Da série “como o futebol explica o mundo”, um olhar sobre a Copa Africana das Nações permite compreender diversas dinâmicas políticas, sociais e culturais do continente, a partir do ambiente efervescente dos jogos. Disputada entre 21 de dezembro de 2025 e 18 de janeiro de 2026, a 35ª edição da competição na modalidade masculina ocorreu em Marrocos que, por sua vez, se prepara para sediar a Copa do Mundo de 2030, a ser disputada também em Portugal e Espanha. Como anfitrião, o país se destacou pela organização à altura do chamado “padrão FIFA”, exibindo estádios de arquitetura sofisticada e atendendo a critérios de segurança e funcionalidade pouco comuns em África, diga-se a verdade. De uma maneira geral, deve se considerar que a competição foi um sucesso, apesar do estádios estarem notoriamente vazios, sobretudo na sua fase inicial.
Para compreender as tais dinâmicas acima mencionadas, logo de cara, chama a atenção o fato de ser um evento patrocinado pela TotalEnergies, empresa multinacional francesa do setor de energia, voltada à exploração de petróleo, biocombustíveis, gás natural, energias renováveis e eletricidade. Presente em mais de 130 países, a companhia originalmente fundada com capital estatal é certamente uma das maiores representantes do poder econômico do capitalismo ocidental.
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Particularmente se pensarmos na sua atuação intensa no continente africano, onde a França manteve diversas colonias desde meados e fins do século XIX, o fato de uma empresa desta natureza patrocinar o maior evento esportivo do continente confirma a continuidade do exercício do poder imperialista europeu nesta região do mundo, a que muitos classificam como uma forma de “neocoloniaismo”.
Este dado torna-se ainda mais dramático num momento em que ocorrem, em diversos países, alguns movimentos de clara e frontal contestação à persistência da influencia política e econômica francesa, cujo principal exemplo é Aliança dos Estados do Sahel (AES). Trata-se de uma aliança militar e diplomática entre Burkina Faso, Mali,e Níger criada em 2023, após a eclosão de golpes de estado que derrubaram as elites políticas locais alinhadas ao “Ocidente”.
Na sequência, instaruraram-se regimes militares que, entre outras ações, romperam relações diplomáticas e militares com a França, assim como adotaram políticas de nacionalização dos recursos naturais. Entretanto, o rompimento não se restringiu ao antigo colonizador: a aliança abandonou igualmente a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO, na sigla em inglês), o bloco econômico da região, sob a acusação de este garantir os interesses do Ocidente nos assuntos locais. A despeito disso, à exceção do Níger, as seleções da AES disputaram normalmente a competição, sem grandes resultados expressivos.
Sobre este pano de fundo revelador da relação entre o futebol e os poderes políticos, surgiu como inusitado contraste a figura de Michel Kuka Mboladinga, que se tornou o torcedor-símbolo desta edição da Copa. Presente em todos os jogos da República Democrática do Congo, Mboladinga ganhou a atenção dos holofotes globais pela homenagem prestada a Patrice Lumumba, o principal líder da luta pela independência do país. Durante as partidas, o torcedor permaneceu os 90 minutos de pé com o braço direito esticado, reproduzindo um gesto consagrado do então primeiro-ministro do Congo, assassinado em 1961, poucos meses após assumir o governo.
A sua morte possui um alto significado simbólico para os africanos em geral, seja pela firmeza política e ideológica com que se posicionou perante o imperialismo belga, seja pela brutalidade com que foi assassinado pelas forças de segurança coloniais em conluio com a CIA. E talvez, mais ainda, pelo caráter emblemático do processo de exploração colonial no Congo, do seu povo e dos seus recursos naturais, bastante representativo do continente como um todo.
Se durante a virada do século XIX para o XX, o território foi palco de um dos maiores genocídios da História (perpetrado pelo rei Leopoldo II da Bélgica, responsável direto pela morte de cerca de 10 milhões de pessoas), atualmente a RDC vive uma guerra que já dura mais de 30 anos, igualmente resultante de disputas geopolíticas em tornos dos seus recursos minerais, indispensáveis para a indústria tecnológica contemporânea. Em suma, a história congolesa e a figura pessoal de Lumumba inspiram a mais profunda reverência em todo o continente, que acabou por ser abalada num incidente ocorrido durante a partida entre a RDC e a Argélia.

Ao final da disputa pelas oitavas-de-final entre as duas seleções, o jogador argelino Mohamed Amoura comemorou o gol da vitória diante de Mboladinga, imitando o seu gesto e o ridicularizando. O seu comportamento foi largamente interpretado como uma flagrante falta de respeito não apenas em relação a uma figura simbólica, mas a todo um ideal de luta pela libertação do continente. Ideal para o qual a Argélia, como país, contribuiu decisivamente, abrigando diversos movimentos independentistas – tais como Frelimo (Moçambique), ANC (África do Sul), MPLA e FNLA (Angola) – e oferecendo condições para o seu treino militar e estratégico.
