi porque o tema estava “na pauta”. Foi porque estava em nossas vidas.Eu recebi ameaças, precisei andar com escolta, tive que reorganizar rotina, deslocamento, agenda.

Não é normal que uma pessoa eleita precise calcular risco para exercer o mandato. Mas essa é a realidade quando você é mulher, preta e decide enfrentar estruturas de poder.

E eu não sou exceção. Outras parlamentares passaram — e passam — pelo mesmo. Vereadoras ameaçadas no interior. Deputadas atacadas nas redes e fora delas. Mulheres que têm seus filhos expostos, suas famílias intimidadas, seus corpos transformados em alvo político.

Começa quando questionam nossa capacidade, atacam nossa honra, transformam divergência política em ataque pessoal e tentam nos convencer de que aquele espaço não é para nós.

A morte de Marielle escancarou até onde isso pode chegar quando racismo, misoginia e interesses criminosos se encontram. Não era apenas sobre interromper um mandato, mas sim mostrar o que pode acontecer com uma mulher negra que enfrenta milícias, denuncia abusos e ocupa o poder sem pedir licença. Era um recado para todas nós, mas não funcionou. Seguimos ocupando, disputando, legislando e resistindo, mesmo sob ameaças

A justiça tardou, mas foi feita

É impossível falar de justiça sem lembrar da família. Da dor que atravessou anos, da espera, da cobrança permanente dos movimentos sociais, da mobilização nacional e internacional que impediu que o caso fosse enterrado.

A própria trajetória de Anielle Franco mostra como a luta por memória e justiça também se transforma em política pública. A condenação não devolve Marielle e Anderson, não apaga o trauma coletivo, mas quebra a lógica de que homens poderosos podem mandar matar e permanecer impunes.

Num país onde a maioria das vítimas da violência tem cor e endereço certos, responsabilizar os mandantes de um crime político contra uma mulher negra é um precedente que precisa ser defendido com firmeza.

Marielle virou símbolo porque sua vida representava algo maior: a possibilidade de uma política construída desde a favela, desde as mulheres negras, desde quem sempre esteve do lado de fora do poder.

Quando mataram Marielle, tentaram matar essa possibilidade. Não conseguiram. Hoje, escrevo este artigo com a certeza de que seguiremos. Queremos fazer política sem medo e disputar projetos para o Brasil sem que nossos corpos sejam colocados como alvo.

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Andreia de Jesus
    Andreia de Jesus é advogada, educadora popular, mãe solo, deputada estadual pelo PT e vice-presidenta da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

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