O mal estar gerado pela situação foi tamanho a ponto de a federação argelina fazer uma retratação pública, acompanhada de um gesto de deferência oficial ao célebre torcedor congolês. Apresentadas as desculpas, o ruído provocado pelo episódio levantou ainda outra questão recorrente ns relações internas entre as nações africanas: o estranhamento mútuo entre as assim chamadas “África negra” e “África branca”. Idealmente, a primeira seria representada pela região subsaariana do continente, enquanto a segunda compreenderia os países ao norte, histórica e cultralmente mais identificados com a civilização árabe e o Oriente Médio.
Ao longo das quase sete décadas de edições do torneio, os confrontos entre seleções “representativas” dessas regiões têm sido marcados por uma grande rivalidade que divide a preferência do público a partir do corte racial. Um claro exemplo disso foi a torcida da “África negra” a favor da Nigéria na disputa das quartas-de-final contra a Argélia, numa espécie de revanche simbólica pelo gesto do Amoura.
Entretanto, ainda sobre este tema, o “ápice” ainda estaria por vir. E veio na histórica final disputada entre outras duas seleções tradicionais, igualmente “representantes” destas duas “Áfricas”: Marrocos e Senegal. A primeira, como anfitriã, tinha a seu favor o fator casa, beneficiando-se da presença massiva de sua torcida e do ambiente de promoção da imagem nacional, como uma das sedes da Copa do Mundo de 2030. Para além de um bom desempenho futebolístico; seja na competição propriamente dita, bem como pelo resultado extraordinário alcançado na última copa (disputada no Catar), em que conquistou o terceiro lugar, inédito para uma equipe africana. Por sua vez, o Senegal vem consolidando o seu status como uma das melhores equipes de futebol do mundo, obtendo resultado expressivos frente a equipes tradicionais.
A despeito da excelente qualidade técnica apresentada, a partida ficou marcada por um fato extraordinário que, incusive, poderia ter manchado a imagem do futebol africano como um todo. Nos minutos finais, o árbitro marcou um pênalti duvidoso a favor de Marrocos, instantes depois da anulação igualmente questionável de um gol do Senegal. Foi o estopim para que o técnico senegalês orientasse os seus jogadores a abandonarem o campo, em protesto. Após uma longa paralisação e constrangimento geral de ambas as partes, o jogo foi retomado, tendo o penalti sido desperdiçado de forma polémica devido à displicência com que foi cobrado.
Enfim, a questão que se colocou foi a de uma acusação tácita por parte de Senegal de favorecimento da arbitragem a Marrocos pelo fato deste ser o anfitrião. E daí para uma acusação de cunho racial, foi um passo, pelo menos no imaginário dos torcedores espalhados por todo o continente. Assim, diante da dúvida generalizada que pairou no ar, o resultado de empate no tempo regulamentar soou como uma espécie de compensação moral de um suposto erro de arbitragem. Enfim, durante a prorrogação, a equipe senegalesa marcou o único tento da partida, sagrando-se campeão africano pela segunda vez, reafirmando o seu lugar de honra a nível continental.
Encerrado o torneio, a polêmica continuou nas redes sociais em diversos países, a partir das contas de figuras públicas e influenciadores, defendendo as respetivas posições. Basicamente, o cerne da questão está numa percepção difusa no senso comum de que, supostamente, os cidadãos dos países do Magreb (a norte do deserto do Saara) não se consideram como propriamente “africanos” por conta dos estigmas historicamente associados a esta identidade.

Controvérsias à parte, o importante a registrar aqui é o caráter dinâmico e não fixo das identidades culturais, em meio a relações de poder e representações simbólicas, constantemente mobilizadas em eventos de massa como um campeonato de futebol de dimensão continental. E enfim, não deixa de ser curioso o fato de que, do ponto de vista etimológico, o termo “África” ter origem na civilizaçao greco-romana clássica, justamente para se referir à região norte do continente, com a qual tinha contato e trocas culturais…
Apontando para o futuro, a próxima edição da competição segue a tendência mundial dos grandes eventos esportivos e será disputada pela primeira vez em três países: Quênia, Tanzânia e Uganda, entre junho e julho de 2027. Como justificativa para o evento, o projeto da candidatura, intitulado AFCON Pamoja 2027, apela para um fator de identidade cultural bastante importante na chamada África Oriental: a civilização suaíli, cujo patrimônio histórico e cultural é compartilhado por esses e outros países da região.
Em língua suaíli, pamoja quer dizer algo como “juntos” e como mote, promete ser uma ação de integração econômica regional, bem como uma ação para o desenvolvimento de cada membro individualmente. Não obstante, deve-se atentar para o fato de que as três nações têm vivido situações de alta tensão política nos últimos anos que podem, eventualmente, se prolongar até o momento da próxima copa africana. Temor que se aplica também em relação à realização da próxima Copa do Mundo nos Estados Unidos, diga-se de passagem.
Por fim, vale a pena registrar o desempenho das seleções que compartilham o mesmo passado colonial com o Brasil, os chamados Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP). Sem grande tradição na competição, Angola e Moçambique tiveram o fraco desempenho costumeiro, tendo a última conseguido passar da primeira fase pela primeira vez. E embora não tenha participado desta 35ª edição, a seleção de Cabo Verde tem sua presença inédita confirmada na Copa do Mundo a ser disputada este ano.